Um agente da PIDE e um preso político entram no Lethes para encontro improvável

No dia em que se assinalam 45 anos do 25 de Abril, peça de teatro junta, em palco, um agente da PIDE e um resistente antifascista

O palco torna-se o retrato de uma história tantas vezes vivida na primeira pessoa. De um lado está o torturador, do outro a sua vítima. Estiveram juntos, há muito tempo, numa sala sem janelas, apenas separados por uma mesa. Passados mais de 40 anos, reencontram-se. Falam, discutem, lamentam-se, mas nenhum se esquece daqueles dias, na Rua António Maria Cardoso, sede da PIDE/DGS, em Lisboa.

Esta é a história de “Improvável”, a nova peça da ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve, que estreia hoje, 25 de Abril, às 21h30, no Teatro Lethes, em Faro.

A história é sobre um prisioneiro político e um agente da PIDE que o torturou.

O espetáculo desenvolve-se em dois momentos distintos. No primeiro – dois monólogos – as personagens falam de si, da sua vida passada e do presente.

 

Pedro Monteiro

O torturador, interpretado por Luís Vicente, faz, por exemplo, um relato cruel de como eram feitos os inquéritos a tantos presos, onde não faltavam os «murros no estômago» e outras atrocidades.

Já o resistente antifascista, cujo intérprete é Pedro Monteiro, recorda como acreditou na possibilidade de «tudo poder mudar», mas, centrado no presente, também fala do cancro que enfrentou. Tem um ar cansado e velho, espelhado nos longos cabelos e barba branca.

Findos os monólogos, as duas personagens encontram-se numa rua e «falam sobre as memórias de ambos», como explicou Luís Vicente aos jornalistas, num ensaio aberto da peça.

Cada um tem a sua perspetiva, como é óbvio. O agente da PIDE parece não ser assombrado pela consciência dos atos que cometeu, mas, ao mesmo tempo, dá a ideia de ser alguém solitário.

Quanto ao antigo prisioneiro, mostra-se desencantado com a política, porém, orgulhoso do que fez no passado em nome de um Portugal melhor.

«As pessoas que foram torturadas, de modo geral, não evidenciam uma grande mágoa quanto a isso. Eu nunca conheci nenhuma que alimentasse rancor e já privei com muitas», explicou Luís Vicente, que, em “Improvável”, é encenador e ator.

Mas, do outro lado da barricada, há casos «curiosos». «No ano passado, soube de um PIDE que, todos os anos, pelo Natal, telefona a uma pessoa que torturou a desejar boas festas. É de admitir que algumas pessoas tenham entrado nessa zona de problemas de consciência», contou o diretor da ACTA.

 

Luís Vicente

Esta é uma peça com dois grandes objetivos: «lembrar o 25 de Abril», no ano em que se comemoram os 45 anos da Revolução dos Cravos, e «homenagear» tantos casos, como o retratado em palco, de perseguição política a quem apenas tinha um pensamento diferente do defendido pelo regime.

O próprio Luís Vicente esteve na iminência de cair nas garras da PIDE, mas um engano salvou-o. De lágrimas nos olhos, recordou o que se passou.

«O bufo que me denunciou ou denunciou mal ou, quem recebeu a denúncia, entendeu-a incorretamente. Prenderam um amigo meu, às 6h00 da manhã. Foram buscá-lo a casa. Eu era solteiro, ele era casado. Quando começou a ser interrogado, percebeu que as perguntas que estavam a fazer não eram para ele, mas para mim. E calou-se».

Em “Improvável”, as duas personagens (torturador e torturado) falam de política, de religião, do passado e do presente. Há, de certa forma, uma aproximação entre duas pessoas que estiveram nos lados opostos da História, mas nunca uma reconciliação. «Nunca é possível alcançá-la», defendeu Luís Vicente.

Esta peça vai estar em exibição, no Lethes, até 12 de Maio. Até ao final do mês de Abril, as sessões decorrem de quinta-feira a sábado (21h30) e ao domingo (16h00). A partir de Maio – e até dia 12 -, “Improvável” sobe ao palco às sextas-feiras (15h00), aos sábados (21h30) e aos domingos (16h00).

Os bilhetes custam 10 euros, valor que desce para 7,50 euros para maiores de 65 e menores de 30 anos. Se quiser comprar ingressos, clique aqui. 

 

Fotos: Pedro Lemos | Sul Informação

 

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