Moradores do centro histórico de Santiago do Cacém organizam-se para defender a tradição do Presépio Português

«A arte do Presépio Tradicional Português está a definhar e corre o risco de se extinguir, pura e simplesmente, a […]

«A arte do Presépio Tradicional Português está a definhar e corre o risco de se extinguir, pura e simplesmente, a breve trecho». O alerta é dado pelo Centro UNESCO de Arquitetura e Arte (UCART), com sede no Alentejo, região famosa pelos usos e costumes alusivos à época natalícia.

Para «assegurar o futuro desta arte, transmitir os seus preceitos aos mais novos e adaptá-la aos tempos de hoje», em Santiago do Cacém uma iniciativa está a transformar a construção de um Presépio Tradicional Português numa “escola viva” do Presepismo, chamando a si a intervenção dos moradores no centro histórico de Santiago do Cacém.

O local escolhido é um edifício emblemático da cidade: o Antigo Quartel dos Bombeiros, projetado pelo arquiteto Rafael de Castro, em 1931, onde existira a capela de Santo António.

Sob a orientação do arquiteto Ricardo Pereira, da conservadora-restauradora Sara Fonseca e da pintora Raquel Ventura, mais de meia centena de pessoas, entre adultos e crianças, trabalharam afincadamente, ao longo de vários dias, na construção do Presépio.

Na retaguarda, o escultor Vasco Tavares da Silva, o mestre serralheiro Gonçalo Cavalinhos e a professora aposentada Ivone Pereira Bento foram velando para que tudo avançasse da melhor maneira. A palavra passou de boca em boca.

De início, uma equipa recolheu pedaços de cortiça, troncos, bolotas e ervas aromáticas nas matas litorais, tendo o cuidado de preservar espécies protegidas; outra concebeu a estrutura de base, ergueu a sua “alma”, usando cadeiras e mesas, e forrou-a com papéis coloridos, fabricados por uma empresa da zona; outra foi desembrulhando e alinhando centenas de figuras – todas com mais de 50 anos, todas feitas em materiais tradicionais –, emprestadas por famílias e instituições da terra; outra ainda ocupou-se de alguns restauros imprescindíveis.

Findas estas tarefas, a cadeia humana convergiu para a montagem, ato comunitário a que todos deram uma nota pessoal. Isto despertou o interesse de quem circulava nos Cantos de Santo António – nome da encruzilhada de ruas onde fica o velho quartel, um sítio central – e trouxe mais voluntários, que se juntaram com entusiasmo ao formigueiro de vizinhos.

À semelhança de outros tempos, o Presépio foi ganhando corpo pouco a pouco, permitindo explicar não só como o montavam os nossos antepassados, mas também o que simboliza cada um dos seus elementos. Uma “escola informal”, fervilhante, da arte presepística, em que se transmitem, de geração para geração, os segredos de como se faz uma gruta, se monta uma cascata ou se dispõe a cavalgada dos Reis Magos.

Um morador nas imediações, Alfredo Sobral, carpinteiro reformado e bombeiro honorário da Corporação local, em que ingressou com 17 anos, não ocultava a sua satisfação por ver de novo o edifício de portas abertas. «Gosto de ver assim este espaço, cheio de gente nova; no meu tempo, foi uma escola de vida», dizia.

Natália Caeiro, a presidente da Associação de Bombeiros Mistos, comentou: «é uma honra que o Centro UNESCO tenha escolhido o nosso quartel velho para as suas actividades, queremos todos dar um contributo para a revalorização do Presépio Português».

«De acordo com quem analisa o fenómeno da descaracterização dos presépios, este problema não reside, como se chegou a temer, há alguns anos, na concorrência do Pai Natal ou das árvores cheias de bolas coloridas e flocos de neve artificiais que fazem parte do imaginário mais recente da quadra. O que tem vindo a suceder realmente, nas últimas décadas, é uma perda acentuada dos traços distintivos dos nossos presépios, que abandonam a sua matriz e se tornam cada vez mais produtos comerciais descartáveis. Está em risco um património, material e imaterial, que precisa de mais atenção», explica o UCART.

«O Presépio Português faz parte de uma rica tradição europeia, mas tem personalidade própria, em que marcam presença as cenografias baseadas em paisagens naturais, a multiplicação de cenas da vida rural e urbana, a alternância de escalas e o destaque conferido à Sagrada Família, que é o seu epicentro», salienta José António Falcão, responsável do UCART.

E acrescenta: «Não se trata de manter a arte presepística como algo parado no tempo, há todo um espaço de inovação a valorizar, mas o que ocorre agora é uma amálgama de coisas sem sentido e sem gosto, que perturba inclusivamente a captação da mensagem de fundo do Presépio».

O presépio tradicional de Santiago do Cacém é inaugurado a 7 de Dezembro, às 21h30, e prolonga-se até 7 de Janeiro. Ao longo deste mês, terão lugar conferências, visitas guiadas, concertos e outras iniciativas que visam dar a conhecer as boas práticas da arte dos Presépios. O Quartel Velho dos Bombeiros fica na Rua Dr. Francisco Beja da Costa, nº 21, naquela cidade do litoral alentejano.

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