Incêndios: quando a natureza dá mais uma oportunidade ao homem

Urge criar uma estrutura regional para a defesa daquele vasto território de Aljezur a Alcoutim. A serra é indivisa, não faz sentido ser gerida por estruturas municipais, independentes em cada concelho

Já muito se escreveu sobre o trágico incêndio que se abateu sobre a serra de Monchique no início deste mês de Agosto e muito pouco há a acrescentar aos inúmeros estudos e alertas, sempre ignorados, que vêm sendo divulgados há mais de 50 anos.

Volvidos 15 anos sobre o grande incêndio de 2003, tudo se repetiu, tal como acontecera nas décadas anteriores.

Num clima mediterrânico, como o nosso, os incêndios são quase tão normais como os Verões prolongados e secos.

Os algarvios de outrora aprenderam a viver com o fogo durante séculos, todavia, nas últimas décadas, pelos motivos que todos conhecemos, abandono do mundo rural, plantação intensiva de árvores exóticas, o secular equilíbrio foi posto em causa.

Os incêndios, que até aos anos de 1970 eram rapidamente extintos, atingem hoje proporções quase bíblicas e com eles a perda de bens materiais e não raras vezes de vidas humanas, além de todos os impactes no ambiente, desde o solo, à biodiversidade, até à qualidade do ar.

É conhecida por todos a divisão do Algarve em serra, barrocal e litoral, embora amiúde nos tenhamos esquecido que estas três sub regiões são interdependentes entre si.

Os incêndios são hoje vistos pela maioria da população como um problema distante lá da serra. Este alheamento da sociedade poderá justificar que tudo se repita ciclicamente.

Os jornais de 2003 e de 2004 estão hoje tão atuais como então. Repetem-se as promessas dos governantes do poder central ao local, as visitas às áreas afetadas, o semblante de pesar, 15 anos depois só mudam mesmo os nomes dos protagonistas.

Na verdade, há uma outra diferença, as áreas afetadas estão cada vez mais áridas e despovoadas. A serra de Silves é um bom exemplo.

Na maioria dos cerros, já não medravam árvores, mas somente um matagal (esteval) contínuo, ou alguma plantação de eucaliptos, particular ou mesmo pública, como sucede na Herdade de São Bom Homem, propriedade da edilidade silvense.

Acontece que a serra desempenha um papel fundamental no provimento de água do barrocal e litoral. Estas últimas sub regiões têm uma enorme dívida para com aquela, que todos parecemos ignorar.

É fundamental a existência na serra de um desenvolvido coberto vegetal, que retenha e fomente a infiltração de água nos solos esqueléticos e a vá libertando paulatinamente, para os ribeiros. Água que, mais abaixo, irá recarregar os aquíferos, e alimentar as barragens, destinadas ao abastecimento público e à agricultura.

Ora, mais uma vez toda essa vegetação, já de si raquítica, que cobria a serra, se perdeu. Agora, com as primeiras chuvas, será inevitável o arrastamento do solo e a total escorrência da água, nada ficará retido.

Se, em 2003, faltava a prevenção, agora muita foi realizada (por exemplo, os aceiros junto a Silves), porém o resultado final foi semelhante.

A lição é óbvia, a prevenção tem de passar obrigatoriamente pelo ordenamento e planeamento florestal do território, e é agora o momento.

O fogo apagou, mais uma vez, os erros do homem, transformando a paisagem num quadro negro de ardósia, qual cenário de guerra. Cabe-nos agora exigir que nessa mesma lousa seja desenhada, a branco, uma floresta ambiental e economicamente sustentável. Que se plantem eucaliptos, mas com regras. É inconcebível que o estado central e local detenham matas intensivas e desregradas desta espécie na serra algarvia.

É, pois, o momento da sociedade civil agir. Se, mais uma vez, deixarmos o encargo nas mãos dos políticos, o resultado poderá não ser dissemelhante de 2003.

É necessário exigir medidas e fiscalizar a sua aplicação. Estamos cientes que a tarefa não é fácil, mas se nada fizermos, daqui a uma década tudo se repetirá infalivelmente.

A serra e os seus habitantes/proprietários têm de promover uma intervenção profunda naquele território, auxiliados por técnicos silvicultores.

Urge criar uma estrutura regional para a defesa daquele vasto território de Aljezur a Alcoutim. A serra é indivisa, não faz sentido ser gerida por estruturas municipais, independentes em cada concelho.

Depois não podemos esquecer que o barrocal, tal como o litoral, têm o dever de recompensar a serra.

Afinal, sem água não há turismo, nem agricultura, nem vida. É a sustentabilidade/viabilidade do Algarve que está em causa.

Se voltarmos a falhar, a culpa não é “deles”, mas de todos nós, minha e sua também.

A democracia não se esgota no ato eleitoral, todos temos o dever de participar na construção de uma região mais rica, e coletivamente somos responsáveis pelos resultados alcançados.

Estaremos à altura das nossas responsabilidades?

 

Autor: Aurélio Nuno Cabrita é engenheiro de ambiente e investigador de história local e regional, bem como colaborador habitual do Sul Informação

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