Serralves traz visão de Patrícia Almeida sobre o Algarve ao Teatro das Figuras

«Portobello apresenta-se assim como um lugar à beira da ficção, simultaneamente real e inventado»

O Algarve patente nas fotografias de Patrícia Almeida é real (ou talvez não), mas não é, certamente, aquele que as entidades do turismo gostariam que fosse mostrado. A exposição «Patrícia Almeida: Portobello», que reúne 46 fotografias feitas entre 2006 e 2008, pertença da Fundação de Serralves, abriu ontem no foyer do Teatro da Figuras, em Faro.

A fotógrafa fez «um trabalho muito persistente no Algarve», onde «passava largas temporadas de Maio a Outubro», como recordou Filipa Loureiro, curadora da exposição e que privou de perto com Patrícia Almeida, antes de esta falecer, em 2017.

O trabalho da artista assumia uma forma quase «documental», para «catalogar esta sua visão, muito própria, sobre o Algarve». Que não é o Algarve de quem cá vive, mas um território que é um «lugar-marca», «um lugar para estar (não para habitar ou visitar), para experimentar, consumir, durante uma ou duas semanas». O território dos resorts, das piscinas de águas azuis, do relvados por vezes artificiais, dos bares e discotecas, dos corpos mais ou menos perfeitos, onde se consome o tempo das férias.

«Portobello apresenta-se assim como um lugar à beira da ficção, simultaneamente real e inventado, uma espécie de ‘parque temático’ sem temática, mas ancorado num imaginário coletivo relacionado com as férias e construído a partir de estereótipos», explicou Filipa Loureiro.

De início, a intenção de Patrícia Almeida era apresentar este seu trabalho num livro de autor, que editou de facto em 2008. Mas «logo é convidada a mostrar esta série fotográfica na galeria Zé dos Bois, em Lisboa», onde João Fernandes, então diretor do Museu de Serralves, vê a exposição e convida Patrícia a ampliá-la e a trazê-la a Loulé, ao Convento de Santo António, integrando a coletiva «Estranhas Formas de Vida», produzida no âmbito do Allgarve, em 2009. É nesse ano que a fotógrafa foi nomeada, precisamente com este trabalho, para o Prémio BesPhoto 2009.

 

A mostra está agora patente no foyer do Teatro das Figuras, retomando a parceria entre a Fundação de Serralves e a Câmara de Faro, que, desde 2016, já trouxe duas exposições da coleção da fundação portuense à capital algarvia, em 2016 e 2017.

«É importante retomar e continuar esta relação, de modo a aproveitar a notoriedade do espólio artístico da coleção de Serralves», salientou Rogério Bacalhau, presidente da Câmara, na abertura da exposição. Recordando que o teatro recebeu, no ano passado, 50 mil espectadores, o autarca frisou que «poucas exposições têm tanta gente a vê-las».

Ana Pinho, presidente da Fundação de Serralves, sublinhou que esta entidade «tem tentado sair fora de portas e desenvolver atividades com entidades exteriores, em especial com as autarquias». «Temos uma coleção grande, que todos os anos aumentamos, e queremos mostrá-la».

A mostra que agora está patente no Teatro Municipal de Faro «parte da coleção» de Serralves, mas foi «construída em conjunto pelas equipas dos dois lados», acrescentou.

Filipa Loureiro haveria de explicar que «esta exposição surge de uma primeira conversa com o Gil [Silva, diretor do Teatro das Figuras], que me pediu para trabalhar, para este espaço, a fotografia». A curadora mostrou-se especialmente contente pelo facto de poder usar «todo este espaço do foyer, o que nos permitiu montar uma exposição a 360 graus», que inclui mesmo instalação, com três das imagens impressas em grande formato.

A abertura da exposição «Patrícia Almeida: Portobello», que apresenta parte da série fotográfica adquirida pela Fundação de Serralves em 2011, teve alguns momentos de «emoção», por ser uma «homenagem» à artista, já falecida, mas representada nesta vernissage em Faro pelo seu pai António Campos Almeida.

E depois, numa das fotografias, a escorregar numa bóia num parque aquático, está, nada mais, nada menos que Joaquim Guerreiro, anterior diretor do Teatro das Figuras e falecido no ano passado, também vítima de cancro.

A exposição pode ser vista até 21 de Dezembro, durante o horário de abertura das bilheteiras, ou seja, de terça-feira a sábado, das 13h00 às 19h30, e nos dias dos espetáculos, até ao seu início.

 

Fotos: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

 

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