Vai nascer um hotel de 5 estrelas e campo de golfe em zona Natura 2000 junto a Silves

Em paralelo com o Plano de Pormenor, irá ainda decorrer a Avaliação do Impacte Ambiental

Um campo de golfe de 18 buracos, uma unidade hoteleira de 5 estrelas com 700 camas e um espaço relvado para a prática desportiva, apoiado por infraestruturas destinadas a estágios desportivos, estão em fase final de planeamento na zona da chamada Feitoria Fenícia, às portas da cidade de Silves.

A Câmara de Silves anuncia, em nota de imprensa, que «a implementação deste projeto representa um investimento global de 50 milhões de euros, com a criação de mais de uma centena de postos de trabalho diretos».

O contrato para a elaboração do Plano de Pormenor deste projeto de desenvolvimento turístico foi assinado, no dia 27 de Maio, pela presidente da Câmara Municipal de Silves e pelo representante do promotor do plano.

O projeto do empreendimento denominado Feitoria Fenícia – por abarcar terrenos onde se localiza o sítio arqueológico da Rocha Branca, destruído nos anos 90 – prevê a criação de infraestruturas para a realização de estágios desportivos, destinadas a «equipas instaladas no hotel e em construções existentes que serão recuperadas e adaptadas ao novo uso».

Inclui também um percurso pedonal ao longo do Rio Arade e um espaço natural para observação de aves e educação ambiental, que integrará um conjunto de tanques que correspondem à “Tapada do Moinho do Valentim” e o próprio Moinho do Valentim, que «será objeto de intervenção de reabilitação e adaptação a centro de educação ambiental», salienta a Câmara de Silves.

Na assinatura do contrato, estiveram ainda presentes o vice-presidente da Câmara de Silves, assim como a equipa técnica envolvida na elaboração do plano.

 

A abertura de procedimento de elaboração do Plano de Pormenor da Feitoria Fenícia, com os respetivos Termos de Referência e a minuta de Contrato para Planeamento, tinha já sido alvo de aprovação através de deliberação do executivo municipal, em reunião realizada a 11 de Março último.

Em paralelo com esta fase obrigatória da elaboração do Plano de Pormenor, irá ainda decorrer a Avaliação Ambiental Estratégica, que contemplará momentos de participação pública.

O projeto do campo de golfe já tinha sido, em 2014, sujeito a Avaliação do Impacte Ambiental, altura em que suscitou críticas, nomeadamente da Quercus. A associação ambientalista sublinhou, então, que o campo de golfe da Feitoria Fenícia, em Silves, provocará «mais destruição de solos agrícolas» e afetará «34 habitats em plena Rede Natura 2000 no concelho».

Os ambientalistas recordavam, nomeadamente, que a área do projeto (61,90 hectares) integra quase na sua totalidade (55,82 hectares) o Sítio de Importância Comunitária “Arade/Odelouca” da Rede Natura 2000, estando também classificado como Reserva Agrícola Nacional (RAN), «o que significa que estes solos são aptos para a atividade agrícola, onde constam vestígios de plantações recentes».

Este projeto, que contemplava apenas o campo de golfe, recebeu, a 15 de Dezembro de 2014, parecer «Favorável Condicionado», ou seja, foi aprovado, mas com a imposição de diversas condições.

As condições passavam, nomeadamente, pela exigência de «medidas de proteção para cheias extraordinárias» ou de «solução técnica/projeto paisagístico para a conservação do talude onde se encontram os vestígios arqueológicos do Cerro da Rocha Branca».

O nome «Feitoria Fenícia» baseia-se no facto de, no Cerro da Rocha Branca, área integrada nesta propriedade, se ter situado, entre os séculos V e II antes de Cristo, ou seja, há cerca de 2500 anos, um provável povoado comercial fenício-púnico, talvez a origem mais remota da atual cidade de Silves, que haveria depois de deslocar-se umas centenas de metros mais para montante do Rio Arade e nascer noutra colina mais a nordeste.

O Cerro da Rocha Branca, que consta da carta arqueológica de Silves, tem uma história bem atribulada. É que, há cerca de 25 anos, quando esse então importante povoado fenício – onde foram descobertas estruturas «ciclópicas» e cerâmicas gregas datadas do início do século IV a. C – estava a ser sujeito a escavações coordenadas pelo arqueólogo Mário Varela Gomes, os então proprietários do terreno mandaram máquinas pesadas destruir as estruturas arqueológicas, alegadamente para, nesse monte, plantar laranjeiras.

O caso acabou em tribunal, tendo os proprietários sido condenados a pagar uma quantia em dinheiro – sanção quase inédita à época – como indemnização pela destruição dos vestígios arqueológicos. A verdade é que nunca mais os investigadores voltaram ao Cerro da Rocha Branca e o processo de classificação do sítio arqueológico foi suspenso porque os trabalhos das máquinas tinham mesmo destruído por completo o muito que ainda restava da possível feitoria fenícia…

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