Família de jovem autista foi enganada por burlão com cão de assistência

Rui Elvas, presidente da Associação Portuguesa de Cães de Assistência, não treinou o animal e o caso é transversal a várias famílias por todo o país

O que era para ser uma grande ajuda transformou-se numa enorme burla. A família de Rui Marques viu, num cão de assistência, uma luz ao fundo do túnel para que a vida deste jovem autista melhorasse. Foram angariados 5 mil euros, o animal foi entregue, mas, veio a constatar-se depois, sem que tivesse qualquer tipo de treino. Rui Elvas, presidente da Associação Portuguesa de Cães de Assistência (APCA), tinha garantido que iria acompanhar todo o processo, mas desapareceu e deixou esta família de Lagoa à beira do desespero. 

Foi a 12 de Junho que o alegado treinador de cães, que nunca terá tido formação nesta área, foi à casa da família Marques, em Porches, para entregar o Farrusco, um cão-de-água português de 3 meses.

O dia foi de festa e Elsa Marques, mãe de Rui, estava longe de imaginar o que viria a acontecer. «Fui burlada. É uma situação muito complicada e que me entristece muito», disse ao Sul Informação. 

Quando entregou o cão, momento que o nosso jornal acompanhou, Rui Elvas garantiu à família que iria acompanhar todo o treino específico do animal, com visitas regulares ao Algarve.

Rui Marques com o seu Farrusco, no dia da entrega do cão

«Depois de Junho, veio cá duas vezes e não fez nada. Viu o cão, disse que estava tudo bem e apenas se limitou a dizer que o Farrusco não devia ladrar, saltar e morder, conselhos que, aliás, já tinha dito aquando da entrega do cão», explicou a mãe ao nosso jornal.

Antes, já Rui Marques, pai do jovem autista, tinha começado a estranhar os procedimentos da Associação Portuguesa de Cães de Assistência.

«O meu marido percebeu logo algumas questões estranhas. Por exemplo, quando já tínhamos o dinheiro todo, os 5 mil euros, houve pessoas que ajudaram a mais e esse Rui Elvas justificou que o excedente seria usado para consultas nos veterinários, ração e a ajuda a outras crianças com necessidades».

«Mas a verdade é que esse dinheiro nunca foi usado para nenhum desses fins. Nunca houve um papel, um recibo que o comprovasse. A empresa onde o meu marido trabalha ajudou com 1000 euros, mas, por exemplo, nunca lhes foi passada uma fatura, como se costuma fazer nestes casos», lamenta Elsa Marques.

Uma reportagem emitida pelo programa “Sexta às 9”, da RTP, a 7 de Setembro, despertou a família Marques para esta questão.

«Foi uma pessoa da ÂNIMAS – Associação Portuguesa para a Intervenção com Animais de Ajuda Social, uma entidade certificada que pode mesmo validar cães de assistência, que me contactou e me falou da reportagem, mas sempre notei coisas estranhas. Houve falta de treino e de transparência», disse Elsa ao nosso jornal.

Nessa peça jornalística, são expostos cinco casos de famílias enganadas pela Associação Portuguesa de Cães de Assistência. Uma delas é a de Carolina, criança autista com 7 anos, de Santa Maria da Feira.

Rui Elvas e Rui Marques

A APCA garantiu que o animal seria treinado, depois de entregue, mas Rui Elvas só visitou por duas vezes a casa desta família, mostrando alguns «truques» (tal como aconteceu no caso de Rui Marques). Durante dois anos, a mãe Cláudia Fernandes tentou obter justificações da parte da Associação, mas sem sucesso.

O cão deveria ter custado 3000 euros, mas, uma vez que houve acordo para que fosse pago em prestações, a família transferiu apenas 500 euros. Depois de descobrir a burla e após muita insistência, a APCA devolveu 200, justificando que o restante seria para cobrir deslocações do Estoril, onde é sediada, ao Norte.

Outro dos casos expostos é o de Carla Faustino, dos Açores. Após uma angariação de fundos, o cão Lupi foi entregue, para felicidade da família e do filho Francisco. Só que, devido à falta de treino, a relação entre a criança e o animal tem sido complicada, com registo de ataques do cão a Francisco.

Não é o que se tem passado com Rui Marques, mas, apenas e só, porque este jovem autista «está habituado a lidar com cães desde bebé», explicou Elsa Marques ao Sul Informação. 

«Este é apenas um cão de companhia, que está em casa, e não de assistência. As melhorias na vida do meu filho não são nenhumas. Estou há duas semanas a tentar contactar esse fulano Rui Elvas, mas o telemóvel está sempre desligado. Pelo que sei, está a passar férias muito descontraído em Vila Nova de Milfontes», disse, irritada.

O Sul Informação também tentou contactar, por sete vezes, o presidente da Associação Portuguesa de Cães de Assistência, mas sempre sem sucesso.

O nosso jornal falou também com a agência responsável pela comunicação da associação, que, num primeiro momento, disse que Rui Elvas estava incontactável porque costuma «ir ao estrangeiro dar formações». Mais tarde, garantiram que nos iam colocar em contacto com o presidente da APCA, mas, até agora, o Sul Informação continua à espera.

Rui Elvas, na entrevista que deu ao “Sexta às 9”, explicou alguns dos seus procedimentos. «Treino as famílias e os cães. Quem passa tempo com o cão? São as famílias. Treino o cão e a família faz diariamente o seu trabalho. Não quero que o animal se ligue a mim», explicou.

A família Marques

Este método é contestado por Pedro Araújo, especialista em treino canino, ouvido pelo mesmo programa. «Os cães não aprendem por telepatia. Se vou uma vez à casa da pessoa, o cão não aprende», disse.

Sebastião Lemos, coordenador da ÂNIMAS, reforçou a ideia: «não se entrega um cão com dois meses. É o mesmo do que dar um carro a uma criança com 5 anos», exemplificou.

Desde que descobriu a burla, há cerca de duas semanas, a mãe do jovem autista Rui Marques tem passado «por momentos difíceis». «Eu faço o que for preciso pelo meu filho… Fico muito triste porque foi tudo angariado por donativos de pessoas que, se calhar, até precisavam do dinheiro, mas fizeram o esforço e foram enganadas», lamentou, na sua entrevista ao Sul Informação.

O próximo passo a tomar será «unir várias famílias para escolher uma advogada». «Vamo-nos juntar todos e apresentar queixa, porque esta pessoa não pode ficar impune», concluiu Elsa Marques.

O caso está também a ser alvo de uma investigação pelo Ministério Público e de processo de averiguação por parte do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. É que a APCA constou da lista do Instituto Nacional de Reabilitação como entidade certificadora de cães de assistência, até Janeiro de 2018.

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