Comunidades e plataformas na gestão de territórios inteligentes

No próximo futuro, a novidade mais importante será a emergência de uma grande variedade de comunidades, redes e plataformas tecnológicas e sociais, com graus diferenciados de enraizamento no território

Depois de uma breve visita à Universidade de Huelva, para um focus grupo em redor do tema de uma “marca transfronteiriça”, regresso à temática da smartificação do território e, muito em particular, ao nexo de causalidade entre comunidades, offline e online, e plataformas digitais de suporte.

Na sociedade do conhecimento, por todas as razões, as interações entre tecnologia e território são um problema de prioridade elevada. Na sociedade do conhecimento em que vivemos hoje o meu pressuposto é simples: todos os territórios têm uma inteligência coletiva tácita ou implícita que os seus principais atores e representantes podem explicitar e desenvolver se forem capazes de resolver os seus principais défices de conhecimento.

Não há, portanto, nenhum fatalismo ou determinismo especial com um território, simplesmente, na sociedade do conhecimento a origem dos problemas reside num défice de conhecimento.

 

Territórios inteligentes, racionalmente e emocionalmente

A grande questão reside em saber até que ponto um determinado território é não apenas um “objeto de conhecimento”, mas, também, um “território-desejado” que mobiliza entusiasmo e adesão para um projeto de futuro.

Estas duas inteligências, racional e emocional, precisam de estar reunidas. Se, ao contrário, um território for percebido como um mero recipiente ou recetáculo, a inteligência emocional e a inteligência racional nunca se encontrarão para um grande projeto de futuro, isto é, não haverá inteligência coletiva territorial digna desse nome e capaz de reduzir os défices de conhecimento já acumulados. Nestas condições muito dificilmente conseguiremos um território inteligente e criativo.

É nesta transição das tecnologias de informação e conhecimento para os territórios inteligentes e criativos que a crise dos territórios e a transformação digital se entrecruzam e que a intensidade-rede ou a conexão digital se reveste de alguma ambiguidade.

Por um lado, a conexão digital reduz a invisibilidade do problema, trá-lo para o espaço público, faz ruído à sua volta, chama a atenção da sociedade civil e do poder político.

Por outro lado, as comunidades online precisam ainda de fazer prova de vida, isto é, não podem tratar a realidade como um mero epifenómeno, reduzida a uma série de eventos que se consome com grande voracidade. Dito de outro modo, as comunidades online devem sair do “modo representação” ou do “modo personagem” se quiserem que o seu protesto virtual seja convertido em ação real e efetiva.

Ou ainda, que as manifestações públicas sob a forma de eventos sejam convertíveis em “atos orgânicos” que criam enraizamento nas comunidades locais de um modo efetivo.

Eis, aqui, um campo imenso de investigação-ação para o próximo futuro, a saber, a consubstanciação de uma cadeia de valor que começa no grande universo imaterial das comunidades online e redes sociais com a germinação de uma ideia, que se transfere, de seguida, para uma incubadora digital ou espaço de coworking, que se revela e ganha reputação no espaço público e que, finalmente, se materializa num ato orgânico de criação e enraizamento territorial como se tivesse voltado às origens.

 

Os territórios colaborativos: comunidades, redes e plataformas (CRP)

Estou convencido de que a crescente responsabilidade social, ambiental e cultural irá progressivamente incorporar a inteligência coletiva territorial que, assim, adotará uma matriz política e social mais complexa e diferente da atual, com um lugar especial para a solidariedade social e a ética do cuidado. Esta será a principal tarefa do próximo futuro e, nessa medida, não tenho dúvidas de que haverá mais campo na cidade e mais cidade no campo.

Nesses corredores verdes entre a cidade e o campo iremos celebrar a agricultura vertical na cidade, o aproveitamento dos logradouros e jardins urbanos, as novas agriculturas periurbanas acompanhadas pela comunidade, as agriculturas de nicho com denominação de origem, os circuitos curtos agroalimentares, os projetos inovadores de economia circular e os terroirs agroculturais que serão a “cereja em cima do bolo” e uma verdadeira atração para os neorurais que chegarão curiosos para ocupar o interior do país.

Nesta nova abordagem a distância não é um obstáculo à participação. As plataformas digitais colaborativas serão uma ferramenta fundamental para montar esta inteligência coletiva territorial.

Para ilustrar esta inteligência coletiva trago aqui alguns exemplos de comunidades, redes e plataformas (CRP) cujo “design funcional e criativo” será fundamental para organizar a agenda política e tecnológica das cidades inteligentes do próximo futuro:

– CRP de Alojamento Local (Banco de Alojamento Local)
– CRP de Produção de Alimentos Biológicos (Banco de Alimentos Local)
– CRP de Economia Circular 4R (redução, reciclagem, reutilização, reparação)
– CRP de Cuidados Ambulatórios de Saúde (Rede SAD)
– CRP de Produção Local de Energia (Comunidades de Produção de Energia)
– CRP de Serviços Ambulatórios ao Domicílio (Rede SAD)
– CRP de Mercados de Ocasião (Plataforma)
– CRP de Cohousing para a Comunidade Sénior (Banco de Cohousing)
– CRP de Envelhecimento Ativo (Comunidade Ativa)
– CRP de Emprego e Formação Profissional (Banco de Oportunidades)
– CRP de Defesa do Cidadão com Deficiência (Comunidade Terapêutica)
– CRP de Promoção de Comunidades Terapêuticas (Comunidades)
– CRP de Defesa do Património Natural (Plataforma)
– CRP de Defesa do Património Construído (Plataforma)
– CRP de Educação e Formação (Comunidades Educativas e Formativas)
– CRP de Mobilidade Partilhada (Comunidade)
– CRP de Produção de Conteúdos e Comunicação (Plataforma de serviços)
– CRP de Organização de Trabalho Voluntário (Banco de Horas)
– CRP de Cooperação e Extensão Agrícolas (Plataforma de Serviços)
– CRP de Economia do Biscate (Plataforma de serviços)

Em alguns destes casos, as comunidades offline já estarão no terreno, em outros casos só existirão virtualmente por via de plataformas e aplicações digitais.

À nossa frente está, portanto, um trabalho enorme de construção social e política de uma sociedade e economia colaborativas a partir de uma base comum de inteligência coletiva territorial (racional, emocional e artificial) que as redes e as plataformas digitais distribuídas podem ajudar a montar e operar.

 

A arte da composição de territórios inteligentes

Hoje em dia, porém, à nova economia digital não bastam as comunidades online criadas de geração espontânea em espaços de coworking ou fablab municipais. Também não bastam as start-up geradas em incubadoras e aceleradoras, quais corredores solitários em busca de uma pista segura que lhes garanta um mínimo de sustentabilidade.

Há, de facto, uma diferença abissal entre o conforto de uma rede digital gerida por uma comunidade online e o desconforto de um problema real gerido por uma comunidade offline, já para não falar da qualidade do ator-rede que administra a respetiva rede ou plataforma digital.

Comunidades reais de pessoas concretas, uma rede de relações sociais bem distribuída, um território-rede desejado, uma economia produtiva de proximidade, mas, também, uma economia circular bem oleada e as plataformas digitais para a economia colaborativa, eis na sua máxima expressão a arte da composição de um territórios-rede.

Creio que, no próximo futuro, naquilo que eu designo como a “2ª ruralidade”, a novidade mais importante será, justamente, a emergência de uma grande variedade de comunidades, redes e plataformas tecnológicas e sociais, com graus diferenciados de enraizamento no território.

Inicialmente, tudo poderá parecer um pouco caótico, mas na 2ª ruralidade “os neorurais vindouros” desempenharão um papel fundamental e tornarão o campo quase irreconhecível tal como o conhecemos hoje.

A arte das comunidades online e das redes sociais vai trazer-nos uma espécie de “realidade aumentada” sob a forma de “agricultura acompanhada pela comunidade” (AAC), de gestão comunitária e agrupada de aldeias e vilas, de economia da partilha e economia circular, onde não haverá recursos ociosos e expectantes e onde a patrimonialização dos recursos arqueológicos e históricos e a sua moderada turistificação serão, também, uma realidade.

Não será o melhor dos mundos, mas será seguramente um mundo melhor.

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