Vade retro…plástico

Reciclar é importante, mas já não é suficiente. Temos de ser mais radicais

O título deste artigo de opinião parece-lhe inconveniente, exagerado, incómodo e despropositado? Não é. O plástico, que parecia ser o grande aliado nas mais diversas facetas da vida humana acabou por se revelar um vilão maléfico, terrível, que precisa de ser esconjurado e expulso das nossas vidas, o quanto antes.

O plástico enganou-nos. Sussurrou-nos ao ouvido mil promessas e, agora, quer permanecer connosco, quase eternamente, como uma maldição, mesmo quando já não precisamos dele. Persiste em regressar como um íman, tomando diversas formas, mesmo invisíveis a olho nu – um espectro que nos persegue e nos assombra.

A palavra plástico – que deriva do latim plasticus – define qualquer material capaz de ser moldado com calor ou pressão para criar outros objetos.

O plástico, sem dúvida, moldável e flexível, entrou nas nossas vidas de tal maneira que, hoje em dia, parece quase impossível viver sem ele.

Na moda, com o poliéster, o Nylon e a Lycra, na cozinha com a Tupperware, em utensílios diversos, na indústria automóvel, nos brinquedos, e claro, as garrafas de água – o objeto de plástico mais comum e mais descartável. Enfim, para onde quer que nos viremos, o plástico está lá.

Atualmente, perto de 8,8 milhões de toneladas de lixo plástico têm como destino os oceanos (o lixo que fica nas praias, o lixo que é atirado ao mar pelos navios, os desperdícios das pescas, o lixo que é deixado ao abandono e que acaba nos rios e nos esgotos, o lixo de lixeiras mal geridas, coisas que são deitadas nas sanitas…) e este lixo, constitui uma verdadeira ameaça à vida selvagem e um risco acrescido para a saúde humana, cujas consequências, são ainda pouco conhecidas.

O plástico que deixamos ir parar ao mar volta para nós, na forma de “microplásticos” já encontrados na água potável, na cerveja, no sal de cozinha, no peixe e no marisco…

Além da poluição dos oceanos, o plástico representa outro gravíssimo problema: o seu tempo de decomposição na Natureza. Eis alguns números assustadores:
– Uma embalagem de leite: 5 anos
– Recipientes em plástico: 50 a 80 anos
– Tampa de garrafa: 150 anos
– Uma garrafa de plástico: 450 anos
– Fraldas descartáveis: 450 anos
– Pensos higiénicos: 500 a 800 anos
– Um saco de plástico: 20 a 1000 anos
– Esferovite: 1 milhão de anos ou mais

Podemos usar garrafas de água ou sacos de plástico por breves minutos – os chamados artigos de utilização única – mas o seu tempo de permanência e malefício para o Ambiente é demasiado elevado, comparativamente com o seu benefício.

Saber quanto tempo demoram a decompor alguns dos artigos mais banais do nosso dia-a-dia e que deitamos para o lixo, quase sem pestanejar, talvez nos ajude a pensar duas vezes e a procurar alternativas. Aqui em casa, trouxe-nos uma nova consciência.

No passado dia 27 de Março, o Parlamento Europeu deu um passo de gigante e aprovou a nova lei comunitária que proibirá a venda de produtos de plástico de utilização única em toda a União Europeia, a partir de 2021.

As novas regras proíbem determinados produtos descartáveis de plástico, para os quais existem alternativas, tais como pratos, talheres, cotonetes, palhinhas, agitadores para bebidas, varas para balões, produtos de plásticos oxodegradáveis (como os sacos biodegradáveis) e recipientes para alimentos e bebidas de poliestireno expandido.

São boas notícias, mas, entretanto, no nosso dia-a-dia, devemos começar já a fazer pequenas-grandes mudanças, para afastar o “mal”.

Alcançar o “Desperdício Zero” pode parecer demasiado ambicioso, mas há alterações que podemos introduzir, sem grande esforço ou dificuldade. Basta vontade.

Ficam aqui 6 dicas práticas de alterações que já fizemos em família, não só para reduzir a utilização do plástico, mas também para diminuir a produção de desperdícios em casa.

1. Substituições na cozinha: os guardanapos de papel e a película de celofane por guardanapos de pano, e o papel de cozinha por panos da loiça. Substituímos as tradicionais esponjas de lavar loiça por esponjas de cozinha reutilizáveis. Deixámos de comprar palhinhas, pratos, copos e talheres de plástico.

2. Substituições na casa de banho: o gel de banho por sabonetes artesanais (de azeite para os adultos e de calêndula para as crianças). As crianças e o marido já utilizam champô sólido para o cabelo. Substituímos as tradicionais escovas de dentes por escovas de dentes em bambu e, em vez de desodorizantes tradicionais, usamos agora desodorizantes artesanais em frasco de vidro (igualmente, ou até mais, eficazes). Deixámos de comprar cotonetes.

3. Água: bebemos água da torneira e usamos garrafas de água reutilizáveis em vez de garrafas de plástico.

4. Compra de produtos: compramos muitos produtos a granel, tais como leguminosas, arroz, frutos secos, farinhas, massas, cereais para o pequeno-almoço das crianças, evitando assim o desperdício das embalagens e acondicionando-os, em casa, em recipientes de vidro. As frutas e verduras frescas compramo-las a produtores locais, com certificação biológica, evitando o uso de embalagens. Compramos cada vez mais somente o necessário e indispensável, evitando o desperdício.

5. Limpeza da casa: usamos detergentes concentrados amigos do ambiente e DIY (produtos de limpeza “Do it yourself” – como o vinagre para limpezas e o bicarbonato de sódio, para remover as sujidades do forno). E enchemos a máquina de lavar roupa na carga máxima, o que faz com que haja menos fricção entre as roupas e, consequentemente, menos fibras libertadas (estamos a explorar o GUPPYFRIEND WASHING BAG® como alternativa para a lavagem dos poucos tecidos sintéticos que temos).

6. Novos hábitos: Transporto sempre orgulhosamente, na mala, um saco de compras em tecido que me foi oferecido por uma amiga. Quando compramos gelados, escolhemos a versão em cone, em vez do copo e dispensamos a colherzinha. Quando vamos à praia, trazemos sempre mais lixo do que aquele que levamos, e, uma vez por mês, organizamos, em família, uma limpeza a uma praia, procurando consciencializar assim as crianças para o impacto real que o lixo e o desperdício têm no meio ambiente.

Procuramos acrescentar aos 3’R (Reduzir, Reutilizar e Reciclar), os princípios básicos do “Desperdício Zero”: Recusar  (aquilo de que não precisamos); Reduzir  (aquilo de que precisamos e não podemos recusar); Reutilizar  (aquilo que consumimos e não podemos recusar ou reduzir); Reciclar  (o que não podemos recusar, reduzir ou reutilizar) e, Compostar  (tudo o resto), mas confesso que o último ainda nos parece difícil de alcançar (em Lisboa e no Porto já há centros de compostagem urbana).

Segundo as palavras do biólogo evolucionista Matt Wilkins, num artigo da Scientific American, “reciclar plástico está para salvar a Terra como pregar um prego está para impedir um arranha-céus de cair”.

Reciclar é importante, mas já não é suficiente. Temos de ser mais radicais. Estar atentos às nossas escolhas diárias… e abrenúncio ao plástico!

Assuma o compromisso: Planeta ou Plástico?

 

 

Autora: Analita Alves dos Santos é uma Mãe preocupada com questões ambientais

 

 

 

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