Alterações climáticas põem Praia de Faro debaixo de água e alagam Quarteira em 2100

Principais preocupações são a subida do nível do mar, o aumento da temperatura e as disponibilidades hídricas

Até 2100, a subida do nível médio do mar vai levar a que a linha de costa ultrapasse o local onde hoje existe a estrada, na Praia de Faro, e a que a Península do Ancão fique submersa, em caso de cheias. Em Quarteira, a água vai encostar aos primeiros prédios e chegar à segunda linha de edificações, em dias maus.

Estes são apenas dois exemplos dos impactos das alterações climáticas no Algarve, mas dão bem a perceber o quão profunda terá de ser, em alguns casos, a adaptação que a região terá de operar. Foi a pensar nesse caminho que a AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve encomendou o Plano Intermunicipal de Adaptação às Alterações Climáticas, que foi apresentado ontem, dia 4, no Campus das Gambelas da Universidade do Algarve, em Faro.

A elaboração do plano envolveu reputados académicos, sob a coordenação científica e executiva de Luís Dias e com a coordenação não executiva de Filipe Duarte Santos, um dos maiores especialistas europeus em alterações climáticas, mas também técnicos das autarquias do Algarve, bem como organizações ambientais e associações regionais.

Mais do que fazer uma análise das fragilidades da região e de projetar quais serão os impactos das alterações climáticas, o documento aponta caminhos para a adaptação e medidas que deverão ser tomadas, algumas desde já, para mitigar os efeitos das mudanças que se aproximam.

Como explicou ao Sul Informação Luís Dias, à margem da sessão de apresentação do plano, «há três preocupações principais: a subida do nível médio do mar, o aumento da temperatura, que levará a eventos extremos, como ondas de calor, e a disponibilidade hídrica».

A subida do nível médio do mar é um problema de longo prazo, mas é, ao mesmo tempo, aquele que gera mais preocupações aos que vivem em localidades junto ao litoral e o que prevê os caminhos de adaptação mais duros.

«A primeira abordagem, tirando um ou outro caso pontual, parece que será a alimentação artificial de praias. Mas a médio prazo essa alimentação poderá tornar-se excessivamente dispendiosa. E nessa altura terá de ser feita uma análise custo/benefício das medidas, nomeadamente se compensa continuar a pôr areia ou há outras soluções melhores, como a construção de paredões ou mesmo a relocalização de algumas habitações», explicou o coordenador do plano.

«O recuo da linha de habitações é uma hipótese. Havemos de chegar a uma altura em que sai mais barato relocalizar do que continuar a pôr areia», reforçou.

Luís Dias

Até porque, explicou Luís Dias, a subida do nível médio do mar é um fenómeno «que tende a ser exponencial. Inicialmente, a subida é relativamente vagarosa, mas depois começa a subir cada vez mais depressa».

Por outro lado, há que contar com o período de latência deste fenómeno. «Mesmo que deixemos de emitir, que as emissões passem a ser zero, o nível médio do mar continua a aumentar durante décadas, antes de estabilizar e, eventualmente começar a recuar. Ou seja, é um impacto de muito longo prazo».

Os efeitos da subida do nível do mar – que, no pior cenário analisado no estudo pode ser de um metro, até 2100 – ainda se demorarão a fazer sentir, pelo menos em força, mas há efeitos das alterações climáticas que já estão bem presentes.

E aquele em que é necessário começar, desde já, a trabalhar, para acautelar o futuro é o das disponibilidades hídricas.

«Há muita coisa que pode avançar já. No que diz respeito aos recursos hídricos, o que ficou mais ou menos delineado é que se faria um esforço em tudo o que estiver relacionado com a diminuição de perdas nas redes, para que haja um combate mais efetivo e concertado, bem como mais disponibilidade financeira, para fazer frente a esse desígnio», explicou o coordenador do plano.

Outra proposta do plano é a reutilização das águas residuais, «que é algo que já se fala há muitos anos em relação ao Algarve», uma medida que, na visão de Luís Dias «poderá trazer benefícios para a região».

Filipe Duarte Santos, que também falou com o Sul Informação, não hesita em afirmar que «um dos principais problemas é a questão da água».

«As disponibilidades de água vão diminuir. O Algarve tem alguns aquíferos que são muito resilientes, como seja o de Querença-Silves, mas o facto é que a precipitação anual média está a baixar, alguns aquíferos têm sido utilizados para além da sua sustentabilidade e as suas águas estão a ficar salinizadas e, em alguns casos, poluídas», enquadrou.

Isto leva a que «tenhamos de encontrar outras disponibilidades de água. Temos de seguir o exemplo de outros países da região do Mediterrâneo, que é uma zona particularmente vulnerável às alterações climáticas, à semelhança de Espanha, Itália e Israel, que são países que já praticam a reutilização das águas residuais urbanas».

 

 

Para este reputado especialista, «é importante que haja uma legislação que permita fazer a reutilização dessas águas residuais com tratamento terciário. Mas esta lei terá de ser simples de aplicar e tenha a adesão dos agricultores, os cidadãos, das empresas, das organizações e das Câmaras».

Afinal, aquilo que consome mais água no Algarve e no Alentejo é a agricultura irrigada, pelo que há que ser pragmático e «fazer leis exequíveis e que sejam fáceis de pôr em prática, como está a suceder noutros países. Em Espanha, 17% da água utilizada no regadio é água residual urbana tratada. Em Portugal, não chega a 2% e não há razão nenhuma fundamental para que não possamos fazer o mesmo».

«Já se reutiliza essa água para lavar ruas e para regar campos de golfe. Agora, é preciso passar para a agricultura e fazer a utilização no regadio. Mas é diferente regar com águas residuais um olival intensivo ou pêra abacate – que é algo que é muito rentável aqui no Algarve e que há uma grande pressão para ser desenvolvido – ou estar a irrigar, por exemplo, alfaces. Temos de aprender com outros países que já estão mais avançados que nós nestas práticas», acrescentou Filipe Duarte Santos.

A legislação pedida pelo especialista português em alterações climáticas já está na agenda do Governo, nomeadamente do ministro do Ambiente, garantiu, entretanto, aos jornalistas a ministra do Mar Ana Paula Vitorino, que ontem esteve na sessão de apresentação do plano.

Ainda no campo da disponibilidade hídrica, os autores do plano sugerem «a criação de paisagens de retenção de água, que são muito relevantes, já que combinam diferentes abordagens para que esta fique retida e não se perca no mar».

Embora o trabalho contemple a possibilidade da construção de uma nova barragem no Algarve, Luís Dias salienta que não é «bem disso que se trata, já que estas são sempre infraestruturas muito pesadas».

«Uma boa estratégia é a criação de lagos artificiais, porque não só retém a água como promovem a sua infiltração no aquífero. Aqui no Algarve já existiam muitos açudes na serra, cuja recuperação seria uma mais valia para fazer frente aos impactos das alterações climáticas», revelou o coordenador do plano.

 

 

Também «premente», na visão de Filipe Duarte Santos, é o problema das florestas e dos incêndios florestais. «Em Monchique, houve um retorno do incêndio na serra com um intervalo de apenas 15 anos. Houve um incêndio muito grande em 2003 e houve outro no ano passado. A floresta não aguenta períodos de retorno de 15 anos sistemáticos.

Vai-se degradar e vão aparecer mais espécies invasoras. Esse é outro desafio muito forte que temos, para o futuro e para o presente».

Neste campo, os autores do plano por aproveitar o «muito trabalho» que já foi feito, «nomeadamente pelos grupos de trabalho que se constituíram na sequência dos grandes incêndios. Neste campo nós não nos sobrepomos ao que eles propõem».

«O que fazemos é sensibilizar para outras questões, nomeadamente uma paisagem mais diversificada, a utilização de animais para comerem o mato e de técnicas agro-silvo-pastoris», explicou Luís Dias.

Feito o plano e envolvidos os técnicos das autarquias, que foram chamados a participar em sessões de trabalho com os autores do plano e têm sido uma parte importante deste processo, a bola está do lado dos decisores políticos.

E, garantiu ao Sul Informação Jorge Botelho, presidente da AMAL, a vontade dos presidentes de Câmara de região «é começar já a fazer coisas».

«O próximo passo é entregar o plano ao Governo e queremos que as preocupações que aqui estão expressas sejam consideradas nos futuros orçamentos das instituições e no contexto do quadro comunitário de apoio 2020-30, que está agora em discussão», disse.

Jorge Botelho lembrou que a adaptação às alterações climáticas é uma das prioridades do Governo, com a qual os municípios algarvios estão «completamente alinhados».

«O facto de sermos pioneiros a nível nacional na elaboração deste plano intermunicipal coloca-nos um passo à frente», acredita Jorge Botelho, que avisa que o esforço financeiro necessário não poderá ser exclusivamente das instituições locais e regionais.

 

Fotos: Rodrigo Damasceno|Sul Informação

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