Um passeio familiar à Ovibeja – terra, agricultura e alterações climáticas

Os próximos desafios já aí estão: as alterações climáticas, a transformação tecnológica e digital, a sucessão intergeracional dos empresários e dirigentes agrícolas

Fui, no sábado passado, em passeio familiar à Ovibeja. Tenho raízes alentejanas, volto sempre com uma ternura especial. É a minha terra, e é na Terra que vivemos e nos alimentamos.

“Terra, Agricultura e Alterações Climáticas no Alentejo” é o mote da exposição interativa composta por vários tipos de leitura sobre o que está a acontecer ao nosso Planeta e como podemos transformar um problema numa oportunidade de mudança ambientalmente saudável. Na visita, sigo, de muito perto, o texto e as palavras do guia da exposição temática.

 

Terra, agricultura e alterações climáticas

A exposição apresenta-se no Pavilhão Terra Fértil, através de um túnel retro iluminado, onde são projetados, em diversos monitores, noticiários de todo o mundo com imagens sobre ocorrências extremas que já estão a acontecer, incêndios, secas, cheias, granizo, tufões, etc.

“As alterações climáticas não são uma ameaça, já estão a acontecer” é a frase que procura mostrar a todos os visitantes que já começou há muito o tempo de mudar atitudes, fazendo desta questão um desafio! Este é um “Problema Global, que exige ação local” é outra máxima usada na exposição onde são explicados os fenómenos que provocam o aquecimento global e alterações climáticas e também o que podemos fazer para as mitigar.

A evolução da humanidade e o que resulta da sua ação é dado a conhecer através de uma linha cronológica que acompanha toda o perímetro expositivo e que mostra, de uma forma muito simples, a evolução da temperatura do planeta, desde o primeiro degelo. Nas últimas décadas, relacionadas de algum modo com o período pós-industrial, a linha cronológica muda de cor, demonstrando uma subida abrupta da temperatura.

A leitura desta linha é acompanhada com marcos históricos da civilização, da ciência e das negociações políticas sobre alterações climáticas.

A Terra e a Agricultura são o principal foco desta exposição porque os agricultores são agentes com a dupla responsabilidade de produzir alimentos que cheguem à mesa de todos os cidadãos e a de preservar o meio ambiente em que atuam.

E têm de ser competitivos para ombrear em pé de igualdade com os demais agentes num mercado globalizado. Como podem os homens da terra melhorar o seu desempenho para proteger da melhor forma o seu local de trabalho, o campo?

O agricultor é considerado um guardião da biodiversidade. É esse o seu primeiro objetivo de modo a conseguir tirar partido, nas melhores condições, da sua atividade profissional. E a verdade é que o Alentejo é uma das zonas mais bem preservadas em termos ambientais e de proteção da biodiversidade. É preciso fazer mais e melhor? Sim. Mas os agricultores alentejanos são já um exemplo positivo em termos de eficiência dos fatores de produção, terra e água.

Na exposição, são projetadas quatro paisagens alentejanas, a saber, Montado, Planície, Regadio e Pecuária.

Com recurso a dinâmicas audiovisuais, esta zona da exposição contém discursos de agricultores que já sentem os efeitos das alterações climáticas, o modo como estas afetam as suas produções, partilhando, ao mesmo tempo, as medidas que tomam para a sua adaptação e mitigação.

O agricultor é, na sua essência, um agente ativo no combate às alterações climáticas. São reveladas nesta mostra interativa as boas práticas usadas pelos homens da terra de modo a proteger o seu ambiente de trabalho e de vida.

No que diz respeito ao Alentejo, em particular, são traçados cenários futuros, tendo por base uma tabela de projeção da temperatura até ao ano de 2100, acompanhada de pequenas notas explicativas e alertas, como sinalizadores.

A paisagem alentejana é das mais bem preservadas a nível global, e isso é revelado através da apresentação das culturas agrícolas mais representativas. Um mosaico agrícola mostra a sua “avaliação” no contexto das alterações climáticas, prós e contras, recomendações e boas práticas de adaptação e mitigação e dão a conhecer à opinião pública o que está a ser feito pelos agricultores alentejanos. São revelados exemplos de inovações técnicas e científicas aplicadas na agricultura: energias alternativas, sondas de rega, pastagens biodiversas, etc. E são mostradas algumas curiosidades, como o sobreiro de Mértola, a alteração já verificada na época das colheitas, como é o caso da azeitona.

Esta exposição aborda ainda o Roteiro para a Neutralidade Carbónica, a missão que cabe cumprir para reduzir os efeitos das alterações climáticas evitando assim que se acenda a luz vermelha de alerta máximo. São dadas a conhecer as políticas de alterações climáticas, bem como a apresentação de diversos cenários possíveis.

“Call for Action! O que podemos fazer?” é o chamamento maior para a mudança de comportamentos. Reciclar não chega. É urgente usar a política dos 5 R’s: estar informado, reivindicar políticas e apoios, procurar exemplos de pessoas inspiradoras no combate às alterações climáticas, em que um dos rostos é o da adolescente sueca, Greta Thunberg.

A ciência do clima é outra das vertentes da exposição, com a participação de equipas do CEBAL – Centro de Biotecnologia Agrícola e Agroalimentar do Alentejo, na dinamização de experiências científicas sobre o clima e as suas alterações, através da Ciência Viva.

A exposição tem a missão de sinalizar que a Terra é o nosso mundo, o mundo que temos a responsabilidade de legar saudável aos nossos filhos.

O Homem é um ser vivo dotado de inteligência, de sensibilidade, de feitos notáveis. Tem, por isso, a responsabilidade de preservar o bem mais precioso da vida, o seu habitat, a sua casa, a raiz da sua existência.

 

O património cultural, o Ser, o Fazer e o Sentir Alentejanos

Para lá do património natural e das alterações climáticas, o património cultural é outra componente significativa da feira. O Pavilhão do Cante, das Artes e dos Ofícios reúne o ser e o fazer alentejanos. É um espaço de emoções, uma homenagem à terra e a todos os que, com o seu engenho, fazem arte. Uma Mostra de Artesanato e Ofícios Tradicionais, um mote para a partilha de ecos e sonoridades, mas também de ideias e formas renovadas de viver e sentir o Alentejo. Um local inclusivo.

Um ponto de encontro e de reencontros. Sem preconceitos. Da diversidade do campo e das diferentes expressões da cidade, numa paleta de todas as cores.

São artesãos e artistas a trabalhar ao vivo. São guardadores de segredos, contadores de histórias, alquimistas, engenhosos e artistas. Da terra fazem arte, da natureza sustento e da memória fazem talento. O passado mora nos seus corações e o futuro nas suas mãos.

Nos nós dos seus dedos e na sensibilidade do seu tato, reside o amor à terra, ao ser e ao fazer alentejanos. São séculos e séculos de mestria aqui. Um Museu Vivo. A valorização das Artes, a defesa dos Ofícios e o orgulho na Tradição. Um alerta, um desabafo e um grito para os sérios desafios que a sua continuidade enfrenta.

A mais forte e identitária expressão musical alentejana corre nas veias deste espaço. O cante alentejano e a sonoridade das vozes de Grupos Corais Alentejanos marcam o tom, abrem o nosso coração e molham as gargantas dos visitantes.

Será informal e marcará presença sempre que o homem queira, a alma sinta e a voz permita.

Esta mostra convida-nos a refletir sobre a tradição, aquela que nos surge em forma de peças artesanais e que encerra técnicas ancestrais do saber-fazer. O tempo, os ciclos da natureza, a matéria-prima, são basilares no processo construtivo e ditam a essência e a genuinidade destes objetos que nos acompanham desde a nossa existência.

E o tempo da tradição começa na natureza, nos seus diferentes elementos, animal, vegetal e mineral, no seu estado mais puro. E é neste estado que o saber-fazer tradicional começa até nos apresentar peças trabalhadas por mãos sábias.

Será que, quando pegamos num prato de barro, nos damos conta da consistência da terra e deste saber? Quando sentimos a rugosidade polida de um cocharro de cortiça nos questionamos sobre a sua idade? Quantas ovelhas se despiram para vestirmos o nosso casaco de lã? E será que pensamos em quanto vale o tempo de quem dedica o seu tempo para nos preparar estes objetos intemporais?

É esse o desafio que queremos lançar aos visitantes. Que dediquem a sua atenção e cedam um pouco do seu tempo ao olharem para estes objetos. Que os analisem e que voltem a olhar, e a pensar de onde vêm, quem os faz, como o fazem, em quanto tempo os fazem, e como os trazem até nós. Pois estes objetos só são verdadeiramente valorizados quando lhe dedicamos o nosso tempo e valorizamos o seu tempo e o tempo de quem os faz.

São olhares, imagens, ilustração, escultura, cerâmica e diferentes expressões de artistas conceituados que têm alargado as fronteiras criativas do Alentejo. São Bejenses e Alentejanos, de alma ou coração. Mãos sábias e mentes criativas unem-se para desafiar o saber fazer. Se em tempos era a necessidade que aguçava o engenho, hoje a criatividade e a arte têm um peso indiscutível nos objetos que nos rodeiam.

O Pavilhão do Cante das Artes e dos Ofícios proporcionou encontros entre artesãos e artistas contemporâneos, para um intercâmbio de técnicas, visões, criações e inspirações. Como ficará o barro trabalhado por um ilustrador? Saberá um escultor dar ao buinho? E a lã trabalhada por um ceramista? Estes Encontros Improváveis decorreram durante toda a feira.

 

Nota Final

36 anos de feira agrícola, de Ovibeja, é um património inestimável e um ativo extraordinariamente valioso para o futuro. Ali estão condensados os êxitos e os fracassos da nossa história recente no que diz respeito à terra, agricultura e ambiente.

Os próximos desafios já aí estão: as alterações climáticas, a transformação tecnológica e digital, a sucessão intergeracional dos empresários e dirigentes agrícolas, a cobertura financeira dos pequenos e grandes riscos, as novas qualificações e mercados de trabalho, a geopolítica da globalização e as suas restrições, estes são os problemas que já aí estão.

A própria Ovibeja já deixa pressentir algumas contradições a propósito destes desafios. Mas isso fica para outra oportunidade.

 

Autor: António Covas é professor catedrático da Universidade do Algarve e doutorado em Assuntos Europeus pela Universidade Livre de Bruxelas

 

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