O Turismo no Algarve. Desafios em tempos de incerteza – Parte II

Segunda parte do artigo do professor João Albino Silva: «teremos um conjunto de desafios sobre o modelo económico e perfil de emprego para um turismo mais competitivo e inovador do Algarve»

Em texto anterior publicado no Sul Informação, refletimos sobre vários aspetos centrais ao fenómeno turístico. Verificámos na altura que, se é verdade que o setor tem vindo a criar oportunidades, enfrenta também riscos importantes. Será pois importante equacionar alguns dos principais desafios relativos ao destino turístico Algarve e às empresas que aqui desenvolvem as suas atividades.

Em primeiro lugar, teremos um conjunto de desafios relacionados com a dimensão de um Algarve comprometido com a Sustentabilidade do seu Desenvolvimento Turístico

Decorrente dos grandes desafios globais relacionados com o desenvolvimento sustentável, o Turismo tem vindo a incorporar este conceito que, na abordagem proposta pela Organização Mundial de Turismo, significa que um desenvolvimento turístico sustentável implicará uma melhoria da qualidade de vida das populações, da experiência dos turistas e maiores níveis de rentabilidade económica, sem questionar a qualidade ambiental e o património cultural.

Em última análise, significará o reconhecimento da importância de todos os parceiros numa perspetiva de coesão social e de longo prazo.

Assumir como desafio a garantia dos princípios da sustentabilidade turística para o Algarve significará ter presente a íntima relação entre a sustentabilidade e o desafio da competitividade, porque aquela sustenta a dimensão a longo prazo da competitividade das atividades turísticas.

Por outro lado, as crescentes preocupações sobre os efeitos das alterações climáticas e as relações estreitas entre o ambiente, o clima e o turismo, vêm reforçar e tornar mais urgente uma agenda de investigação e desenvolvimento sobre as relações entre as alterações climáticas, a sustentabilidade e o turismo na nossa região.

Em segundo lugar, teremos um conjunto de desafios sobre o modelo económico e perfil de emprego para um turismo mais competitivo e inovador do Algarve.

A contribuição económica do turismo para o desenvolvimento da nossa região, em particular no que se refere aos seus níveis de produtividade, inovação e qualidade de serviços, está fortemente correlacionada com os níveis formativos do seu capital humano, nas várias dimensões ligadas às suas competências, conhecimentos e talentos.

As novas dinâmicas do Turismo apontam para a criação de muitas empresas nas áreas da cocriação, experiências, cultura, património, tecnologias, e empreendedorismo e inovação social. Estas áreas requerem indubitavelmente formações atualizadas e de excelência e atividades de investigação e desenvolvimento.

Importará reconhecer que este contributo não dispensa uma maior integração das várias atividades económicas regionais na cadeia de valor das atividades turísticas.

Em último lugar, importa ter presente um conjunto de desafios associados a uma dimensão de gestão integrada e sustentável do destino turístico Algarve.

Poucos são os setores económicos em que as decisões de investimento estejam tão dependentes dos consensos sobre a estruturação de um destino turístico.

Este é o caso do Turismo, onde as decisões de investimento estão fortemente correlacionadas com a presença de um planeamento harmónico do território, em que intervenham e cooperem ativamente o setor público, as empresas e a sociedade civil; que existam órgãos capazes de impulsionar consensos e estratégias, cujo objetivo é o da obtenção de rentabilidade económica, social e ambiental para todas as partes envolvidas.

Para que este processo de planeamento se concretize de forma eficaz e sustentável é necessário assumir o desafio de uma gestão integral do destino turístico, tendo como principal suporte ou ferramenta de apoio à decisão, um Observatório de Turismo.

Da análise das experiências recolhidas sobre este tipo de entidade, pode considerar-se que os Observatórios do Turismo têm surgido como suportes indispensáveis no apoio a um desenvolvimento turístico sustentável, funcionando como instrumentos de informação e análise sobre a evolução da atividade turística, em particular dos mercados, permitindo apoiar a tomada de decisões, e cuja informação esteja à disposição de todos os agentes do destino.

Mais recentemente, os Observatórios de Turismo têm vindo a ser igualmente apresentados como ferramentas ligadas a destinos inteligentes (“smart destinations”) associadas a estruturas técnicas estáveis, encarregadas de observar a realidade, analisar as dinâmicas e disponibilizar os resultados a todos os agentes no destino.

O Observatório de Turismo Sustentável para o Algarve, à semelhança de outros Observatórios existentes em outros países e regiões, poderá ser uma estrutura que, para além de contribuir com um conhecimento para promover junto dos empresas boas práticas relacionadas, por exemplo, com a gestão da qualidade ou a criação das experiências turísticas, garanta o acompanhamento, a investigação, a divulgação e a análise da evolução da atividade turística, em tempo útil, por forma a fundamentar a realização de diagnósticos sectoriais que facilitem a tomada de decisões e a atividade de todos os agentes económicos do sector.

Neste desafio estará em causa a avaliação a médio e longo prazo da eficácia do Turismo desta região para criar novos produtos de elevado valor acrescentado e de novas zonas turísticas baseadas em valores culturais e ambientais, onde a qualidade dos serviços e os elevados níveis de eficiência ambiental se apresentem como o principal fator de atração de novos segmentos da procura turística, condição da própria competitividade das empresas turísticas algarvias.

A criação deste Observatório potenciará o desenvolvimento de uma estratégia de investigação e inovação para o Algarve, centrada numa parceria entre a Universidade do Algarve, a Região de Turismo do Algarve e as empresas e organizações do sector e que permita a criação de uma comunidade de conhecimento regional sobre o Turismo.

As interligações que poderão ser concretizadas entre os diferentes atores, garantirão o que se pode designar como “bridging theory and practice”, permitindo a obtenção e partilha de informação e conhecimento essenciais para a transformação de um sistema complexo, que é o turismo, e que se pretende operacionalizar ao serviço da competitividade e sustentabilidade do turismo nesta região.

Os desafios do turismo algarvio implicam a superação de vários riscos, mas também requerem a capacidade necessária para aproveitar as oportunidades que derivam de aspetos chave para o seu desenvolvimento.

Porventura o principal objetivo será a competitividade numa base sustentável do turismo do Algarve, que se alcançará através do estudo dos fatores que permitam impulsionar os níveis de produtividade das suas empresas, como sejam a inovação, a tecnologia, o conhecimento, a imagem, a qualidade e a eficiência, as parcerias entre os setores público e privado e a relação da população residente com o turismo.

Tendo presente o nexo fundamental entre a economia, a comunidade residente e o ambiente, por um lado, e tendo em conta o seu protagonismo nesta região por outro, o turismo do Algarve deverá contribuir, em última instância para se garantir as prioridades nacionais e regionais em matéria de competitividade económica, sustentabilidade ambiental e coesão social desta região.

 

Autor: João Albino Silva
Faculdade de Economia, Universidade do Algarve

Nota: artigo publicado ao abrigo do protocolo entre o Sul Informação e a Delegação do Algarve da Ordem dos Economistas

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