Patrimónios imateriais e fotografia

O fotógrafo Filipe da Palma fala sobre a imagem enquanto criadora de angústia e carência e catalisador do pensamento

Enquanto fotógrafo, após publicar uma qualquer imagem cujo conteúdo remeta para uma recuada existência e modos de vida ligados a antigas artes e ofícios, fico sempre perplexo perante as reações que espoletam.

Essas imagens convertem-se, na esmagadora maioria das vezes, em imagens rememorativas, tendo a capacidade, por um lado, não só de transportar o espectador a um tempo outro, como às suas próprias vivências, e por outro lado de desencadear uma reação de alguma nostalgia e de não conformidade com o desaparecimento desses modos de vida.

Perante tais reações, tento estruturar um pensamento não somente acerca das imagens, mas da realidade possível por elas transmitida, onde se encontram representados testemunhos residuais de artes e ofícios.

Para lá dos elementos físicos e naturais constituintes da Região do Algarve, cuja existência lhe concede uma unidade muito própria na políedra realidade, também o ser humano que por aqui se estabeleceu e vingou se caracterizava, em suas manifestações de ser existente, por diferentes adaptações a essas pré-existentes condições.

Assim, e numa estreita relação com a Terra e seus Frutos, tal como acontecia em outras Regiões da Nação até há poucas décadas – sensivelmente até meados do século passado -, o ser que por aqui vivia soube tirar partido das condições do seminal torrão de onde emergiu para a Vida, aperfeiçoando, através dos tempos, o saber aplicado a técnicas de exploração da terra, ao uso da água, ao cultivo de plantas adaptadas aos diferentes tipos de solo, à criação de animais, aos diferentes tipos de pesca, ao desenvolvimento de transportes que permitissem não só a deslocação de pessoas, como o comércio entre localidades, às alfaias que se tornavam extensões do corpo, ajudando e facilitando em todos os labores, à utilitária criação de artefactos de uso diário cuja matéria-prima era em grande parte originária da região…

Ao longo dos tempos, em tempos outros, cujas mudanças ocorriam a um ritmo mais lento, as metamorfoses daí decorrentes ocorriam também elas a uma mais baixa pulsação, não existindo, muitas vezes, o perigo de desaparecimento de uma arte, de um ofício, mas antes um recalibrar de matérias a montante e de produtos a jusante.

A Tradição assenta os seus alicerces numa certa estagnação da vida, em que certos valores e discursos a si associados se verificou, pela sua funcionalidade, quer em termos utilitários, quer em termos sociais, serem os melhores perante determinadas condições, sendo transmitidos ao longo de gerações.

Sensivelmente a partir da segunda metade do século XX, iniciou-se uma mais rápida mudança na sociedade portuguesa, cuja estrutura mergulhava, até então, na agricultura e na pesca, justificadamente existindo uma ampla armação constituída por um sem número de artes e ofícios suas subsidiárias, conferindo-lhes corpo e vida.

A partir do momento em que há uma mudança de paradigma no desenvolvimento da sociedade e em que os novos valores emergem e se tornam nas novas linhas guia no desiderato do desenvolvimento, incompatibilidades surgem, não só para com os testemunhos da anterior ordem vigente, mas igualmente para com aqueles e aquelas que, encerrando antigos conhecimentos e posteriores práticas, são os centros emissores de valores e produtos agora totalmente desprovidos de justificada existência.

Assim, no atual e decorrente presente, o panorama que se nos apresenta no campo das artes e ofícios de tempos outros encontra-se bastante depauperado, não restando senão desarticulados e escassos exemplos, residindo muitos destes no corpo de pessoas já cansadas e de avançadas idades, muitas vezes abrilhantando, com sua experiência e saberes, feiras e festivais vários, onde se mostra aos estrangeiros olhos os exotismos da região, da terra.

Poucos são os felizes exemplos dos que conseguem emergir num oceano ávido de acessíveis produtos de plástico; de mão-de-obra em que a fasquia da segurança, da saúde, da remuneração está colocada ao nível da precariedade diária; de novidades cujo aparecimento vem satisfazer momentaneamente uma necessidade sempre renovada a cada nascer de dia.

Poder-se-ia enumerar uma imensa lista de saberes cuja existência foi por completo banida da existência da vida do dia-a-dia, sendo que tal facto ocorreu num muito curto espaço de tempo, em poucas décadas da média de vida de uma pessoa.

Porque já inscritos na memória, a carência e a angústia daí decorrentes afloram aquando da visualização de uma imagem, cujo conteúdo/referente retrate um qualquer elemento em falta.

 

Autor do texto e das fotos (todos os direitos reservados): Filipe da Palma, fotógrafo

 

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