Terras sem Sombra leva mágico húngaro da guitarra ao “mais belo lagar do mundo”

Música húngara de inspiração cigana, romanos e insetos compõem o programa de um fim de semana especial

O compositor e guitarrista húngaro Ferenc Snétberger, nome de peso da música do século XXI, apresenta-se no sábado, 11 de Maio, às 21h30, no Lagar do Marmelo, em Ferreira do Alentejo, que é já uma etapa clássica na trajetória do Festival Terras sem Sombra. Acompanham-no alguns dos mais talentosos solistas das gerações jovens do seu país.

O programa apresenta, lado a lado, música clássica, criação contemporânea e jazz, tendo como palco um edifício fora do comum: o Lagar do Marmelo, da empresa Sovena. Desenhada por Ricardo Bak Gordon, esta fábrica foi recentemente considerada a mais bela do género, em termos mundiais. «As brilhantes condições acústicas da sua sala de máquinas realçam a excecionalidade do lugar», salienta a organização do festival.

À excelência artística deste espetáculo, unem-se, pelos mesmos dias, propostas para o conhecimento de aspetos do património local. Na tarde de 11, o Terras sem Sombra viaja até à villa romana do Monte da Chaminé, por onde também passou o Caminho de Santiago. A manhã de domingo explora um aspeto pouco conhecido da biodiversidade nos campos de Ferreira: a vida dos insetos.

 

Quando a música clássica e o jazz convergem

Nascido em 1957, Ferenc Snétberger é o filho mais novo de uma família de músicos roma. Estudou Música Clássica e Jazz, tornando-se conhecido pela arte de improvisar e cruzar fronteiras estilísticas.

As suas obras inspiram-se na tradição cigana da Hungria, nos ritmos do Brasil e do Flamenco e nos repertórios para guitarra clássica e guitarra de jazz. Autor de vasta discografia, realizou tournées um pouco por toda a Europa, assim como no Japão, Coreia do Sul, Índia e Estados Unidos da América.

O mestre húngaro sobressai pelas atuações como solista (a sua interpretação de Sequenza XI, de Luciano Berio, é uma referência) e com orquestra.

Por ocasião do 50º aniversário do fim do Holocausto, em 1995, escreveu um concerto para guitarra e orquestra, In memory of my People. Influenciada por velhas melodias ciganas, esta peça constitui um impressionante depoimento contra o sofrimento humano.

Da colaboração com o trompetista e compositor Markus Stockhausen, resultou Landscapes, uma suíte a duo. Seguir-se-ia, em 2007, Streams.

 

 

Snétberger criou, em 2004, um trio com o lendário baixista Arild Andersen e o carismático percussionista Paolo Vinaccia. O seu primeiro álbum, Nomad, publicado em 2005, foi recebido com entusiasmo. 2016 assinalou o lançamento de um álbum a solo, In Concert, a que se seguiu Titok, com o baixista Anders Jormin e o percussionista Joey Baron.

O objetivo é levar a cabo, através do ensino da música, um programa que permita aos participantes desenvolver-se de forma integral. Além da educação artística, valorizam-se outras competências importantes, por exemplo a comunicação, o trabalho em equipa ou a aceitação dos outros. Uma especificidade a destacar: os alunos aprofundam a formação musical em função das tradições do povo roma.

Ferenc Snétberger é um espírito inquieto com a realidade social. Fundou, em 2011, o Centro para o Talento Musical que tem o seu nome, destinado a propiciar a educação musical de crianças e jovens oriundos de ambientes desfavorecidos, partindo do método educativo que o artista desenvolveu ao longo da sua experiência como docente, em Berlim.

 

Património do Tempo: A Villa romana do Monte da Chaminé

A jornada em Ferreira arranca na tarde de sábado, às 15h00, com o conhecimento de uma referência da arqueologia da região: a villa do Monte da Chaminé, sob a orientação de duas profundas conhecedoras do local, a museóloga Maria João Pina e da arqueóloga Sara Ramos.

Durante a época romana, a grande estrutura fundiária assente na tipologia da villa, mansão rural que era o centro de uma propriedade agrícola, marcou a paisagem rural do Alentejo. Lugar de múltiplos significados, nele se uniu a opulência do ambiente urbano com a inserção no meio campestre.

Este modelo de exploração não só dinamizou o território em seu torno, vocacionando-o para formas de lavoura adaptadas à economia de mercado, como assumiu notável protagonismo na difusão dos valores que caracterizavam o mundo clássico.

Encarnou, assim, o paradigma de uma forma requintada de viver no campo, cujo fascínio se viria a mostrar duradouro. Nela se filia o paradigma do monte, sede de uma herdade no Alentejo, em cuja fisionomia agrária e social perdurou o antigo sistema.

 

Vizinhos discretos: Insetos e Sustentabilidade nos campos de Ferreira

A manhã de domingo, 12, a partir das 9h30, é consagrada ao grupo biológico mais diverso e abundante do nosso planeta: os insetos. Estima-se que existam de cinco a dez milhões de espécies diferentes, das quais já foram catalogadas cerca de um milhão. Algumas são tão minúsculas que só se podem observar com olhar atento, recorrendo ao auxílio de lupas e microscópios.

Estes pequenos animais são muitas vezes desprezados ou ignorados, mas, sem eles, o mundo não se revelaria funcional, o que traria grandes prejuízos: entre muitos outros aspetos, deixaria de haver mel, o lixo não seria decomposto, o número de frutos iria decair exponencialmente e a disponibilidade alimentar para os outros animais mostrar-se-ia devastadora.

Como será explicado pelos peritos Ana Ilhéu, Rita Azedo, Bárbara Tita, Dinis Cortes e Isabel Ribeiro, o território de Ferreira oferece um campo de observação muito interessante para o conhecimento das interações entre os insetos e a atividade humana, permitindo analisar o papel relevantíssimo do mosaico agrícola e florestal na conservação da biodiversidade.

As atividades do Terras sem Sombra no concelho alentejano de Ferreira do Alentejo resultam da parceria com o Município local e têm a colaboração da Embaixada da Hungria, da EDIA, do Centro de Ecologia da Universidade de Lisboa, da ELAIA e da Sociedade Portuguesa de Entomologia.

 

FERREIRA DO ALENTEJO

11 de Maio
15h00 – Património do Tempo: A Villa do Monte da Chaminé e a Romanização no Baixo Alentejo
Ponto de encontro: Jardim Municipal, R. Zeca Afonso, Ferreira do Alentejo
21h30 – Villa Romana do Monte da Chaminé
A Música como Passaporte: Um Roteiro Magiar
Guitarra e direção musical Ferenc Snétberger
Soprano Orsoly Janszo
Violino László Horvath
Clarinete Elemér Fehér, Béla Lakatos
Clarinete baixo, tárogató Norbert Sandor
Piano Benjamin Urban

12 de Maio
09h30 – Vizinhos Discretos: Insectos e Sustentabilidade nos Campos de Ferreira
Ponto de encontro: Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Rua Mariano Feio, Ferreira do Alentejo

 

ODEMIRA

25 de Maio
15h00 – A Montanha Mágica: História e Histórias de São Martinho das Amoreiras
Ponto de encontro: Igreja paroquial de São Martinho das Amoreiras, Largo da Igreja, São Martinho das Amoreiras
21h30 – SÃO MARTINHO DAS AMOREIRAS – Igreja Paroquial de São Martinho
Noutras Margens: Obras Americanas e Europeias para Flauta
Quartetazzo
Flauta Emilse Barlatay, Trinidad Jiménez, Leticia Malvares, Carmen Vela
Percussão Epi Pacheco

26 de Maio
09h30 – Mãe-d’Água: Expedição à Serra da Vigia
Ponto de encontro: Igreja paroquial de São Martinho das Amoreiras, Largo da Igreja, São Martinho das Amoreiras

 

BARRANCOS

8 de Junho
18h30 – Cineteatro Municipal
Convite à Viagem: Geografias, Memórias e Tempos do Canto Lírico
Contralto Ellen Rabiner
Piano Nuno Margarido Lopes
21h30 – Ler o Céu e as suas Tradições: Da Astrologia à Astrofísica
Ponto de encontro: Cineteatro, Baldio, Barrancos

9 de Junho
09h30 – Todos por Um: Prevenção e Combate do Fogo na Raia
Ponto de encontro: Jardim do Miradouro, Rua 1.º de Dezembro, Barrancos

 

SANTIAGO DO CACÉM

22 de Junho
15h00 – Corte na Aldeia: O Palácio da Carreira
Ponto de encontro: Palácio da Carreira, Largo do Capitão-Mor J. J. Salema de Andrade, Santiago do Cacém
21h30 – Igreja Matriz de Santiago Maior
Onde Está a Minha Casa? Tradição e Vanguardas na Música Checa (Séculos XIX-XX)
Československé Komorní Duo
Violino Pavel Burdych
Piano Zuzana Beresova

23 de Junho
09h30 – Mansa Corrente: O Curso Médio do Rio Sado
Ponto de encontro: Junta de Freguesia de Ermidas-Sado, Rua 25 Abril, n.º 2, Ermidas do Sado, Santiago do Cacém

 

SINES

6 de Julho
15h00 – Dentro do Olho do Cíclope: O Farol do Cabo de Sines
Ponto de encontro: Farol de Sines, Cabo de Sines
21h30 – Castelo de Sines
Longe, mas Perto: Identidades Musicais Contemporâneas nos EUA
Kronos Quartet
Violino David Harrington, John Sherba
Viola da gamba Hank Dutt
Violoncelo Sunny Yang

7 de Julho
09h30 – Nereu e Proteu: Vigiar e Cultivar o Mar
Ponto de encontro: Paços do Concelho, Rua Ramos da Costa, Sines

 

19 de Outubro [18h30]
Campo Maior Centro Cultural
Entrega do Prémio Internacional Terras sem Sombra

 

 

Comentários

pub
pub