Terras sem Sombra em Beja: Escutar a polifonia da Córsega, percorrer a rota de Mariana e observar aves na planície sem fim

O cante do Alentejo e uma manifestação musical sua “irmã”, a polifonia da Córsega, entoada a cappella, vão geminar-se em […]

O cante do Alentejo e uma manifestação musical sua “irmã”, a polifonia da Córsega, entoada a cappella, vão geminar-se em Beja, a 5 e 6 de Maio, com mais um fim de semana do Festival Terras sem Sombra, que volta a dar protagonismo ao Baixo Alentejo enquanto destino privilegiado de património, música e biodiversidade.

O etnomusicólogo Michel Giacometti, nascido em 1929 em Ajaccio, capital da Córsega, que até está sepultado, por escolha sua, na aldeia de Peroguarda, no Baixo Alentejo, foi quem primeiro aprofundou as ligações entre o Cante e a Pulifonia (polifonia, na língua corsa) das zonas rurais daquela ilha, que constitui, decerto, o “parente mais próximo” das modas do Alentejo.

Ambas as tradições remetem, na técnica e na temática, para um património comum da bacia mediterrânica, em que convergem melodias vindas da noite dos tempos, sobretudo cantos festivos ou destinados a acompanhar o trabalho, com as influências do Gregoriano, da música berbere e, inclusivamente, da liturgia muçulmana.

Invocando essa herança partilhada, o mais destacado ensemble corso da atualidade, Barbara Furtuna – Voix Corses apresenta, na igreja do convento de S. Francisco (Pousada), às 21h30, o concerto “O Canto na Ilha da Liberdade”.

Jean-Philippe Guissani, Maxime Merlandi, Jean-Pierre Marchetti e André Dominici escolheram um programa, com composições religiosas e profanas, bem representativo da polifonia da Córsega, desde o século XVIII aos dias de hoje, não esquecendo as afinidades com o Cante. Trata-se de uma ocasião muito propícia para conhecer uma tradição musical de que se fala muito, mas que se escuta pouco entre nós.

O espetáculo é consagrado, pelo Terras sem Sombra, à memória de Giacometti, falecido em Faro, em 1990, e cujo corpo repousa em Peroguarda – aldeia alentejana que ele amou e cujas tradições musicais estudou ao longo de décadas.

Esta iniciativa resulta da colaboração bilateral do festival alentejano com o Centro Superior de Investigação e Promoção da Música, da Universidade Autónoma de Madrid, iniciada em 2017. Por uma noite, Beja será a capital da “Ilha da Liberdade”.

No itinerário de Soror Mariana Alcoforado

O nome de Soror Mariana Alcoforado, religiosa no convento da Conceição, de Beja, é indissociável das cartas de amor dirigidas a Noël Bouton, conde de Saint-Léger, mais tarde marquês de Chamilly, e publicadas em França (1669) sob o título de Lettres Portugaises.

Se a crítica moderna argumenta que tais cartas terão sido profundamente modificadas pelo tradutor, Guilleragues, a figura de Mariana, misto de lenda e de realidade, permanece como símbolo de uma paixão exacerbada e infeliz. Em contrapartida, torna-se cada vez mais nítida a dimensão histórica da personagem, a qual desempenharia funções destacadas na comunidade conventual, entre elas as de escrivã e vigária, o que atesta a sua boa preparação literária.

Por isso, a tarde de sábado, 5 de Maio, é consagrada a percorrer um “Itinerário de Mariana” em Beja, antecipando a celebração dos 350º aniversário da publicação das Cartas Portuguesas, que ocorrerá em 2019.

Visitam-se, assim, monumentos e sítios que conservam a memória da célebre “Freira de Beja”: a casa onde nasceu, hoje sede do Club Bejense, a igreja de Santa Maria da Feira, onde foi batizada, e o convento onde entrou com apenas 11 anos, passou toda a existência e está sepultada.

Esta iniciativa tem o ponto de encontro no Museu Regional de Beja, às 15 horas, e é orientada pelos historiadores Florival Baioa Monteiro e José António Falcão.

 

Papa-figos

Um santuário das aves na planície: a barragem dos Grous

Depois de recuperado das emoções do concerto de sábado à noite, com as vozes corsas, o Festival Terras sem Sombra ruma, no domingo de manhã, à Herdade dos Grous, situada em Albernoa, para uma manhã à descoberta da biodiversidade.

A Herdade dos Grous caracteriza-se pela simbiose entre as atividades turísticas e as práticas agro-ambientais, apresentando diferentes tipos de habitats que permitem acolher uma grande variedade de espécies de aves, quer residentes, quer migratórias. A sua barragem constitui um santuário na planície para muitas dessas aves, que só podem ser observadas em biomas deste género, tipicamente mediterrânicos.

Entre as mais de 200 espécies que se identificam no local, sobressaem o peneireiro-cinzento, a águia-pesqueira, o picanço-real-meridional, a poupa, o abelharuco, a andorinha-dáurica, o picanço-barreiteiro e o papa-figos, entre outros casos paradigmáticos. «Um verdadeiro tesouro da biodiversidade alentejana, com repercussões mundiais, que atrai todos os anos muitos peritos em birdwatching», salienta a organização do Festival.

Tirando partido deste contexto privilegiado para a conservação da natureza, o festival dedica a manhã de domingo, às 10 horas, a um passeio interativo para a observação de aves, com uma explicação das práticas biológicas que a herdade está a desenvolver, em particular na vertente da exploração agrícola, e a realização de atividades práticas a ela associadas.

São guias o biólogo Luís Salvador e o médico Dinis Cortes, grandes conhecedores da fauna da região.

As iniciativas do Terras sem Sombra são de acesso livre e resultam, neste fim de semana, da colaboração da associação Pedra Angular com a Câmara Municipal de Beja.

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