Descoberta do Metoposaurus algarvensis leva ao projeto do Geoparque Loulé/Silves

O Museu de Loulé tem um novo atrativo – os fósseis de dois animais anfíbios com 220 milhões de anos, mais velhos que os dinossauros

Loulé e o vizinho concelho de Silves, que partilham a mesma página da história geológica, estão empenhados na criação do primeiro Geoparque em todo o Algarve. O pretexto é o rico património paleontológico que, nos últimos anos, tem vindo a ser revelado na faixa de grés e do qual a estrela é o Metoposaurus algarvensis, um anfíbio que viveu na zona da Penina, no interior do concelho de Loulé, há nada mais, nada menos que 227 milhões de anos.

«Neste momento, somos aspirantes a Geoparque Mundial da UNESCO», tendo já sido entregue um primeiro dossiê com a intenção de candidatura. «Temos agora dois anos para preparar o dossiê de candidatura formal», revelou Dália Paulo, diretora da Câmara de Loulé, em entrevista ao Sul Informação.

Quando for formalizado, o Geoparque Loulé/Silves partirá do geossítio da Penina, um dos «geossítios de referência mundial», por lá ter sido encontrado o fóssil do enorme anfíbio que é uma espécie nova para a ciência e que, por isso, reflete no seu nome a sua origem algarvia, Metoposaurus algarvensis.

Mas, sublinhou Dália Paulo, «permitirá ainda trabalhar o interior do ponto de vista económico a partir desta riqueza geológica e paleontológica, mas também da sua riqueza natural, paisagística e até etnográfica». É que, salientou, «sem pessoas não há geoparque».

Para poder dar corpo a este projeto do Geoparque, a Câmara de Loulé contratou há pouco tempo um jovem paleontólogo, Hugo Campos, de 27 anos, que terminou recentemente o seu mestrado na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Hugo Campos foi bolseiro da Fundação António Aleixo, que lhe permitiu fazer a especialização na sua área de eleição.

O futuro Geoparque terá como diretora técnica Cristina Veiga-Pires, professora da Universidade do Algarve, entidade que também está ligada à candidatura liderada pela Câmara de Loulé.

Enquanto o Geoparque não é criado, o público já pode ver de perto, no Museu Municipal de Loulé, o fóssil deste enorme animal, que viveu numa zona lacustre que existia há mais de 220 milhões de anos, no território que hoje é o interior do concelho.

Em termos de aspeto, o Metoposaurus assemelha-se a uma salamandra gigante, mas na verdade, como o indica a fileira de dentes afiados, tratava-se de um predador carnívoro.

O crânio achatado de um espécime jovem e parte do de um adulto, bem como uma mandíbula daquele anfíbio pré-histórico, do Triásico, pode agora, desde finais de Julho, ser visto numa sala do Museu de Loulé, lado a lado com outro animal que viveu na zona da Penina, um Fitossauro, um réptil com o corpo parecido a um crocodilo, mas com a narina perto dos olhos, o que lhes permitida respirar com quase todo o corpo submerso.

Os fitossauros extinguiram-se há 200 milhões de anos e a mandíbula e dentes apresentados no Museu de Loulé são os únicos vestígios conhecidos em toda a Península Ibérica.

Os fósseis destes animais estão agora expostos, cada um na sua vitrina, lado a lado, no museu louletano, despertando a curiosidade dos muitos visitantes, em especial das crianças. «Os fósseis só cá estão há pouco mais de um mês, antes tinham estado em Lisboa, no Museu Nacional de Arqueologia, mas agora, com o início das aulas, devemos começar a receber visitas de escolas só para os ver», disse Ana Rosa Sousa, diretora técnica da estrutura museológica.

As vitrines, lado a lado, do Metoposaurus algarvensis e do Fitossauro e os seus fósseis com milhões de anos

Só que a riqueza paleontológica é tanta que nas jazidas da Penina e noutras há ainda muito para investigar, uma vez que só foram feitas escavações numa muito pequena parte das rochas do Triásico. «Este ano não haverá nenhuma campanha de escavação no terreno, mas no próximo estamos já a programá-la», revelou Dália Paulo.

Esses trabalhos de campo são dirigidos pelo professor Octávio Mateus, contando com a participação de equipas de voluntários do Museu da Lourinhã e outros investigadores e estudantes. O jovem paleontólogo da Divisão de Museus e Património da Câmara de Loulé também irá integrar a equipa. Aliás, explicou Dália Paulo, a criação futura do Geoparque implica «constituir uma mini equipa» que se ocupe, em permanência, desse trabalho e de tudo o que tenha a ver com a paleontologia.

Para acolher essa que é uma área totalmente nova na museologia no Algarve – em Portugal, só há paralelo no Museu da Lourinhã – o Museu de Loulé vai ter, em breve, uma sala inteira dedicada à paleontologia, com o seu Metoposaurus algarvensis como figura central.

E ficará ainda dotado de um laboratório de paleontologia, que evitará ter de recorrer-se ao do Museu da Lourinhã ou ao da Universidade Nova de Lisboa.

A nova sala e o futuro laboratório serão criados pela grande reestruturação do museu que está a ser programada pela Câmara de Loulé e que envolverá um investimento total de 5 milhões de euros, bem como a criação de um verdadeiro «quarteirão cultural» na cidade, alargando a estrutura museológica, da sua localização atual, na antiga alcaidaria do castelo, para os vizinhos Convento do Espírito Santo, ruínas dos Banhos Islâmicos e edifícios contíguos.

«Não há outro museu no Algarve que conte a história do território algarvio em termos de paleontologia», explicou Dália Paulo ao Sul Informação. «Será uma forma de complementar a história que se conta nos museus do Algarve», acrescentou. E de recuar essa história que se conta em pelo menos 227 milhões de anos.

Os fósseis de dois crânios (um dele parcial) e uma mandíbula de Metoposaurus algarvensis, cujos ossos foram escavados na formação de grés

 

E que história é esta, que já começou a ser contada no Museu de Loulé? Conta a história desses tempos remotos em que os continentes ainda estavam todos unidos na Pangeia, rodeada pelo grande oceano Pantalassa. No interior daquilo que hoje é o concelho de Loulé e o vizinho de Silves, havia um sistema de grandes lagos e rios, onde viviam animais como o Metoposaurus algarvensis, o Fitossauro ou o Placodonte, «um pequeno réptil aquático», cujo fóssil foi descoberto na mesma formação de grés, mas na zona de São Bartolomeu de Messines.

«Normalmente, estes Placodontes alimentam-se de moluscos com conchas, que esmagavam com a forte mandíbula, mas o nosso podia ser diferente, talvez fosse herbívoro», explicou Hugo Campos.

O paleontólogo está entusiasmado com o muito trabalho que se avizinha. Com novas campanhas de escavações no terreno, admite que «poderão surgir mais espécies». «Já encontrámos vestígios de Placodonte, como o descoberto no concelho de Silves, mas perto da Rocha da Pena, em Loulé. Em Espanha, associados aos Placodontes, encontram-se outros animais. Quem sabe o que se poderá aqui descobrir?».

Quanto ao fóssil que é a estrela, o do Metoposaurus algarvensis, Hugo Campos salienta o facto de se tratar de um «animal que só é encontrado no Algarve, num dos sítios mais ricos em fósseis do país. Pelo tamanho desta jazida da Penina, estimamos que haja ali dezenas de indivíduos. Há 227 milhões de anos, houve um episódio catastrófico cuja origem não está estabelecida, mas que levou ao desaparecimento do lago, de forma muito rápida, e a uma morte em massa destes animais. Os Metoposaurus foram-se concentrando nos últimos resquícios de água e acabaram por morrer».

«O género Metoposaurus é encontrado na Alemanha, na França, na Polónia, em Marrocos, aqui em Portugal, nomeadamente no Algarve, com esta espécie. Isso mostra o mundo em que estes animais viviam», quando existia apenas um supercontinente, a Pangeia.

Na Rocha da Pena, «acima destes, há níveis calcários, de ambientes marinhos, quando se começou a dar a separação dos continentes e surgiram os oceanos», acrescenta o paleontólogo.

Ou seja, a história geológica do interior dos concelhos de Loulé e Silves, em especial o geossítio da Penina, permite explicar como era a vida nos tempos primordiais da Pangeia, mas também no que se lhe seguiu, a separação dos continentes e a criação dos vários oceanos. E trabalhar esta longuíssima diacronia do território é mesmo um dos grandes objetivos do Museu de Loulé e da própria autarquia, agora tão empenhada também na questão das alterações climáticas.

Enquanto os projetos do Geoparque e a reestruturação profunda do Museu não estão concluídos, para já há um novo atrativo para visitar Loulé e o seu ainda pequeno museu: «ver os fósseis destes animais com mais de 220 milhões de anos, que ninguém pode ver em mais lado nenhum!», conclui Hugo Campos.

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