O Turismo no Algarve. Desafios em tempos de incerteza – Parte I

Primeiro artigo do professor João Albino Silva, que defende: «o Turismo no Algarve, embora beneficie de forte visibilidade nacional e internacional, necessita de melhorar os seus fatores competitivos, numa base sustentável»

Em resultado de condições climáticas favoráveis, o Algarve é, porventura, a região portuguesa que sofreu, nas últimas décadas, as maiores alterações nas suas estruturas económicas, sociais e territoriais, tendo-se transformado num território especializado em serviços, com particular destaque para as atividades associadas às valências turística, residencial e de lazer.

É notório, porém, que o Turismo no Algarve, embora beneficie de forte visibilidade nacional e internacional, necessita de melhorar os seus fatores competitivos, numa base sustentável, para manter uma significativa presença num mercado turístico globalizado e fortemente concorrencial, e onde o atual padrão de crescimento desta atividade é substancialmente diferente do crescimento do século XX.

O que significa ser necessário que se posicione em patamares mais elevados de competitividade e com graus de inovação, conhecimento e sofisticação crescentes.

Para tal, as atividades relacionadas com as operações turísticas requerem níveis de conhecimento por parte do setor publico e das empresas e das suas organizações representativas que lhes permitam equacionar com rigor, entre outros domínios, os perfis dos novos consumidores emergentes, as economias que se criam, os fenómenos ligados à chamada “turistificação” dos nossos territórios, os efeitos das plataformas tecnológicas, a cultura e o património e a sustentabilidade dos sistemas em que se baseia o turismo da nossa região.

É importante sublinhar que o Algarve não é a única região que necessita de avaliar o seu posicionamento estratégico em termos turísticos. A globalização implica, entre outros aspetos, que os destinos, independentemente da sua localização geográfica, estejam em concorrência entre si.

De facto, a existência de uma forte concorrência entre os destinos mais populares em termos de turismo internacional obriga a que as abordagens de posicionamento estratégico do Algarve integrem visões partilhadas entre o setor público, as organizações empresariais e as comunidades.

Baseado num conhecimento informado e rigoroso, as áreas onde essa colaboração ativa entre os principais parceiros é necessária inclui nomeadamente uma visão sobre o seu futuro enquanto destino competitivo e sustentável, um processo de planeamento estratégico e uma efetiva monitorização do seu desempenho competitivo.

Com um modelo de crescimento turístico marcado desde o início, por uma lógica de inserção nos fluxos internacionais massificados, onde tem vindo a predominar o turismo de sol e praia, esta região e os seus principais agentes económicos estão, assim, perante importantes desafios que garantam o seu nível competitivo em contextos internacionais. Desafios esses onde se destacam as alterações profundas a nível mundial nos padrões societais, económicos e ambientais.

De facto, a atividade turística é o resultado complexo de inter-relações entre diversos fatores que devem ser considerados conjuntamente numa perspetiva sistémica, não só os que decorrem do mercado turístico, mas também tendo presente os que envolvem e interagem com outras dimensões, como a globalização, o território e o meio ambiente, as dinâmicas sociais e culturais e os quadros jurídico- institucionais, entre outros.

Um adequado posicionamento estratégico do Algarve implica o conhecimento das dinâmicas que ocorrem nas sociedades e nos principais mercados emissores, com impacto nesta região.

Ao protagonismo mundial do turismo não será alheio o substancial aumento da intensidade dos fluxos turísticos, associado à crescente mobilidade das pessoas, ao aumento dos rendimentos em muitas zonas do mundo e ao embaratecimento dos custos de transporte.

Importará, todavia, sublinhar outras tendências que têm afetado o turismo, com implicações nas mudanças dos gostos e das necessidades dos turistas, como sejam as alterações demográficas, exemplificadas nos índices de envelhecimento e no incremento de unidades familiares monoparentais, o maior nível formativo das pessoas, a consciencialização das questões relativas à saúde e ao ambiente e o aparecimento de novos estilos de vida.

Por outro lado, a designada “revolução” tecnológica tem vindo a amplificar as dinâmicas da procura e da oferta turística, com uma forte influência em domínios tão diversos como a desintermediação da operação turística, os transportes, a energia, a segurança e a própria saúde e a alimentação.

Dificilmente hoje se poderá imaginar o mercado turístico desligado das plataformas tecnológicas, também designadas por plataformas digitais, plataformas colaborativas, ou “marketplaces”. E o chamado alojamento local é uma das mais significativas manifestações deste designado turismo colaborativo.

Importará, ainda, admitir que as alterações climáticas surgem não só como um importante fator condicionador da evolução de muitos destinos turísticos e nos padrões das viagens, como colocam a necessidade de integrar o desenvolvimento sustentável na gestão das atividades turísticas.

Estas e outras novas dinâmicas em que assenta o atual crescimento do turismo são muito mais intrusivas, erosivas e com particular incidência sobre as comunidades locais.

Complexas realidades, nem sempre devidamente acauteladas nos seus efeitos sociais e ambientais, coabitam, assim, com a criação de novos “branding” locais, novas áreas mais sofisticadas e mais ecleticamente atrativas, alterando, a um tempo, paisagens, modos de vida e imagens identitárias e, a outro tempo, potenciando novas oportunidades de investimento e de emprego.

São muitos os desafios com que o setor do turismo (e o Algarve) se depara. Felizmente, algumas soluções são possíveis de equacionar. Tentarei contribuir para esta reflexão  num próximo escrito no Sul Informação.

 

Autor: João Albino Silva
Faculdade de Economia, Universidade do Algarve

Nota: artigo publicado ao abrigo do protocolo entre o Sul Informação e a Delegação do Algarve da Ordem dos Economistas

 

Quem é João Albino Silva?
João Albino Matos da Silva, Doutor em Economia e Agregado em Economia do Turismo.

Professor Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve. Portugal.
Presidente do Conselho Científico da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve .

Diretor do Programa de Doutoramento em Turismo da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve.
Coordenador da Área Departamental de Economia da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve.

Membro da coordenação nacional da Agenda de Investigação em Turismo, Hospitalidade e Gestão do Lazer, para Portugal, da Fundação Para a Ciência e Tecnologia (Ministério do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia).

Membro da coordenação científica e responsável pela área de investigação em Turismo e Bem-Estar do Centro de Investigação do Espaço e das Organizações (CIEO), Universidade do Algarve e Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Representante da Universidade do Algarve na Rede Mundial sobre transferência de conhecimento em Turismo, presidida pelo Professor Jafar Jafari, “Tourism Intelligence Forum”, Nápoles, Itália.

Presidente de Comissões Nacionais de Avaliação dos Cursos Universitários de Turismo em Portugal, A3ES ( 2010-2015; 2018-).
Foi Presidente do Observatório Nacional de Turismo (Ministério da Economia, Secretaria de Estado do Turismo, Portugal, 2000-2003.

Tem coordenado projetos de investigação nacionais e internacionais.
Tem publicado e editado vários livros e artigos científicos sobre a problemática do Turismo.

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