350 crianças de escolas do Algarve plantaram árvores «para o futuro» em Monchique

Ação com as crianças teve «simbolismo especial»

«Primeiro abres um buraco na terra com a enxada, depois pegas na planta com cuidado e pões dentro do buraco, assim. Com a enxada ou com as mãos aconchegas a terra à volta da árvorezinha, calcas um bocadinho. Depois só falta pôr este tubo, que é uma proteção». O sapador florestal falava para os miúdos atentos, enquanto exemplificava o trabalho que cerca de 350 alunos de escolas do Algarve haveriam de fazer, ao longo da manhã, num terreno junto à vila de Monchique.

Tratou-se da ação de reflorestação, com espécies autóctones – sobreiros, medronheiros, castanheiros e carvalhos – de um terreno com cerca de um hectare e meio, na encosta mesmo por cima da vila. Naquele terreno, propriedade da Câmara de Monchique, os eucaliptos foram substituídos por árvores características da região e mais resistentes ao fogo.

Este momento simbólico, que contou com a presença do secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural (que também plantou um medronheiro), resulta da campanha feita, no Natal, pelo Fórum Algarve, que, por cada utilizador da pista de gelo instalada nesse centro comercial de Faro, destinou um euro para apoiar o projeto.

No total, foram angariados 38 mil euros, que a empresa atribuiu à Associação os Produtores Florestais do Barlavento Algarvio (Aspaflobal), para financiar um projeto que fosse além da simples plantação de árvores, muitas delas mortas pouco tempo depois desse ato simbólico.

Emílio Vidigal, diretor executivo da Aspaflobal, explicou ao Sul Informação que o trabalho começou pela preparação dos terrenos, num total de cerca de 16 hectares de áreas florestais à volta da vila de Monchique que são propriedade da Câmara.

O presidente Rui André recordou que, na sequência do grande incêndio do Verão passado, a autarquia decidiu «eliminar todos os eucaliptos que tínhamos em terrenos públicos», «não por uma questão de ideologia, mas para que isso seja um exemplo».

«Não sou fundamentalista em relação a nenhuma espécie, porque considero que, desde que ordenada, há lugar para a floresta de produção e para a floresta autóctone. Mas a Câmara de Monchique tem que dar o exemplo na mudança que precisamos de fazer no reordenamento da paisagem».

Sérgio Santos, Rui André, Miguel Freitas e Emílio Vidigal

Emílio Vidigal acrescentou: «quando o presidente do Conselho de Administração do Fórum Algarve me contactou, a dizer que queriam fazer qualquer coisa para ajudar a serra, eu disse logo: se é só para plantar mais árvores, não contem comigo! Mas a ideia ganhou consistência e o que estamos a fazer agora é muito mais do que isso». «Todo o dinheiro para esta operação tem origem no Fórum, a Aspaflobal é o braço armado, a entidade que vai executar o projeto, com o apoio logístico da Câmara de Monchique, que fornece pessoal e algumas máquinas», explicou.

«Estamos a intervir em várias propriedades da Câmara de Monchique, à volta da vila, para criar aqui um perímetro de proteção. São terrenos com árvores centenárias, algumas com mais de 60 metros de altura, e muito mato, mesmo junto à povoação. Este terreno onde estamos a intervir hoje, por exemplo, é ao lado do Bairro da Força Aérea».

Para preparar a terra para a plantação das jovens árvores, pela mão das crianças das escolas, foi preciso «usar uma máquina para arrancar os cepos, fazer a gradagem, enterrar os combustíveis, controlar as gramíneas. Não é um trabalho fácil, nem barato, mas é isto que tem de ser feito, se queremos alterar o panorama da nossa floresta», disse ainda Vidigal.

Sérgio Santos, administrador do Fórum Algarve, que também arregaçou as mangas e plantou uma árvore, sublinhou que esta iniciativa é «motivo de grande honra para nós, por podermos estar aqui a dar o primeiro passo para a reflorestação numa serra que é de nós todos».

«Estão aqui mais de 300 crianças, de todo o Algarve, a contribuir para o seu próprio futuro, numa serra que é sua e é de todos nós».

O presidente da Câmara de Monchique aproveitou para fazer votos para que este protocolo com o Fórum Algarve, do qual resulta a iniciativa de hoje, «seja o primeiro de muitos», sendo seu objetivo «criar uma ponte entre Monchique e os seus produtores e um dos maiores polos comerciais da região».

Por seu lado, Miguel Freitas, secretário de Estado das Florestas, sublinhou o «simbolismo especial» da operação de reflorestação com a ajuda das crianças. Mas salientou também o esforço que há que continuar a fazer, nomeadamente para que se atinja os 1350 quilómetros de faixas de interrupção de combustível planeadas. «Em dez anos, fizeram-se apenas 250 quilómetros. Neste dois anos, já foram executados 350 quilómetros, dos quais mais de 50 aqui em Monchique».

Citando o relatório do Observatório Técnico Independente, criado pelo Parlamento para acompanhar os incêndios florestais, ontem divulgado, o governante disse que, apesar de o documento concluir que as faixas têm «um efeito muito baixo em relação a se acontecem ou não incêndios», são consideradas fundamentais para garantir «mais acessibilidade aos bombeiros» e para permitir «o trabalho com maquinaria pesada», que trave o avanço das chamas.

Miguel Freitas avisou que, no próximo Verão, os riscos serão de novo muito grandes para o Algarve, que estará em «seca severa». Mas disse esperar que o esforço que está a ser feito em Monchique contribua para que a zona «possa estar pelo menos mais segura do que estava antes».

 

No terreno, e sob uma chuva miudinha que foi caindo a intervalos durante a amanhã, as crianças das escolas de Faro e Olhão, bem como uma de Monchique (a de S. Roque), iam entrando em grupos, sob o comando dos seus professores e com a orientação de dez sapadores florestais, para plantar as centenas de árvores. Ao fim da manhã, pela encosta acima, via-se as filas de tubinhos verdes, a proteger da voracidade dos animais os frágeis caules das novas árvores.

«Já é a segunda que eu planto hoje», dizia o Sílvio, de 12 anos, de uma escola de Faro, manejando a enxada com destreza, para abrir o buraco. Sob o olhar atento do sapador florestal, lá plantou um medronheiro.

E será que, com o calor que se avizinha, estas árvores vão sobreviver? Emílio Vidigal responde: «também pensámos nisso e os nossos sapadores têm um kit que lhes permitirá regar estas árvores». Mas o tempo que se tem feito sentir neste dias tem ajudado, acrescenta. «Apesar de a plantação já se estar a fazer um pouco tarde, com esta chuvinha, o terreno está húmido e isso é bom».

A Sofia, de 11 anos, também de Faro, que plantou um sobreiro com a ajuda da sua amiga Maria, já disse: «vou pedir aos meus pais para depois virmos aqui ver a minha árvore. E vou trazer um garrafão de água para a regar».

Quanto ao projeto pago pelo Fórum Algarve e operacionalizado no terreno pela Aspaflobal, com o apoio logístico da Câmara, não se fica por aqui. Sérgio Santos revelou ao Sul Informação que, a pedido da Associação de Produtores Florestais, os Bombeiros de Monchique serão dotados com um tablet de grande performance, que lhes permita ter acesso às ferramentas que garantem o acompanhamento das situações de fogos em tempo real. Será um importante instrumento de trabalho para os bombeiros, que Emílio Vidigal até faz votos que eles não tenham de usar tão cedo.

 

Fotos: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

 

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