A importância do Parque Tecnológico do Algarve

São as interações entre as pessoas, mesmo que sejam de outras empresas, que possibilitam e promovem a inovação

A inovação é reconhecida como um dos fatores fundamentais para o desenvolvimento económico e para a competitividade de um território. É através da inovação que as empresas se conseguem distinguir dos seus competidores, criando produtos e serviços diferenciados e como tal, obter mais quota de mercado.

O economista austríaco Joseph Schumpeter reconheceu este género de “destruição criativa”, em que os velhos métodos de produção são substituídos por outros, como um dos fatores essenciais do capitalismo.

Agora há que reconhecer que a inovação não surge do vazio; brota de um determinado contexto. A conversão de conhecimento em inovação não tem necessariamente de surgir de um laboratório isolado ou de uma empresa orgulhosamente só.

A ideia de um empreendedor solitário que, com a força do seu carisma e a audácia das suas ideias, altera fundamentalmente o mercado em que se insere, dificilmente é a norma.

A inovação necessita de um certo nível de colaboração; são as interações entre as pessoas, mesmo que sejam de outras empresas, que possibilitam e promovem a inovação. Um encontro serendipitoso entre colegas ou amigos pode ditar uma descoberta que leve a um novo produto. Não é por acaso que as grandes regiões inovadoras alojam um grande número de empresas, muitas delas concorrentes.

Apercebendo-se de que podem obter vantagens através da obtenção de pessoal especializado sem necessidade de formação, e do aproveitamento das infraestruturas existentes, as empresas localizam-se perto umas das outras, formando clusters. As pessoas mudam de empresa, levando consigo conhecimentos e métodos de produção diferentes; algumas poderão decidir mesmo criar novas empresas.

Desta forma, a inovação acaba por ter uma dimensão espacial; a aglomeração de empresas proporciona um ambiente indicado para a promoção da inovação, e como tal, da competitividade de uma região.

No contexto da inovação, a Universidade detém um papel fundamental na promoção do contexto mencionado anteriormente. Longe da visão simplista de que deve formar profissionais e fazer pesquisa fundamental, hoje a Universidade têm um papel ativo na dinamização de um ecossistema inovador.

A transferência de tecnologia e do conhecimento produzido pela Universidade para a sociedade civil, através da criação de aplicações comerciais ou da criação e incubação de empresas de base tecnológica é um dos novos papeis que a Universidade reclama.

Dito isto, é com agrado que vejo a iniciativa da Universidade do Algarve em construir um Parque Tecnológico nas Gambelas. Trata-se da materialização de um desejo antigo da Universidade; a criação de uma infraestrutura que pudesse acolher novas empresas de base inovadora, em estrita colaboração com a Universidade, gerida por uma organização com recursos humanos especializados e que possa proporcionar serviços de valor acrescentado às empresas acolhidas, com especial destaque para a importância da transferência de tecnologia.

O Parque Tecnológico constitui mais um passo na abertura da Universidade ao sector empresarial, não só para dinamizar o empreendedorismo tecnológico, mas também para empoderar empresas já existentes no mercado, que poderão beneficiar do conhecimento da Universidade.

Um parque tecnológico é uma infraestrutura com várias dimensões; é um projeto imobiliário, um programa organizado de transferência de tecnologia e uma parceria entre o Estado, o sector privado e a Universidade. A gestão destas vertentes condicionará o sucesso da iniciativa; a Universidade deverá posicionar-se como um pivot entre os diferentes atores que interajam no Parque.

A grande distinção de um parque tecnológico face a projetos de acolhimento empresarial semelhantes prende-se com a presença da Universidade, que deverá ter um papel absolutamente ativo na determinação da visão e da governance do parque.

A criação de uma incubadora de empresas no interior do Parque constitui igualmente uma oportunidade para a Universidade elevar o nível de incubação, ao proporcionar às empresas mais do que escritórios de baixo custo, mas também acesso a laboratórios completos, a programas de formação de gestão e empreendedorismo e a contactos com investidores e capital de risco.

Do ponto de vista do ordenamento do território, o Parque Tecnológico é uma oportunidade para consolidar a malha urbana das Gambelas, dotando-a de uma componente de uso diferente do já existente.

No entanto, há que realçar que deverá haver algum nível de flexibilidade a garantir na classificação e qualificação do uso do solo do Plano de Urbanização do Parque, de forma a permitir uma implantação sustentável das empresas no Parque Tecnológico, bem como permitir a adaptação da infraestrutura e da dimensão do Parque para as inevitáveis mudanças de paradigma que se sentem no ciclo de vida da atividade empresarial.

A grande oportunidade deste Parque Tecnológico é, todavia, no seu papel de dinamizador do ecossistema de inovação para toda a região do Algarve. A estrutura económica do Algarve peca pela sua excessiva dependência no turismo; a implantação deste Parque é um investimento importante para a diversificação da base económica da região.

Embora seja uma estrutural territorialmente localizada, o desafio algo paradoxal deste Parque é o de mitigar a sua própria dimensão espacial e causar uma dinâmica positiva para a região no que toca à promoção do empreendedorismo e da criação e difusão de inovação.

Para tal, é importante estabelecer e promover relações com os diferentes atores da região, estendendo a sua atuação para fora dos limites do parque e dos seus stakeholders mais imediatos. O Parque Tecnológico da Universidade do Algarve poderá estar situado nas Gambelas, mas pertence a todo o Algarve.

 

Quem é António Guerreiro?
António Guerreiro é licenciado em Economia e Mestre em Marketing pela Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, tendo efetuado pós-graduações nas áreas das Finanças Empresariais e da Fiscalidade na UAlg e de Avaliação de Ativos Imobiliários no ISEL.
Concluiu a parte curricular do Programa de Doutoramento em Gestão de Inovação e do Território na Universidade do Algarve.
É escritor ocasional, tendo uma coluna de opinião num jornal local.
Membro efetivo da Ordem dos Economistas e da Ordem dos Contabilistas Certificados, é Gestor de profissão, com experiência em retalho e imobiliário e interessa-se especialmente por desenvolvimento regional, dinâmicas urbanas e empreendedorismo.

 

Nota: artigo publicado ao abrigo do protocolo entre o Sul Informação e a Delegação do Algarve da Ordem dos Economistas

 

 

 

 

Comentários

pub
pub