Governo investe meio milhão para que linces regressem a Silves em Novembro

A evacuação foi um sucesso, mas já se pensa no futuro e no regresso dos linces o mais rápido possível

Não foi tarde, nem foi cedo, foi «na altura certa» que os 29 linces do Centro Nacional de Reprodução de Lince Ibérico (CNRLI), em Silves, foram evacuados. Os animais foram retirados do centro no dia 8 de Agosto, para evitar que pudessem ser vítimas do incêndio que entrou nas instalações e destruiu parte dos cercados, precisamente o local onde estes vivem.

Ontem, segunda-feira, o ministro do Ambiente visitou o centro, o único em Portugal dedicado à recuperação desta espécie em vias de extinção, para ver com os seus olhos os estragos causados pelo fogo e anunciar um investimento de cerca de 500 mil euros, a avançar o mais rápido possível, para reconstruir o que as chamas destruíram e proceder a algumas melhorias.

«No início da próxima semana, vamos abrir um concurso para que, em final de Setembro, início de Outubro, possamos começar as obras, começando pelos cercados», anunciou João Matos Fernandes.

 

A recuperação das zonas onde os linces vivem, espaços amplos delimitados por redes, onde é recriado o seu habitat natural, é prioritária, até porque há a necessidade de continuar o treino de alguns dos animais recolhidos, para os libertar na natureza no início de 2019.

Assim, serão investidos cerca de 150 mil euros nos cercados, para que os linces do centro regressem a Silves «até final de Novembro», tendo em conta que, «para que eles possam ser libertados em Fevereiro, é bom que estejam aqui em Novembro, para terem o treino necessário para se poderem comportar devidamente na natureza», afirmou o ministro do Ambiente.

Quem o garante, salientou o membro do Governo, «são os especialistas», nomeadamente o diretor do CNRLI .

Rodrigo Serra também falou com os jornalistas e revelou que seis dos linces evacuados «já estavam em treino para ser libertados e continuam a ser treinados nos centros em Espanha, para onde foram agora».

As libertações na natureza, explicou, «acontecem, normalmente, em Janeiro e Fevereiro». Isto porque, em Março, «começam os partos do ano seguinte, o que significa que os cercados não podem estar ocupados por linces que são para libertar».

Daí a importância de ter esta parte do centro a funcionar a cem por cento tão breve quanto possível.

Além dos cercados, a parte do centro mais afetada pelas chamas, serão investidos «perto de cem mil euros em câmaras de CCTV, para observação dos linces» e «cerca de 150 mil euros na recuperação das infraestruturas gerais, que, em muitos casos, arderam ou ficaram muito danificadas».

Também está prevista a aplicação de aproximadamente 100 mil euros para «melhorias que queremos introduzir no centro», nomeadamente «ao nível do equipamento». Há, por exemplo, necessidade de comprar algumas jaulas de transporte novas, já que, das 29 existentes, «quatro ficaram danificadas no transporte», ilustrou o ministro do Ambiente.

Ontem, durante a visita de João Matos Fernandes ao CNRLI, a paz que carateriza este santuário animal já tinha regressado. Para trás, ficaram momentos de grande tensão, apesar de, no final, tudo ter corrido da melhor forma.

«Nós conseguimos atingir a cem por cento os nossos objetivos e não posso deixar de aproveitar para agradecer aos técnicos aqui do centro e aos seus responsáveis, bem como aos vigilantes da natureza, o trabalho corajoso que fizeram», elogiou o ministro.

Os responsáveis por este centro aplicaram o plano de emergência que tinham delineado e obtiveram sucesso total. Apesar dos danos registados nos cercados, não houve qualquer baixa a lamentar entre os linces e todos os registos acumulados ao longo de dez anos de atividade foram salvaguardados.

«Há sempre risco numa operação desta natureza. E, de facto, capturar 29 animais num espaço de 24 horas é difícil. Porque as capturas dependem muito da personalidade do animal: alguns conseguimos praticamente apanhar à mão, porque são animais criados a biberon. Outros, os fundadores, que vieram do campo, são mais difíceis», explicou Rodrigo Serra.

Assim, apesar de existir um plano de evacuação, «era impossível saber se demoraríamos 5 ou 10 horas. A prioridade de captura era dos mais fáceis para os mais complicados. Despachámos nas primeiras horas os animais que conseguimos capturar com facilidade e sem anestesia e, a partir daí, ficaram só os animais difíceis».

«Tivemos sorte. Os últimos animais que foi necessário recolher reagiram bem à anestesia. Foram capturados por zarabatana e por dardo e as coisas correram bem», considerou o diretor do centro.

Ainda assim, Rodrigo Serra admite que, caso a captura em tempo útil se mostrasse inviável, os animais «seriam libertados, para fugirem do fogo», algo que, pelos registo do comportamento de animais que vivem na natureza, lhes daria elevadas hipóteses de sobrevivência.

João Matos Fernandes, por seu lado, revelou que o plano de emergência foi ativado «com três ou quatro dias de antecedência» e que a recolha dos linces se iniciou «aproximadamente um dia antes do fogo cá chegar», ou seja, a 7 de Agosto.

Esta retirada – num primeiro momento, para edifícios do próprio centro – foi feita em duas fases e houve até uma interrupção, de moda a esperar para ver se o fogo de facto ameaçaria as instalações.

Assim, dos 29 linces que habitam no centro, seis foram mantidos nos seus cercados por mais algum tempo. Estes animais eram linces fundadores, muito pouco habituados ao contacto com seres humanos e num estado mais selvagem que os demais.

«24 horas antes tínhamos a perspetiva, tendo em conta o que era a previsão meteorológica, nomeadamente da direção do vento, que o fogo não chegasse aqui. Na manhã seguinte, percebeu-se que o incêndio vinha para cá e foram recolhidos os linces que restavam, hora e meia antes das chamas aqui chegarem, em absolutas condições de segurança, para eles próprios e para o seu futuro», contou o ministro do ambiente.

«Como vimos hoje, arderam os cercados, pelo que os linces tinham mesmo de ser retirados daqui. Os restantes edifícios – a enfermaria, o laboratório e o edifício administrativo – não arderam e não se perdeu nada. Há apenas alguns pequenos problemas ao nível das infraestruturas, como a água ou o ar condicionado», acrescentou João Matos Fernandes.

«Para nós, que aqui trabalhamos, é muito duro ver isto vazio. Mas temos a consciência que fizemos o nosso trabalho. Salvámos os animais todos e ninguém se magoou. Conseguimos salvar os discos, as amostras, todo o trabalho que vimos fazendo há dez anos», resumiu Rodrigo Serra.

«Ainda não parámos. A minha equipa tem sido inexcedível. Estavam pessoas de férias que vieram ajudar. Só quem estava de baixa ou muito longe é que não veio. De resto, a equipa juntou-se toda e foi algo extraordinário, ninguém tremeu. E muitos deles têm casas aqui perto, em zonas que foram ameaçadas pelo fogo», concluiu.

 

Fotos: Hugo Rodrigues|Sul Informação

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