A limpeza das matas

Em vez de se reorganizarem os Serviços Florestais, modernizando-os como se faz em todo o mundo, aproveitou-se a onda neo liberal de que com “menos Estado temos melhor Estado” e o resultado está à vista

Temos mais um “fim de prazo” para limpar as matas! É desta forma que o Estado tenta alijar as suas responsabilidades na gestão da área florestal e da falta de vigilância e operacionalidade ao longo do ano.

Se entretanto chover, como se espera, até Junho o mato vai crescer outra vez, mais prazos e mais multas…

Há pessoas que, por receio, cortam tudo e, se forem cumpridas as medidas e as distâncias para abate e desbaste de arvoredo, o desastre paisagístico e ecológico vai continuar.

Eu, quase obsessivamente, volto sempre ao mesmo assunto: quando existia a estrutura regional e local dos Serviços Florestais, a manutenção de um aceitável estado de equilíbrio entre a manta morta (resíduos vegetais secos) e os estratos arbustivos das matas, permitia que, sempre que houvesse um início de incêndio, ele pudesse ser atempadamente combatido.

Agora rapa-se tudo, como manda a lei…

A rede de casas florestais e de postos de vigilância mantidos pelos guardas florestais eram fundamentais para a salvaguarda do nosso território, porque vigiavam e acompanhavam ao longo do ano, não como agora com prazos administrativos!

Havia necessidade de reajustar a estrutura? Havia alterações a introduzir na dimensão e complexidade da cadeia hierárquica dessa estrutura? Havia, claro, mas em Portugal existe também esta tendência doentia de que, quando um organismo funciona mal, em vez de se corrigir, destrói-se e cria-se outra coisa qualquer – ou não se cria nada, fica o vazio.

Foi o que sucedeu nesta situação: em vez de se reorganizarem os Serviços Florestais, modernizando-os como se faz em todo o mundo, aproveitou-se a onda neo liberal de que com “menos Estado temos melhor Estado” e o resultado está à vista.

Devemos ser um dos raros, senão único país, do mundo com área florestal considerável, que não possui Serviços Florestais com um Corpo de Guardas Florestais próprio (gardes forestiers, forest rangers, guardabosque, forster…).

Talvez ainda alguém se recorde que os incêndios florestais eram combatidos pelos florestais, desde o Administrador até ao guarda, e pelos bombeiros, e raramente existiam desencontros, porque ambas as Entidades conheciam bem as regiões, as matas, os acessos, etc – até surgir a Protecção Civil.

Claro que é indispensável uma cúpula de protecção do território, só que os tais comandantes até agora (e já se sucedem uns bons anos) pretendem saber de tudo, mas quem sabe de fogos são mesmo os bombeiros – apesar de levarem sempre com as culpas das falhas de comando que vêm de cima…

Bombeiros parados nas estradas à espera que um qualquer comandante que não é o seu dê a ordem para actuarem já se tornou uma imagem corrente nas televisões.

Envolver os Municípios na gestão das áreas florestais concelhias é útil e acertado, desde que isso não aconteça sem uma coordenação técnica especializada de um organismo nacional implantado no território, coisa que o ICNF hoje não faz.

É o Estado neo liberal de direita (ou duma esquerda que se esquece das suas raízes) a fugir às suas responsabilidades usando uma ideia peregrina e atractiva de “descentralizar funções”.

E também representa o pouco peso específico e a pouca consideração que os técnicos florestais, afinal, encontram na sociedade e entre os políticos que, caídos de paraquedas no âmbito da Agricultura e Florestas, também acham que sabem tudo!!

Gasta-se todos os anos milhões de euros a tentar tapar o buraco da falta de uns Serviços Florestais, só para não admitir que erraram – mesmo que isso nos saia a todos do bolso.

 

Autor: Fernando Santos Pessoa é engenheiro silvicultor e arquiteto paisagista…e escreve com a ortografia que aprendeu na escola

 

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