Entre Muros da prisão também se faz teatro

Projeto “Entre Muros” está a levar teatro ao Estabelecimento Prisional de Faro

Ricardo Branco, Manuel Alves e José Carlos Muxagata

Há o Muxagata, o Pelé, o Manel e o Ricardo. Todos são atores e, ao mesmo tempo, personagens principais. Vão dizendo os nomes e idades uns dos outros, caminham pela sala, transformada em palco. Abraçam-se. Desde Março que todas as segundas e terças-feiras são dias de teatro “Entre Muros”. Nesses momentos, a arte, mais do que enriquecedora, torna-se um escape para fugir «àquele ambiente» do Estabelecimento Prisional de Faro.

Entre eles não há mais de 400 metros de distância. Apenas uma rotunda e uma estrada separam o Teatro das Figuras da prisão, bem à entrada de Faro. A proximidade física contrasta com tudo o resto. Ou será que (já) não?

Depois de se encontrarem à porta do Teatro das Figuras, Gil Silva, diretor daquele espaço, chega com Teresa Silva, presidente da associação cultural Ar Quente, ao controlo de segurança da prisão. «Somos os do costume», diz Gil, entre risos, à guarda prisional que os recebe.

Lá dentro, numa pequena sala, afastada das celas, estarão quatro pessoas muito especiais à espera deles. Toca a sirene e ouve-se uma voz que anuncia: «participantes no projeto de Teatro dirijam-se à sala de ensaios».

 

Muxagata

E eles lá chegam. Primeiro, vem José Carlos Muxagata, espanhol, filho de pais portugueses, em prisão preventiva há 7 meses por tráfico de droga. Depois surge Ricardo Branco, de 36 anos.

Passado pouco tempo, aparece Manuel Alves, de sorriso no rosto. Tem 50 anos e já está preso há cinco. «Foi um furto que me fez vir para cá», conta à reportagem do Sul Informação.

Só no fim é que o elenco fica completo. Pelé, 38 anos, tem nome de estrela e uma vontade de dar um pontapé na tristeza através do teatro.

Por momentos, faz-se silêncio na pequena sala. À vez, cada recluso diz o nome e idade de um colega, como se cada um quisesse dar a conhecer o companheiro. Depois há abraços, harmonia e, quem assiste, não se lembra sequer de que aquelas são quatro pessoas que, num momento da sua vida, cometeram algum erro.

Este é um ensaio que tem por base uma formação que está a ser dada desde Março por Gil Silva e Teresa Silva. São, no fundo, pequenos exercícios de teatro de um projeto que ainda não está acabado.

Um dos momentos mais impactantes acontece quando os quatro reclusos, de semblante carregado, apontam o dedo uns aos outros.

 

Um abraço “abençoado” entre reclusos

É uma metáfora para algo que Manuel Alves vive na pele.

«Infelizmente, ainda sinto que me apontam o dedo. Todos nós merecemos uma oportunidade, ninguém é perfeito. Quero tentar ser feliz, ter um trabalho, uma casa, uma família, sem me estarem a apontar o dedo», diz, emocionado.

Para o recluso, o teatro é «uma maneira de quebrar a rotina».

«Tem sido uma experiência agradável que mantém a mente ocupada. É bom para pessoas que pensam que podem ser melhores todos os dias, enquanto seres humanos», acrescenta.

Quebrar preconceitos é o grande objetivo deste projeto de teatro chamado “Entre Muros”. A ideia partiu do Teatro das Figuras, inserida no mote da programação deste ano, “Cultura & Intervenção Social”, que prontamente entrou em contacto com o Estabelecimento Prisional de Faro.

«Falei com o diretor da cadeia, o doutor Alexandre Gonçalves, que se mostrou muito interessado em acolher esta formação. Aí começou a aventura que tem sido muito interessante», explica Gil Silva.

«Para nós, que estamos fora, sentir esta saudade de virmos cá e de estarmos com eles mostra que criámos uma sinergia positiva, de partilharmos momentos que são únicos», acrescenta o diretor do Teatro das Figuras.

 

Teresa Silva

Teresa Silva também tem sido formadora, em conjunto com Gil Silva. O trabalho já leva alguns meses e a líder da associação Ar Quente ainda se lembra de como tudo começou.

«No início, estavam um pouco envergonhados, como seria de esperar. Na verdade, todos nós estávamos ainda um pouco reticentes, mas houve uma evolução extremamente positiva. Foram aceitando muito bem as propostas e, para nós, é muito enriquecedor assistirmos a esta grande evolução», explica Teresa.

O recluso Ricardo Branco é o espelho desse crescimento. «Quando cheguei aqui, no primeiro dia, tivemos de dizer o nosso nome, num exercício fácil, com três ou quatro pessoas a assistir, mas que me pareceu complicado. Hoje já é simples e a progressão é muita», conta.

O gosto pelo teatro é tanto que Ricardo já ficou com o bichinho. «Vejo-me a fazer teatro no futuro, claro. Tem sido um balão de oxigénio que nos permitiu desenvolver competências novas, ter alguma diversão também. Foi uma maneira de nos integrarmos melhor», diz.

E este é um trabalho que não quer ficar por aqui. A ideia é fazer uma apresentação fora dos muros da prisão. «Estamos à espera de autorizações, mas gostávamos que fosse no “24 Horas Figuras”, a 15 e 16 de Junho», adiantou Gil Silva, ao Sul Informação. 

Manuel Alves, Muxagata e Ricardo Branco

Seria um regresso ao teatro para José Carlos Muxagata, o mais extrovertido deste elenco.

«Fui ao teatro ver peças, em Huelva, mas nunca pensei estar envolvido numa. Gosto de arte: dá-nos liberdade de expressão, mas também responsabilidade. Quando soube que existia esta iniciativa, quis logo vir. É uma boa maneira de nos expressarmos e de sair lá de dentro daquele ambiente», considera.

A arte torna-se também um veículo de promoção da camaradagem.

«Estar aqui com os meus amigos, companheiros, expressarmos os nossos sentimentos… Um dia estamos bem, noutro estamos mal e é uma forma de nos abstrairmos. É bom que as pessoas se preocupem connosco que estamos privados da liberdade. Sentimos o carinho das pessoas que vêm cá e nos ensinam aquilo que não sabemos», conta Muxagata.

Atento, o diretor do Estabelecimento Prisional foi acompanhando todo o ensaio, mostrando-se maravilhado com a iniciativa.

«Espero que o Teatro das Figuras tenha outros projetos para que possamos continuar esta experiência fantástica. Consegui que pessoas, com alguma dificuldade até de relacionamento, transmitissem sentimentos, frustrações e conhecimentos de vidas passadas», diz.

«Costumo dizer que as pessoas, quando vêem uma prisão ou um cemitério, passam ao largo. Esta é uma forma de alterar essa forma de pensar porque aqui faz-se muita coisa de bom. Damos oportunidades às pessoas, sem baixar os braços», conclui, de sorriso no rosto.

 

 

Quando o ensaio acaba, a comitiva fica à conversa, mostrando como, de facto, é possível esbater os preconceitos e aproximar instituições que até estão tão próximas fisicamente.

À saída, todos se despedem de sorriso no rosto.

Para a semana há mais teatro.

 

Fotos: Pedro Lemos | Sul Informação

 

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