Jovens com deficiência “cozinham” o futuro no restaurante “Compromisso”

São utentes da Associação Algarvia de Pais e Amigos de Crianças Diminuídas Mentais (AAPACDM), têm o sonho de ser cozinheiros […]

São utentes da Associação Algarvia de Pais e Amigos de Crianças Diminuídas Mentais (AAPACDM), têm o sonho de ser cozinheiros (e empregados de mesa) e já metem as “mãos na massa”. No restaurante “Compromisso”, daquela instituição, o objetivo é preparar a entrada do mercado de trabalho.

Antes de os pratos saírem para a mesa reina o stress na cozinha do “Compromisso”. Há que os confeccionar e os empratar para que nada falhe. Estas duas árduas tarefas estão a cargo dos utentes da AAPACDM.

Do outro lado, à espera que tudo saia da cozinha, estão alunos do curso de Empregado de Mesa, da mesma instituição. Para estes utentes o objetivo é que também sintam o que é trabalhar num restaurante.

A ementa marca uma massa filó, com queijo brie, mel e nozes, como entrada, e um salmão corado, com batata doce e bróculos a vapor, de prato principal. Para finalizar… uma delícia de banana.

Neste almoço, os sete cozinheiros de serviço contam com a supervisão do formador – e chef – Paulo Almeida. «Tento ser um amigo deles. Dou conselhos e apoio», explica ao Sul Informação, que foi convidado para este almoço, realizado ontem, 2 de Julho, em Faro.

Com o objetivo de preparar os utentes da AAPACDM, este “Compromisso” abriu portas em Março de 2016 e já serviu «mais de 100 refeições», segundo David Filipe, formador do curso de Empregado de Mesa.

A lógica que rege o restaurante é a seguinte: os almoços, por exemplo, são feitos por convite. Isto é: a “casa” não está aberta todos os dias ao público.

Ainda assim, a verdade é que até agora o balanço é «mesmo muito positivo», diz Paulo Almeida, enquanto ajuda os seus pupilos.

Aliás, para o chef não há dúvidas: a «pouco e pouco qualquer um deles está apto não para grandes projetos no mercado de trabalho, mas para começar a dar apoio».

«Há interesse e empenho. Nós aqui fazemos todo o tipo de refeições, com entrada, prato principal e sobremesa. Preparamos, confeccionamos e finalizamos. O método de trabalho que uso aqui não é agressivo, mas sim de paciência. Vou corrigindo, dando exemplos», acrescenta, sorridente.

De facto é isso que se nota na cozinha do “Compromisso”. Há entreajuda, boa disposição mas também muita vontade de aprender e ser melhor.

Rúben Rocha é um dos aprendizes. «Temos estado a trabalhar bem. Estou a estagiar no restaurante Gimbras, em Faro, e quero ficar lá», conta ao nosso jornal. Quanto a pratos preferidos, este jovem não hesita… «carne! Não gosto muito de mexer em peixe», diz, entre risos.

Bruno Martins não pode dizer o mesmo. É que o prato principal (o salmão) está por conta dele. Com perícia vai virando o peixe, que já está a cozinhar na frigideira. O cheiro – a alho, azeite e salmão – já abre o apetite.

«O meu sonho é mesmo ser cozinheiro», diz. Isto apesar do algum «stress que existe», acrescenta.

Uma das particularidades destes cursos é o facto de o estágio ser feito em paralelo com a formação naquela instituição. Por exemplo, desta forma «eles colocam dúvidas do dia a dia», explica David Filipe. A isto juntam-se as sugestões vindas dos alunos, trazidas das experiências em estágio, o que comprova os frutos deste método.

Daniela Guerreiro, do curso de Empregado de Mesa, é um desses exemplos. Vestida como pede a etiqueta, com fato e até um laço, foi uma das mais prestáveis no serviço de almoço. O estágio, também feito no Gimbras, já o terminou, mas a sua ambição não tem fim. «Agora vou estagiar no Hotel Dona Filipa. Adoro estar a trabalhar: este é o curso que quero», conta.

Com o que foi aprendendo, Daniela revela algumas das técnicas que já sabe, como dobrar um guardanapo, fazer cocktails ou montar mesas.

O almoço acabou. Nos convidados, a opinião geral é de que tudo correu muito bem. No fim todos os futuros cozinheiros e empregados de mesa juntam-se em jeito de despedida.

Nas suas caras vê-se felicidade. O dever foi cumprido.«Trabalhar aqui é muito diferente. Há uma ligação mais chegada. O sucesso deles é o meu sucesso», diz David.

Paulo vai mais longe: «é como se fossem meus filhos».

 

Fotos: Ana Madeira | Sul Informação

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