Armonilo Massa Vaz, o homem-aranha, subiu à torre da igreja de Portimão em 1927

Primeiro artigo do nosso novo colunista Carlos Osório, a recordar um episódio rocambolesco da história do Algarve

Armonilo Massa Vaz, também conhecido por homem-aranha, esteve em Portimão no dia 19 de Junho de 1927 para escalar a torre da igreja matriz, às 19h001. O arrojo acrobático foi tão aplaudido que decidiu repeti-lo no dia 24 do mês seguinte.

As entradas para o espaço vedado custavam 1 escudo e 25% da receita reverteu para o Corpo de Escoteiros, para a Filarmónica Portimonense e para a recém-fundada Associação dos Bombeiros, que, nessa altura, realizava os exercícios finais do primeiro tirocínio dos seus voluntários em ambiente de simulacro e festividade, ainda sem capacetes, machados e cinturões.

O jornal O Portimonense apelidou-o de “Vencedor da Morte”, hiperbolizando a intrepidez do artista que trazia no peito uma caveira sobre ossos cruzados, evidenciando a perigosidade da sua arte, que iniciara aos 11 anos.

No mesmo local e também nesse mês de Julho, Acesnof, sobre o qual pouco se sabe, ao som da Banda Filarmónica de Portimão, desafiará igualmente a morte ao suspender-se num cabo pela sua forte dentadura para deslizar os 120 metros aéreos que separam a torre da igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praça da República, hoje Alameda.

Também meses antes, em Coimbra, o homem-aranha português desafiara a gravidade ao pendurar-se pelos maxilares num cabo preso à torre da Igreja da Sé Nova. Nesta façanha, sofreu um acidente com gravidade, que o deixou internado nos Hospitais da Universidade.

No Algarve, Massa Vaz subirá ao Hotel Guadiana, em Vila Real de Santo António, e auxiliará a sua companheira, Miss Massa Vaz, a 6 de Novembro, em Faro, a escalar a torre da Igreja do Carmo.

O casal viajava para Lisboa, vindo de Gibraltar e Algeciras, e fez um espetáculo de cuja receita ficarão 10% nos cofres do Hospital da Misericórdia e da Liga dos Combatentes da Grande Guerra.

Nas suas tournés pelo país, já subira à Torre dos Clérigos, no Porto, à Igreja de S. Vicente e à Basílica da Estrela, em Lisboa, e haveria de escalar, em 1928, a torre sineira da igreja de Ponte de Sôr.

Nos anos seguintes, a sua fama é proporcional à sua coragem. Só em Portugal, já conta com 184 escaladas. A visibilidade cresce em altitude e é pela grande Espanha que se lança às fachadas dos mais emblemáticos edifícios.

Sabemos que já estivera em Badajoz a mostrar o seu arrojo e que uma queda aparatosa o conduziu inconsciente ao hospital, chegando a ser dado como morto pelos jornais da época.

A 2 de Novembro de 1930, está em Reus para subir a fachada da Casa Fabregas, na Praça Catalunha; a 22 de Dezembro, em Barcelona, o telhado da Casa Segura (edifício Cabot) será o seu pódio, o lugar mais alto da moderna cidade catalã, do qual saúda o público que enche a Praça junto ao Portal de L’Angel. Chamam-lhe homem-aranha e é notícia na imprensa local.

Já em 1924, um outro português chamado Nestor Lopes escalara o mesmo edifício, embora ajudado por cordas, segurança que defraudou a multidão que presenciava a subida com assobios de desagrado. Ainda assim, mereceu a alcunha de homem-mosca e encorajou imitadores, como Ignacio Ferran, de 18 anos, que acabou detido pela polícia.

Em Valência, Massas sobe à torre do “Ayuntamento” em Janeiro de 1931. Em Abril desse ano, em Antequera, na Andaluzia, mostra uma bandeira vermelha incitando ao voto na candidatura republicana para as eleições municipais, depois de atingir o topo do edifício da edilidade. Este ato político inesperado causou naturalmente agitação entre os monárquicos e republicanos que assistiam.

Naquele início de década, o nosso alpinista de edifícios foi notícia na imprensa espanhola por escaladas em Tortosa, Palma de Maiorca, Bilbao, Alicante, Vigo, Corunha, Santiago de Compostela, Salamanca e Zaragoza, às respetivas catedrais, Girona (edifício dos correios). Em Gijón, subiu à cúpula da igreja de S. Lorenzo e intrepidamente pôs-se a ler um jornal que levara com ele.

É bastante provável que estes prodígios acrobáticos tenham sido impulsionados por Safety Last!, um popular filme mudo americano de 1923, com realização de Fred C. Newmeyer e protagonizado por Harold Lloyd, embora este filme só tenha estreado em Portugal a 2 de Janeiro de 1928, no cinema Tivoli da capital.

Portugueses como Massa Vaz, Nestor Lopes, José Oliveira, António Sousa, o americano Babe White ou o alemão Hermann Becker ficaram conhecidos como escala-torres, homens-aranha ou homens-mosca, epítetos que lhe foram dados pela imprensa e pelo povo.

Foram vários os aventureiros que percorreram cidades, no início dos anos 30 do século passado, com o objetivo de escalar os principais edifícios, usando apenas as mãos e os pés, criando suspense nos milhares que os seguiam inquietos e incrédulos, para desafiar a morte.

 

Autor: Carlos Osório
Professor do ensino secundário e Investigador da História Local

Nota: A fotografia inicial é uma fotomontagem feita pelo autor

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