O Algarve em 1846, num Guia de Viagens francês!

Uma viagem pelo Algarve, há 150 anos, com o «Guide du Voyageur en Espagne et en Portugal»

O Verão é, nos nossos dias, sinónimo de férias e com elas as viagens e a praia. Já aqui recordámos que as praias algarvias apenas começaram a ser frequentadas nas primeiras décadas do século XX. Antes, os banhos de mar não atraíam gentes à província sulina.

Na verdade, não havia com assiduidade «passagem de pessoas estranhas» pela região, como referia, em 1841, o lacobrigense João Baptista Lopes, na sua «Corografia do Reino do Algarve».

Pese embora esta realidade, o Algarve já era incluído nos guias dos viajantes europeus, como o publicado em Paris, por Richard et Quétin, em 1846, intitulado «Guide du Voyageur en Espagne et en Portugal», numa edição de L. Maison.

Redigido em francês, a língua cosmopolita de então, o livro visava colmatar uma lacuna, iluminar todos aqueles que viajavam em negócios ou em divertimento, afinal, «as nações sentiram a necessidade de se conhecerem; para se conhecerem, é preciso visitar ou estabelecer relações recíprocas, e os únicos meios de alcançar esse objetivo são através das viagens e das trocas comerciais», como escreviam os seus autores.

O guia tinha, assim, o propósito de indicar «as produções e a indústria, os monumentos e as artes, os costumes e as curiosidades naturais de um país».

Com cerca de 400 páginas dedicadas à Península Ibérica, reserva somente 70 a Portugal e, ao Algarve, pouco mais de duas. Verdade seja dita, na capa apenas faz referência a «Espagne», só no interior surge o título completo.

Se muitas expressões e palavras são apresentadas com a correspondente tradução de francês para castelhano, para português tal não acontece. Portugal era distante e periférico, até mesmo para os franceses, e ao contrário dos nossos dias, não estava definitivamente na moda.

 

Mas regressemos ao quase bicentenário guia. Para Espanha, são apresentados 71 itinerários, enquanto para terras lusas somente 11, os quais não deixam de percorrer todo o país. Percursos que, a fazer fé na introdução, não esqueceram «nem uma estrada, seja qual for a sua importância […], nem uma cidade, nem uma aldeia ou um lugar notável (…); a descrição não só dos edifícios e das curiosidades naturais, mas também das alfândegas, dos costumes de cada localidade, bem como dos produtos agrícolas ou industriais, será descrita com cuidado e de acordo com as melhores autoridades».

As viagens realizavam-se por estrada, recorde-se que o caminho de ferro só chegou a Portugal em 1856 e, ao Algarve, 33 anos depois. Por isso, o guia advertia que, no país, eram poucas as boas estradas.

Os viajantes de maiores posses poderiam alugar um carro (carruagem de duas rodas, puxada por duas mulas, e de dois lugares), já os menos abonados tinham à disposição os almocreves (mensageiros, que conduziam em mulas, despachos ou mercadorias de um lugar para outro), ou podiam até mesmo viajar num burro, que encontrariam com facilidade nas aldeias.

Ainda, no caso dos almocreves, o cliente devia pagar-lhes sempre a alimentação, independentemente do preço acordado para a viagem.

Este último deveria ser fixado com cuidado, sendo aconselhado demonstrar pouco entusiasmo e muita firmeza, pois os almocreves eram frequentemente inconvenientes, zangando-se com os viajantes.

Um outro conselho ao turista, como hoje diríamos, prendia-se com a necessidade de viajar armado, principalmente nas zonas de fronteira, embora fosse feita a ressalva que Portugal era mais seguro que a Espanha, os contrabandistas eram apontados tão perigosos quanto os ladrões profissionais.

 

Três dos itinerários propostos no «Guide du Voyageur en Espagne et en Portugal» cruzam o Algarve: de Lisboa a Faro, por Castro Verde; De Faro a Castro Marim, por Tavira; e de Faro a Lagos.

A viagem de Lisboa a Faro, por Castro Verde, compreendia 41 léguas. Depois de sair da capital do reino, o passageiro aportava na pequena aldeia da Moita, onde os habitantes se dedicavam à pesca e à agricultura, produtos que vendiam depois em Lisboa.

Seguidamente, os viajantes iriam encontrar belas planícies cobertas de oliveiras, videiras e trigo; junto às linhas de água, a vegetação não esperava pela mão do homem, as plantas de climas equatoriais cresciam por conta própria, como se acusassem a sua negligência e ignorância.

As aldeias eram aqui ainda mais raras do que nas estradas do norte e centro do país. O primeiro e mais importante lugar no itinerário seguido, de aldeias pequenas e insignificantes, era Aljustrel. Uma localidade que parecia bastante povoada, num bonito vale no sopé das serras.

Três horas depois, sem aldeias e atravessando belas planícies, atingia-se Castro Verde, uma pequena povoação, com 2100 habitantes, onde, na ribeira de Cobres, o viajante podia pescar muito bom peixe. Como curiosidades, em Castro eram elencadas a igreja e o bonito hospital.

O trajeto seguia para Almodôvar, durante três horas, sem encontrar venda alguma, apenas atravessando planícies férteis, mas mal cultivadas. «É isso que é oferecido aos olhos do viajante», rematava o entendido guia.

Almodôvar foi considerada uma localidade admirável, pela sua localização pitoresca num belo vale, no sopé da serra do Caldeirão, sendo-lhe atribuída uma população de 2500 habitantes.

A partir de então, o percurso era feito na serra algarvia, com paragem na Corte Figueira (freguesia de Santa Cruz, Almodôvar). Vilarejo sem importância, mas indispensável para renovar as provisões, afinal era «necessário caminhar por seis horas sem ter a certeza de encontrar algo para comer até Loulé», seis léguas depois.

«Loulé, grande povoação na província do Algarve, situada numa colina coberta de madeira e à beira de uma montanha que contém uma rica mina de prata. Não muito longe, há outra mina de cobre. Existem várias igrejas em Loulé e um hospital. População 8250 habitantes». Curiosa a referência de uma mina de prata nas imediações da localidade, inequívoca é hoje a de sal-gema, mas então nem em sonhos a mesma se vislumbrava.

A paragem seguinte, depois de percorridas 2 léguas, era Faro, onde se chegava por um declive suave, após magníficas encostas. Descrita como cidade principal, sede de comarca e de bispado, estava situada numa rica planície, na foz do Valeformoso, «um belo rio que se eleva não muito longe dali, na encosta sul da Serra Caldeirão, e flui para o oceano, onde se forma o porto de Faro».

Cidade bem construída, com belas ruas e cercada por muros. Como curiosidades, foram elencadas a catedral, alvitrada como vasta e de boa arquitetura, a bela praça, a igreja paroquial, simples e nobre, o colégio, o seminário e o hotel.

O porto, tido como seguro, era defendido por uma cidadela. Relativamente ao comércio, destacava-se a grande exportação de laranjas, sumagre, cortiça e frutos secos. Tinha importância a pequena cabotagem e a pesca. A população era de 7600 habitantes.

O percurso de Faro a Castro Marim compreendia 8,5 léguas: cinco até Tavira; mais uma a Cacela; e depois 2,5 até ao término do percurso. «Deixando Faro, viajamos na encosta sul da longa cadeia de serras que partilham as províncias do Algarve e Alentejo, a estrada, sem ser muito boa, é agradável pelos belos pontos de vista de que desfrutamos. As cinco horas que temos de percorrer a distância entre Faro e Tavira fluem muito rapidamente».

 

Tavira era apresentada como capital, sede de um corregedor e do governador da província. No entanto, em 1846, na sequência das reformas administrativas advindas do Liberalismo, já haviam sido instituídos os distritos, chefiados pelo governador civil e suprimidos quer os corregedores, quer o governador da província.

No Algarve, como é do conhecimento geral, o governo civil ficou sediado em Faro, pelo que aquelas informações estavam desatualizadas.

A “Veneza algarvia”, localizada próximo do oceano, tinha um pequeno porto que admitia barcos de tamanho médio. Exibia uma bela igreja catedral, duas paróquias, seis conventos e vários asilos. Como curiosidades, eram indicadas a catedral e duas igrejas, enquanto na indústria evidenciava-se a pesca e a exportação de «bons» vinhos brancos. A população era de 8650 habitantes.

Antes de chegar a Castro Marim, o viajante atravessava Cacela, «pequena localidade onde os habitantes se dedicavam à pesca». Duas horas depois, chegava-se a Castro Marim, pequena cidade, com 2200 habitantes, localizada na margem direita do Guadiana, fronteira a Ayamonte, cidade da Andaluzia.

Como ponto de interesse foi elencado o velho castelo. Já na indústria, destacava-se a pesca e a salicultura. Com a vila raiana, terminava o percurso pelo Sotavento algarvio.

 

Todavia, ainda mais breve e sucinto foi o roteiro do Barlavento.

Entre Faro e Lagos mediavam 10,5 léguas: 4,5 até Albufeira; quatro até Vila Nova de Portimão e por fim duas léguas até Lagos.
Com 3000 habitantes, Albufeira era uma povoação grande, localizada sobre uma baía que podia admitir grandes embarcações, sendo o porto defendido por baterias fortes.

Em termos de indústria, salientava-se a pesca e a cabotagem. A estrada oferecia os mesmos aspetos que já haviam sido percorridos.

A seguir, atingia-se Vila Nova de Portimão, «uma pequena cidade» com fortificações e bonita localização na foz do pequeno rio de Silves. Após duas horas de jornada, o viajante entrava em Lagos.

Cidade antiga, cuja fundação era atribuída aos cartagineses, a sua localização «não pode ser mais feliz: uma bela baía, vasta e profunda, forma um porto capaz de receber barcos de grande tonelagem».

Anotava a presença de várias igrejas, apesar de as considerar «não muito notáveis». Mas referia a cidade como local de residência do governador da província, que, como referimos, já não existia. Em termos industriais, elencava a cabotagem e a pesca, sem esquecer que os arredores forneciam vinhos bastante afamados.

 

Em terras de Lacóbriga, terminava o périplo pelo Algarve. Se é certo que as principais localidades foram incluídas no guia, há duas ausências notadas: Silves e Vila Real de Santo António.

A primeira, apesar de cidade, constituía uma pequena aldeia, que a indústria corticeira começara, por aqueles anos, já a transmutar, ainda que de forma diminuta, todavia dotada de um amplo castelo e de uma catedral citável.

Quanto a Vila Real, de fundação régia, cidade iluminista, havia sido erigida apenas 70 anos antes e talvez por isso omitida. Por outro lado, também Monchique e as suas Caldas, bem como Sagres, foram ignorados.

Embora separado por mais de 170 anos, o Algarve dos nossos dias conserva reminiscências destas descrições. É certo que as viagens são hoje muitíssimo mais cómodas e velozes, é inimaginável o desconforto de viajar no dorso de um muar durante quatro dias, ou mesmo mais, entre Lisboa e Faro, ao sol ou à chuva. Também as vias de comunicação e veículos são, comparativamente, excelentes.

Todavia, a localização das vilas e cidades, as paisagens, o sal de Castro Marim, a pesca, ou mesmo os bons vinhos da região mantêm-se. E se, então, eram poucos ou inexistentes os turistas que demandavam a Portugal e ao Algarve, em particular, hoje são aos milhares que visitam e percorrem uma das regiões mais cosmopolitas do país.

 

 

Autor: Aurélio Nuno Cabrita é engenheiro de ambiente e investigador de história local e regional, bem como colaborador habitual do Sul Informação

Nota: As citações resultam de tradução livre. O guia não contém imagens, as gravuras utilizadas são do século XIX e meramente ilustrativas.

 

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