Povo que és lavado pelo rio

Relatório de “Avaliação preliminar dos riscos de inundações em Portugal Continental” foi publicado e Gonçalo Duarte Gomes reflete sobre ele

Foto: Nelson Brito | Arquivo

Toda a gente conhece, ou tem mesmo um amigo ou uma amiga que não consegue suster o ímpeto falador, e na ânsia de se fazer ouvir, interrompe o nosso discurso, quebrando raciocínios e fragmentando conversas. Visto por essas pessoas, a coisa é obviamente diferente, e claramente é o meio das nossas frases que interrompe o início das delas…

Em muitos casos, a forma como vamos construindo as nossas paisagens equivale precisamente a essa atitude, sendo nós os tagarelas insaciáveis.

Vamos ocupando espaços indevidos, alterando equilíbrios, interrompendo o funcionamento de ciclos biofísicos fundamentais e, quando a coisa dá para o torto, obviamente “a fúria da natureza não foi nossa amiga”, “Deus nem sempre é amigo, também acha que de vez em quando nos dá uns períodos de provação” ou enfrentamos “a força da natureza na fúria demoníaca”.

Estas pérolas não são de minha lavra. Para os mais esquecidos, foram proferidas pelo efémero Ministro da Administração Interna Calvão da Silva, em visita a Albufeira, quando há coisa de três anos a baixa da cidade foi arrasada por (mais umas) inundações.

Desde então, muitos se riram, mais ainda condenaram o discurso, mas o que é facto é que ninguém alterou o paradigma: gestão do risco pela fé – seja em Deus ou, ainda mais abstractamente, se possível, em que tudo vai correr bem, só porque sim.

O cerne do sempre iminente drama de Albufeira está mais do que identificado, e prende-se com a profunda alteração da bacia hidrográfica da ribeira homónima, com eliminação dos elementos naturais de regulação hídrica (meandros do seu trajecto, as bacias de retenção e dissipação naturais ou a vegetação da respectiva galeria ripícola) e, principalmente, a total impermeabilização, processo que culmina na canalização do troço final da linha de água.

Uma prática cega que, com variantes, se repete ao longo de toda a região, alegremente oscilando entre a massificação da ocupação litoral e a construção em leitos de cheias de cursos de água.

Foi recentemente publicado pela Agência Portuguesa do Ambiente o relatório de “Avaliação preliminar dos riscos de inundações em Portugal Continental”, que surge no âmbito da Avaliação e Gestão dos Riscos de Inundações.

Este relatório, entre muita outra informação, traça um diagnóstico das Áreas de Risco Potencial Significativo de Inundação presentes em cada uma das oito regiões hidrográficas em que se divide Portugal Continental, sendo a preocupação central a avaliação da ameaça à integridade de pessoas e bens.

O Algarve é abrangido por duas regiões hidrográficas. Uma delas, transfronteiriça, corresponde ao Guadiana, enquanto a outra integra as bacias hidrográficas das ribeiras do Algarve (incluindo Arade e Gilão), bem como as respectivas águas subterrâneas e águas costeiras adjacentes.

Entre ambas, o Algarve contabiliza 13 áreas de risco significativo de inundação – cerca de 18% do total nacional. Três delas correspondem a áreas costeiras, estando a restante dezena associada a sistemas pluviais e/ou fluviais.

Se as áreas costeiras se afiguram mais ou menos óbvias (Inatel/Albufeira, Faro – enquanto síntese das ocorrências nas ilhas-barreira da Ria Formosa – e Vila Real de Santo António), as áreas relacionadas com linhas de água (Albufeira, Aljezur, Faro, Loulé, Monchique, Quarteira, Vale do Lobo, Silves, Tavira e também Vila Real de Santo António) talvez não sejam, para muitos, assim tão imediatas.

Principalmente porque, nestas coisas do risco, sistematicamente carregamos no botão de snooze do despertador, e voltamo-nos para o lado, para continuar a dormir. Até aos dias em que somos arrancados da cama, como aconteceu na Fuzeta em 2010 ou em Albufeira em 2015, nomeando apenas alguns dos mais marcantes episódios da última década.

O clima no Algarve é sonso. Embala-nos numa amenidade aparentemente perpétua, aconchega-nos num Verão sempre a mão de semear, para depois nos surpreender com uma violência por vezes inusitada.

Mas sempre anunciada.

Porque o regime pluvial torrencial que nos rege não é novo, tal como o não é o reticulado da rede hidrográfica da região, que apesar de não possuir grandes rios, é marcada por uma miríade de pequenas linhas de água que passam a maior parte do tempo secas. Mas que enchem, e rápido.

Um adágio latino bem presente no Algarve refere de forma eloquente o delicado equilíbrio na relação com a água: aqua, vita et mors (água, vida e morte). A mesma água que dá vida e fertilidade à paisagem, ceifa essa mesma vida com violência, se não acautelada a necessidade de espaço para o seu escoamento. Isto porque este regime é caracterizado por intensa precipitação concentrada num curto intervalo, subitamente originando caudais elevados nas linhas de água, que rapidamente passam a escoar com grande energia, encaminhando um autêntico aríete líquido numa fuga para o mar.

Uma terrível amostra disso mesmo foi-nos dada há semanas, com a tragédia ocorrida nas margens do rio Milicia, na zona de Palermo, em Itália.

Mais, e porque este caso de amor é recíproco, também quando o mar se decide a aventurar por zonas terrestres que são afinal suas, apercebemo-nos do problema que é interromper o diálogo telúrico que ocorre entre as forças matriciais da Natureza.

Nesse capítulo, que bom seria que nos servissem de exemplo as impressionantes imagens chegadas neste fim-de-semana de Mesa del Mar, em Tenerife, com ondas a fazer a barba a edifícios à beira-mar plantados, aparando varandas e redecorando fachadas…

Mas no Algarve, ultrapassados os dramas, e regressada a face solarenga, a necessidade de amontoar mais e mais camas turísticas rapidamente empurra o assunto para debaixo de mais umas camadas de betão e asfalto. Longe da vista, longe do coração, já se sabe.

Nem mesmo o factor crítico das alterações climáticas enquanto ampliação, concentração e intensificação dos fenómenos climáticos extremos nos arranca da letargia. A nossa adaptação, para redução da exposição, aumento da consciência e do estado de preparação resume-se a taxas turísticas, que transformam o problema em fonte de receita, tornando-o rentável, sem nunca questionar ou alterar o modelo territorial.

Muito menos onde, literalmente, pomos os pés.

Resta saber, face a tantos avisos, até quando nos podemos dar a esse luxo.

 

Autor: Gonçalo Gomes é arquiteto paisagista, presidente da Secção Regional do Algarve da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas (APAP), vice presidente da Direção Nacional da Liga para a Proteção da Natureza (LPN).
(e escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico)

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