«Mulheres Modernas» de Almada Negreiros desvelam-se em exposição inédita no Museu de Tavira

Mulheres de cabelo à garçonne, de fatos de banho que mostram (ou tapam?) tudo, a fumar, sentadas em cafés, a […]

Mulheres de cabelo à garçonne, de fatos de banho que mostram (ou tapam?) tudo, a fumar, sentadas em cafés, a praticar lawn tennis e football, vestidas à homem no Carnaval ou com trajes de noite a mostrar os ombros, mas também em profissões duras, de homem, como a sargaceira. Estas são algumas das «Mulheres Modernas na obra de José de Almada Negreiros», a exposição inédita que abre este sábado, 7 de Julho, às 18h00, no Museu Municipal de Tavira | Palácio da Galeria.

Ontem de manhã, enquanto a equipa do Museu dava os últimos retoques na montagem da exposição que poderá ser vista até 14 de Outubro, um grupo de jornalistas acompanhou Mariana Pinto dos Santos, curadora da mostra, numa visita de encantamento.

Em dez salas do Palácio da Galeria, «em diálogo com os espaços», como sublinhou Nuno Vassalo e Silva, diretor do Museu Gulbenkian, podem ver-se 55 desenhos e pinturas, a larga maioria pertencente ao acervo da Coleção Moderna do Museu Calouste Gulbenkian, assim como excertos da obra literária de Almada Negreiros e textos seus publicados nos jornais e revistas da época, nomeadamente o «Diário de Lisboa».

Esta exposição foi concebida de propósito para Tavira, como explicou a sua curadora Mariana Pinto dos Santos, e culmina a série de mostras sobre a obra de Almada Negreiros, que começou no ano passado em Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian, com «José de Almada Negreiros: uma maneira de ser moderno», continuou no Porto, no Museu Nacional Soares dos Reis, com «José de Almada Negreiros: desenho em movimento».

«Este espaço permite tratar o tema da Mulher Moderna com uma relação mais íntima com as obras», explicou a curadora aos jornalistas. Caso extremo é o de uma pequena sala onde apenas estão expostas três obras, o que, salientou, «permite um outro tipo de leitura». E uma relação mais íntima com a obra de Almada.

Ali, nas paredes dos antigo palacete tavirense, às vezes até em contraste com as decorações florais do seu teto em caixotão, de madeira pintada, estão, por exemplo, as «Banhistas», quadro que foi feito para A Brasileira, do Chiado, em Lisboa, e onde aquelas duas mulheres, sozinhas, na praia, em trajo de banho ousado para a época, deverão ter causado a sua dose de escândalo num mundo masculino…onde as mulheres nem sequer podiam ir sozinhas ao café.

Mariana Pinto dos Santos, a curadora da exposição – Foto: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

As mulheres de Almada que agora se mostram no Museu de Tavira, eram modernas à época, eram mulheres emancipadas: a moda dos anos vinte, as mulheres fumadoras, sedutoras, rebeldes, artistas, cantoras, bailarinas, atrizes e desportistas ou acrobatas, enquanto representação da vida moderna.

Mas há ainda a mulher sujeita a um olhar masculino e voyeur que dominou a história da arte, tornou o corpo feminino em objeto e fez dele parte substancial da sua tradição. Duas das salas são dedicadas a um olhar mais erótico de Almada sobre a Mulher, numa delas fazendo convergir o olhar para o Nu que foi pintado para um clube noturno, o Bristol Club, em Lisboa.

É que, como explicou a curadora, «os artistas modernistas não podiam entrar nas Belas Artes, no Museu de Arte Contemporânea, por isso o clube noturno e o café são as suas galerias, as suas montras».

Nas paredes do Palácio da Galeria, em Tavira, há também exemplos da figuração feminina enquanto força de trabalho, com o retrato da expressão endurecida e sofrida das mulheres do mar, em imagens que anunciam preocupações realistas, presentes na obra plástica de Almada dos anos trinta.

Depois da grande exposição monográfica, a «exposição mãe», na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, e da mostra temática no Porto, em Tavira o objetivo foi «aprofundar a representação feminina na obra de Almada», um tema que é «central na arte ocidental». No Porto e agora no Museu de Tavira, sublinhou Mariana Pinto dos Santos, foi possível «aprofundar temas específicos», neste caso, «o papel da mulher na modernidade, como ela foi instrumento e objeto, mas também agente dessa modernidade».

«Para quem já conhece a obra do artista, esta exposição de Tavira é um convite a uma reflexão sobre o tema. Para quem não conhece, tem aqui a possibilidade de tomar conhecimento, até porque a representação feminina foi uma constante da obra de Almada», acrescentou.

Jorge Queiroz e Nuno Vassalo e Silva, com Mariana Pinto dos Santos, durante a visita guiada para jornalistas – Foto: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

E não se pense que o que está agora no Palácio de Tavira é o mesmo que esteve exposto em Lisboa ou no Porto: «há obras que não estiveram na exposição de Lisboa, outras não estiveram no Porto». Assim como há uma «componente documental que não esteve em nenhuma das outras», nomeadamente os artigos e os desenhos feitos por Almada para os jornais, «que eram veículo enorme de divulgação desta modernidade».

Mariana Pinto dos Santos adiantou ainda que os textos de Almada que surgem em algumas das paredes foram por ela «escolhidos com cuidado», para que «dialogassem com as obras».

«Mulheres Modernas na obra de José de Almada Negreiros» é, por tudo isso, uma exposição «com personalidade própria, sempre em diálogo com o espaço, com a comunidade e com a sua programação», garantiu, por seu lado, o diretor do Museu Calouste Gulbenkian.

A Fundação Gulbenkian «tem um especial gosto nesta iniciativa», já que uma das suas práticas é «abrir as suas portas ao exterior, partilhar as coleções, riquíssimas, trazê-las junto das comunidades», acrescentou Nuno Vassalo e Silva.

Por seu lado, Jorge Queiroz, diretor do Museu de Tavira | Palácio da Galeria, recordou que, por este espaço algarvio, já passaram «outras exposições muito importantes», como as de Alberto Carneiro, Júlio Pomar, Joana de Vasconcelos, ou de instituições como a Fundação Gulbenkian, a Culturgest, o antigo Prémio BES, a Fundação Cupertino de Miranda.

«Os artistas gostam do espaço», garantiu Jorge Queiroz. José de Almada Negreiros, falecido em 1970, já não poderá dizer o que pensa do Palácio da Galeria, mas a curadora desta trilogia de exposições a ele dedicadas gostou e aprovou.

«Mulheres Modernas na obra de José de Almada Negreiros» poderá ser visitada, no Museu Municipal de Tavira | Palácio da Galeria, até dia 14 de Outubro.

Jorge Queiroz, Mariana Pinto dos Santos e Nuno Vassalo e Silva – Foto: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

 

Horários:
Verão: terça-feira a sábado: 10h00-12h30 e 15h00-18h30
Inverno: terça-feira a sábado: 10h00-12h00 e 14h00-17h30
Encerrado ao público ao domingo, à segunda-feira e feriados

Morada:
Calçada da Galeria  8800-306 Tavira
Telefone 281 320 500
museu@cm-tavira.pt
GPS: W 7º 39’ 8’’  N   37º 7’ 30.8’’

 

Fotos: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

Comentários

pub
pub