«A memória é algo que me fascina», diz a neurocientista Raquel Abreu

Originária de Vila Nova de Famalicão, Raquel Abreu é neurocientista na Universidade de Santa Barbara, na Califórnia, Estados Unidos da […]

Originária de Vila Nova de Famalicão, Raquel Abreu é neurocientista na Universidade de Santa Barbara, na Califórnia, Estados Unidos da América, e estuda a memória de curto prazo. Esta entrevista foi realizada no âmbito do GPS – Global Portuguese Scientists, um site onde estão registados os cientistas portugueses que desenvolvem investigação por todo o mundo.

GPS: Pode descrever de forma sucinta (para nós, leigos) o que faz profissionalmente?

Raquel Abreu: Sou neurocientista, ou seja, faço investigação na área da Neurociência. E o que é Neurociência? Neurociência é o estudo científico do sistema nervoso, o qual inclui o cérebro, a medula espinal, os nervos e os gânglios nervosos.
Dada a complexidade do sistema nervoso, o seu estudo é igualmente complexo e requer um conhecimento multidisciplinar em várias áreas, nomeadamente biologia, farmacologia, psicologia, medicina, e metodologia computacional.
Eu, por exemplo, tenho formação em Bioquímica, Bioinformática e Neurociência.
O objetivo final da comunidade de neurocientistas é definir a anatomia e a função do sistema nervoso e usar esse conhecimento para o desenvolvimento de medicamentos, instrumentos ou procedimentos clínicos que serão aplicados na prevenção, tratamento ou cura de doenças neurológicas.
A investigação pode ser definida como fundamental, translacional ou clínica. Eu trabalho num laboratório onde fazemos investigação fundamental, também designada de investigação básica.
Para estes estudos, recorremos a modelos animais, como por exemplo ratinhos. A grande vantagem destes modelos é a disponibilidade de técnicas bastante avançadas para a visualização e medição de atividade neuronal que nos permitem estudar em detalhe o cérebro.
Já estive envolvida em vários projetos de investigação, mas atualmente estou a investigar a memória de curta duração e a memória de trabalho.
Ainda pouco se sabe acerca das regiões do cérebro e dos mecanismos necessários para o armazenamento destas memórias.
De uma forma muito geral, estou a estudar o cérebro de ratinhos enquanto estão a desempenhar uma tarefa que envolve a memorização de curta duração de informação visual.
Depois de uma fase intensiva de treino destes animais, uso microscópios especificamente desenvolvidos para visualizar e medir a atividade elétrica de centenas de neurónios em simultâneo, ou de regiões do cérebro que sejam de interesse.

GPS: Agora pedimos-lhe que tente contagiar-nos: o que há de particularmente entusiasmante na sua área de trabalho?

RA: Costumo comparar Neurociência com a montagem de um puzzle. Cada neurocientista tenta contribuir com uma nova peça para decifrar um puzzle de biliões de peças que constitui o cérebro.
O cérebro fascina-me pela sua complexidade e pelo mistério que ainda reside nos biliões de neurónios que o constituem.
Apesar do aumento significativo de investigação em Neurociência nas últimas décadas, ainda há muito por explorar e muitas peças do puzzle para descobrir.
Pessoalmente, acho que qualquer estudo relacionado com o cérebro é aliciante e um constante desafio. A cada descoberta, segue-se sempre mais uma incerteza, uma curiosidade, um novo desafio que cativa os neurocientistas na sua busca incessante de respostas.
A memória, em particular, é algo que me fascina. Existem inúmeras doenças neurológicas que afetam a memória. Mesmo num envelhecimento normal, a memória é uma das primeiras funções cognitivas a ser afetada.
O meu objetivo, enquanto neurocientista, é contribuir com mais uma peça do puzzle acerca da memória.

GPS: Por que motivos decidiu emigrar e o que encontrou de inesperado no estrangeiro?

RA: O meu percurso académico e profissional não foi muito planeado. Tudo foi acontecendo naturalmente. Com muito esforço e dedicação, fui alcançando desafios a que me propus. E quando as oportunidades surgiram, não hesitei em aproveitá-las. Acho que tenho um lado aventureiro que me levou a ser cientista e a sair do país pela primeira vez.
Em 2008, quando decidi trabalhar em San Antonio, Texas, não tinha qualquer expectativa, estava simplesmente aberta a uma nova experiência, pessoal e profissional.
Felizmente, foi uma experiência bastante positiva e muito enriquecedora a todos os níveis. Gostei de trabalhar no sistema académico americano pelo seu profissionalismo, rigor, e disponibilidade de recursos. Assim como da pontualidade e eficiência do sistema.
Tive também a oportunidade de interagir com uma comunidade científica diversa, cultural e cientificamente, “open-minded” e menos formal do que em Portugal.
Dada a minha personalidade, foi bastante fácil a adaptação. Regressei a Portugal para iniciar o meu doutoramento com a Fundação Champalimaud e não hesitei quando me foi dada a oportunidade de regressar aos EUA para trabalhar no meu projeto de doutoramento.
Estive na UCLA durante cinco anos. Esta experiência foi ainda melhor do que a primeira. Mais uma vez, tive o privilégio de conhecer e trabalhar com cientistas de alto renome.
E o que tornou esta experiência ainda melhor foi viver na cidade de Los Angeles. O estilo de vida californiano cativou-me a 100%. Foi fácil a decisão de regressar para os EUA após a conclusão do meu doutoramento. Mudei-me este ano para Santa Barbara, Califórnia, para trabalhar na UCSB.

GPS:Que apreciação faz do panorama científico português, tanto na sua área como de uma forma mais geral?

RA: Penso que a investigação em Portugal ainda está bastante limitada pela falta de recursos e investimento. Infelizmente, a ciência em Portugal é financiada maioritariamente pelo estado, estando, por isso, sempre sujeita à instabilidade política e financeira do país.
Devido a este panorama científico, muitos projetos acabam por ser abandonados por falta de financiamento. E, quem sabe, se ideias brilhantes estão a ser desperdiçadas.
Na minha opinião, ser cientista em Portugal é ainda mais desgastante e difícil do que normalmente já é. Admiro e valorizo imenso os cientistas a fazer investigação em Portugal, por terem de enfrentar algumas dificuldades adicionais.
Admiro igualmente os cientistas que saíram do pais por abdicarem da família, amigos e do país. Tenho orgulho de ser portuguesa e de conhecer neurocientistas portugueses de alta qualidade, quer em Portugal quer no estrangeiro.

GPS: Que ferramentas do GPS lhe parecem particularmente interessantes, e porquê?

RA: Quero em primeiro lugar felicitar a iniciativa da Fundação Francisco Manuel dos Santos de criação da rede GPS. Acho que é extremamente importante a divulgação da localização dos portugueses que se encontram espalhados pelo mundo.
Esta iniciativa não só revela o espírito aventureiro e empreendedor dos cientistas portugueses, como torna possível a troca de ideias e contactos entre os portugueses, independentemente da sua localização e especialização profissional.
Penso que esta iniciativa realça também a qualidade dos cientistas portugueses, cujo valor é apreciado onde quer que estejam.
Espero sinceramente que mais portugueses se registem na rede GPS, pois tenho a certeza de que existem muitos mais aventureiros espalhados por outros cantinhos do mundo.

 

Consulte o perfil de Raquel Abreu no GPS – Global Portuguese Scientists.

 

Autor: GPS/Fundação Francisco Manuel dos Santos
GPS é um projeto da Fundação Francisco Manuel dos Santos com a Agência Ciência Viva e a Universidade de Aveiro.

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