Ainda o incêndio

Os donos disto tudo sabem tudo e continuam a agir impunemente

A quem se preocupou toda a vida com a Conservação da Natureza e defendeu sempre a existência de matas equilibradas no nosso País, é inevitável ter que dizer alguma coisa sobre a calamidade de mais este incêndio florestal de Monchique, que agora querem batizar de “incêndio rural” – talvez para fazer esquecer que a sua origem foi mesmo na área florestal.

A sua causa foi aquilo a que chamam floresta, mas é apenas mata e matagal mal geridos e sem controlo, desde…o último incêndio há 15 anos!

Já tanta gente falou e escreveu sobre o assunto, já se assumiram como ”especialistas” tantos auto-emplumados desse designativo, que vir eu agora modestamente falar do caso é como chover no molhado.

Mas sou técnico florestal, fui Administrador Florestal em zona de montanha, onde também ocorriam inícios de fogos, levei a vida a debater estes e outros assuntos conexos, e por isso quero acreditar que esta será uma das últimas vezes, se não a última, em que volto à carga com a minha opinião – se tanta gente deu opinião, talvez eu também possa ainda dar a minha.

Volto sempre ao mesmo: não existe uma Autoridade Florestal Nacional que coordene toda a gestão da área florestal; ao acabarem com os Serviços Florestais e ao extinguirem o Corpo Nacional de Guardas Florestais, cometeram um crime, assim com as letras todas, um crime! Era necessária a implantação no território, como existiu cá desde o século XIX e existe em todos os países do mundo que têm área florestal, dum organismo nacional. Somos uma especificidade mundial também nesta aberração!

O Estado está a alijar as suas responsabilidades ao passar para as Autarquias também agora a elaboração de planos de gestão florestal regional, como é toda a área das “serras de Monchique”, que, como se sabe, se espalham por mais que um município.

Era só o que faltava (!!), como se as Autarquias não tivessem já o suficiente para que preocuparem com a gestão municipal.

Agora a gestão regional e o ordenamento das serras ser da responsabilidade de uma Autarquia é o máximo de descaramento e de alijar responsabilidades. Pasma-se ao ver essa política.

Dos guardas florestais nem se fala, eles não eram meros polícias para irem para a GNR, eram técnicos enquadrados numa hierarquia de conhecimentos, a que se seguiam os Mestres Florestais (uns grandes senhores nas serras!!) e os Técnicos Florestais, até Administrador e Chefe de Circunscrição com carácter regional.

Esta quadrícula vigiava o território, prevenia a limpeza das matas e dos matos, instava os privados a fazê-lo, controlava a saída do abate do arvoredo, que, deixado no terreno, como agora acontece, é o tal barril de pólvora de que se serve o fogo.

Hoje não há nenhuma organização territorial, o ICNF é uma burla burocrática, nem gere as matas como devia, por falta de implantação, e roubou a gestão das Áreas Protegidas ao Ambiente, diminuindo o seu impacto no território – como convém a alguém…

Para que servem os técnicos florestais ? Viram algum entre as “autoridades” que andam a decidir como combater o incêndio? Além do esforço inglório das centenas de homens e mulheres durante uma semana, e de meios aéreos a despejarem água (que nem chega ao solo, naquelas condições de relevo e temperatura!!), viu-se alguma estratégia florestal para reter e dominar o incêndio? Usaram-se algumas técnicas que os florestais sabem (ou sabiam) usar para controlar o incêndio? Como é que não foi possível, com tanto tempo à espera que o incêndio evoluísse, impedir que o fogo passasse a linha de festos da Fóia e da Picota ?

A bem da verdade, não vale a pena continuar e escrever, os donos disto tudo sabem tudo e continuam a agir impunemente – só se fala de sucesso em sucesso, para mascarar que não há coragem de assumir erros e dar a mão à palmatória!!

Autor: Fernando Santos Pessoa
Engenheiro silvicultor, arquiteto paisagista

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