Alunos de Loulé participam no 74º aniversário da Libertação do Campo de Concentração de Mauthausen

Louletanos vão descobrir uma página ainda pouco conhecida da história local

Duas turmas do 11º ano, num total de cerca de 50 alunos, da Escola Secundária de Loulé, vão participar, no próximo domingo, dia 5 de Maio, na cerimónia do 74º aniversário da Libertação do Campo de Concentração de Mauthausen, na Áustria.

Os alunos, que desenvolveram, ao longo do ano letivo, um projeto educativo com o tema «Trabalhadores Forçados Portugueses do III Reich», serão acompanhados por quatro dos seus professores e por representantes da Câmara Municipal, a vereadora Marylin Zacarias, a diretora municipal Dália Paulo e a chefe de Divisão de Educação e Juventude, Dora Assunção.

Integrarão ainda a comitiva portuguesa, o embaixador de Portugal em Viena, António Almeida Ribeiro, o professor Fernando Rosas e alguns dos historiadores da equipa Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, bem como Cláudia Ninhos e António Carvalho, diretor do Museu Nacional de Arqueologia e também em representação da Direção-Geral do Património Cultural do Ministério da Cultura. A comitiva terá um total de cerca de 70 elementos.

Acompanhará a delegação uma equipa da RTP, composta pela jornalista Ana Luísa Rodrigues e pela repórter de imagem Carla Quirino, autoras do documentário “Deportados Para Outro Mundo” (RTP, 2018).

Esta cerimónia junta anualmente em Mauthausen cerca de 45.000 pessoas, o que a torna «única», pelo número de participantes e pelo seu cariz internacional, salienta a Câmara de Loulé.

Aspeto atual do Campo de Concentração de Mauthausen, transformado em memorial

Através desta participação, Portugal garante, pela terceira vez consecutiva, uma presença nas cerimónias oficiais, a par de dezenas de outros países, criando assim «uma dinâmica essencial que se deseja que tenha continuidade e que no futuro seja alargada a outras instituições portuguesas».

Uma equipa internacional de historiadores do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (IHC/NOVA/FCSH), dirigida pelo professor Fernando Rosas, realizou, nos últimos anos, com o apoio da Fundação alemã EVZ – Fundação Memória, Responsabilidade e Futuro, e de outras instituições, uma investigação pioneira em Portugal, que tinha por objetivo identificar os trabalhadores forçados e os prisioneiros dos campos de concentração nazis de nacionalidade portuguesa.

Trata-se de uma investigação onde se demonstrou, uma vez mais, que Portugal – que foi oficialmente um país que declarou a neutralidade durante a 2ª Guerra Mundial -, afinal não esteve alheado do conflito. Foi possível identificar, para já, cerca de 1.000 portugueses, sobretudo emigrantes em França, que foram também vítimas do III Reich. Alguns deles eram originários do Algarve, nomeadamente de Loulé.

Neste âmbito, foi proposta ao Governo Português, em 2016, a colocação de uma placa em memória destes portugueses, no Campo de Concentração de Mauthausen, onde alguns estiveram internados.

Tal desígnio veio a concretizar-se no ano seguinte, em 2017, quando, na Cerimónia de Comemoração da Libertação do Campo, na presença do ministro português dos Negócios Estrangeiros e de alguns elementos da equipa de investigação, foi descerrada oficialmente uma placa trilingue no “Muro das Lamentações” do campo, reconhecendo assim Portugal, pela primeira vez, as vítimas portuguesas do regime Nazi, e homenageando-as simultaneamente.

A escolha deste Campo, e que resulta em primeira análise do bom acolhimento da proposta por parte da Direção do Museu e Memorial, radica em alguns dados que a Câmara de Loulé recorda.

Prisioneiros do Campo de Mauthausen

 

É que Mauthausen, na Áustria, foi o campo por excelência do trabalho forçado, constituindo um dos maiores complexos de trabalho forçado na Europa da 2ª Guerra Mundial.

Foi igualmente o campo mais “latino” do sistema concentracionário. Foi também o campo de destino do primeiro comboio de deportados civis enviados a partir de França, que partiu de Angoulême (França), no dia 20 de Agosto de 1940, tendo ficado conhecido como “o comboio dos 927”. Três desses deportados eram portugueses. Foram internados no campo, mas não sobreviveram.

Sendo este o campo que está situado geograficamente mais a sul no território do “Grande Reich Alemão”, foi também o último a ser libertado pelas tropas Aliadas, concretamente pelo 41º Esquadrão, da 11 Divisão do 3º Exército Americano, no dia 5 de Maio de 1945.

Em 2017, foi possível garantir já a presença portuguesa na cerimónia anual em Angoulême, através da CIVICA – Associação de Autarcas de Origem Portuguesa em França e no Estrangeiro, presidida por Paulo Marques, vice-presidente da Câmara de Aulnay-sous-Bois (Paris).

Um dos objetivos do projeto de investigação consistiu também na organização de um Congresso Internacional sobre o Trabalho Forçado, que veio a realizar-se no Goethe Institut-Lisboa, instituição parceira, bem como na apresentação de uma exposição, a qual teve lugar no Centro Cultural de Belém, no final de 2017.

Na sequência da exposição, e porque se chamava a atenção para a importância da investigação local no âmbito de uma temática internacional, o Município de Loulé aceitou o repto e estabeleceu entretanto uma parceria com a equipa de investigação para inaugurar em Loulé a exposição internacional “Trabalhadores Forçados Portugueses do III Reich” e, em simultâneo, realizar localmente a investigação que permitiu complementá-la com o núcleo “Os Louletanos no sistema concentracionário Nazi”. A exposição encontra-se ainda patente ao público em Loulé, na Casa-Memória Duarte Pacheco.

Em 2018 uma delegação portuguesa, que integrava o embaixador de Portugal em Viena e o investigador Fernando Rosas, entre outros, esteve novamente presente na cerimónia em Mauthausen, enquanto representação nacional.

Em 2017 e em 2018, os representantes portugueses participaram ainda no ato que recria o “Juramento de Mauthausen”, momento de especial significado na cerimónia.

Agora, em 2019, é a vez de a Câmara de Loulé levar meia centenas de alunos louletanos ao encontro com uma página pouco conhecida da história.

 

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