Com som de «aviões» e «grande força», o tornado deixou rasto de destruição em Olhão

«Comecei a ouvir um barulho que parecia de aviões. Olhei para o lado daquele cerro e vi tudo e mais […]

«Comecei a ouvir um barulho que parecia de aviões. Olhei para o lado daquele cerro e vi tudo e mais alguma coisa a ir pelos ares, com um ruído estranho e muito alto. Vi logo que vinha aí vento com grande força. Só tive tempo de me fechar numa casinha que ali tenho. O telhado foi arrancado, havia coisas a bater nas paredes. E foi tudo uma questão de segundos», descreveu Arnaldo Bolas, ao Sul Informação.

Arnaldo e a sua mulher Emília viveram momentos de grande aflição este domingo. A propriedade onde habitam, criam animais e têm diversas culturas agrícolas, no Poço Longo, na freguesia de Quelfes, em Olhão, foi atingida em força pelo tornado que ontem atravessou diversos concelhos da região. Para trás, ficaram os estragos.

«Arrancou árvores, incluindo uma alfarrobeira centenária, levou as telhas, deitou abaixo duas chaminés e destruiu-me as cabanas onde tenho os animais. Tenho galinhas, patos, ovelhas, póneis e porcos. Um dos porcos fugiu, mas acabou por regressar. Também tinha estufas com frutos tropicais e foi tudo destruído», contou Arnaldo Bolas.

Na manhã de segunda-feira, quando o nosso jornal esteve na propriedade do casal, os bombeiros e a EDP já estavam na zona, a resolver os muitos estragos que o fenómeno extremo de vento causou. Mas, desde cerca das 16h20 de ontem até hoje de manhã, o casal teve de se valer a si próprio, apesar de ter ficado sem luz e com água a entrar dentro de casa, no local onde antes estavam as chaminés.

«O vento arrancou os postes que forneciam a energia elétrica. Lá em cima, no cerro, caiu um poste de alta tensão. Os bombeiros só chegaram esta manhã, mas pouco podem fazer. Também já anda aí a EDP, mas acho que há vários postes que caíram, aí na zona», disse.

«Vá lá que temos placa no telhado, senão teria sido muito pior», considerou Emília Bolas. Também ela viveu momentos de tensão quando o tornado passou. «Graças a Deus estava dentro de casa. O barulho era ensurdecedor e a casa abanava toda, parecia que ia cair tudo», contou.

Este é apenas um dos muitos locais onde se viveram momentos de pânico. Não muito longe do Poço Longo, no sítio da Boavista, igualmente na Freguesia de Quelfes, o vento causou avultados estragos em explorações agrícolas e causou o pânico na Casa de Pasto do Carmo.

Na empresa “Flores Pendulares”, onde são produzidas hortênsias para venda no mercado nacional e exportação, o telhado do complexo de estufas, com 1200 metros quadrados, «foi arrancado» e «desapareceram muitas plantas». «De repente, foram arrasadas 300 mil plantas. Agora que o vento baixou, estamos a ver o que conseguimos recuperar, mas não sei…»,  disse ao Sul Informação Sergi Petrencu, responsável pela exploração.

Ao final da manhã de hoje, estavam no terreno várias dezenas de trabalhadores, a tentar salvar o maior número possível de plantas e a recolher as placas de grandes dimensões que voaram do telhado, algumas das quais foram transportadas «a mais de 400 metros de distância», tendo atingido casas e um restaurante.

«Estimo que tenhamos aqui um prejuízo na ordem dos 500 mil euros. Muitas das plantas têm as folhas danificadas pelo granizo que caiu, que foi muito forte aqui», revelou o responsável pela exploração, que chegou ao local «minutos depois de tudo ter acontecido».

Os trabalhadores desta exploração, associada à multinacional com sede na Dinamarca Schroll Flowers, não estiveram a trabalhar, apenas, dentro da exploração, mas também na área envolvente.

Alguns deles atarefavam-se a limpar o terreno do restaurante Casa de Pasto do Carmo, situada a algumas centenas de metros da “Flores Pendulares”. Nádia Sousa, da família dona do estabelecimento comercial, conta como se fechou na casa-de-banho da sua casa, situada na mesma propriedade.

«As pessoas que estavam no restaurante, perto do grelhador, atiraram-se todas para o chão, porque não houve tempo para nada. Foi tudo uma surpresa. Nem sei descrever bem o que aconteceu. Era um barulho enorme, com chapas a cair. Tremia tudo», descreveu.

Na casa onde estava na altura, voaram telhas. No restaurante, que foi atingido pelas placas vindas da exploração agrícola vizinha, o tornado arrancou um painel solar-térmico e o respetivo reservatório, que estava «bem aparafusado no telhado», atirando-o para uma escada de acesso à açoteia.

Antes de chegar ao concelho de Olhão, o tornado tinha passado no concelho de Faro, onde também causou muitos estragos e deixou pessoas desalojadas. E, talvez por ironia do destino, uma das pessoas atingidas foi a mãe de Emília Bola, que tem uma pequena mercearia na Bela Curral. «A minha mãe ainda tentou fechar a porta, mas o vento entrou, empurrou-a e arrancou algumas telhas. Teve de ir para o hospital», disse.

Bela Curral foi outra das localidades onde o tornado causou muitos estragos. Estufas totalmente arrasadas, casas destelhadas e muitas árvores deitadas abaixo marcavam a paisagem.

Para já, a principal preocupação é salvar o que o temporal não destruiu e fazer contas àquilo que se perdeu. Mas, na mente de todos os atingidos, também já andará a preocupação com a recuperação, que se adivinha onerosa, em muitos casos.

«Esta noite ainda fomos à cama. Mas o sono foi pouco…», confessou Arnaldo Bolas.

 

Fotos: Hugo Rodrigues|Sul Informação

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