Loulé é território entre cidades que testemunha teia de trocas comerciais no Império Romano

A exposição «Loulé: Territórios, Memórias, Identidades», que está a ser montada no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, e cuja […]

A exposição «Loulé: Territórios, Memórias, Identidades», que está a ser montada no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, e cuja data de abertura será anunciada na próxima semana, apresenta um importante Núcleo Romano, que testemunha a teia de trocas comerciais à escala do Império Romano.

Catarina Viegas, comissária científica do Núcleo Romano da exposição, revela a riqueza da vida e do comércio das populações que ocuparam o território, a partir dos finais do século II a.C., quando o Algarve passou a incorporar o Império Romano.

De todas as peças que integram esse núcleo Catarina Viegas destaca a descoberta que mais a surpreendeu: “a mão de uma estátua à escala natural. Sabemos que é a mão de um homem, mas não sabemos se é um deus, um filósofo…”

“Não conseguimos dizer exatamente que figura ali está, mas é demonstrativa a todos os títulos da capacidade económica do proprietário daquela casa É muito romana essa vontade de mostrar e exibir riqueza através de elementos decorativos, sejam de mármore, sejam os pavimentos de mosaico — trouxemos apenas uns fragmentos de Cerro da Vila. É muito demonstrativo das técnicas construtivas e
da capacidade aquisitiva dessas elites e da sua necessidade de ostentação”, acrescentou aquela especialista.

Esta riqueza é espelhada também nos diversos elementos encontrados: “elementos pétreos, elementos arquitetónicos, mosaicos, estuque. Nas cerâmicas, há cerâmicas finas de mesa muito bonitas e ânforas, não só das produções locais do Algarve, como também das importações, que mostram até que ponto o Algarve estava imbricado nessa teia de trocas comerciais à escala do Império Romano”.

Foi graças às ruínas romanas do Cerro da Vila, uma estação arqueológica descoberta em 1963 pelo algarvio José Farrajota, que hoje se situa em pleno centro de Vilamoura, que a história romana de Loulé foi descoberta por estudiosos e curiosos. Nessas ruínas, podem observar-se estruturas habitacionais e termais, onde se destacam os pavimentos em mosaico, com mais de 2000 anos.

 

Unguentário de vidro translúcido – ©José Paulo Ruas|DGPC

Catarina Viegas sublinha o facto de Loulé ser um “território muito completo, com costa, barrocal e serra, que não tinha uma grande capital de civitates — as grandes cidades da época com capacidade política e administrativa, mas que estava integrado no território dependente de Ossónoba, a atual cidade de Faro”.

Para oriente, a antiga cidade de Balsa, perto de Tavira, constituía certamente um grande centro urbano. Mais para ocidente, não há certezas sobre que cidade terá tido um papel mais importante durante a época romana, entre Cilpes, em torno de Silves, Lacóbriga e Portimão.

No entanto, neste território entre cidades, aconteciam as mais diversas atividades económicas. “Hoje em dia considera-se que o Cerro da Vila foi mais do que uma villa (…), tinha uma estrutura industrial de grandes dimensões. Teria uma forte componente de exploração de preparados de peixe, na zona costeira, mas sempre muito ligada à exploração agrícola, seja nessas villae costeiras — uma espécie de grandes quintas — seja mais para o interior”.

Catarina Viegas assegura que os visitantes da exposição vão ser surpreendidos pela história tão rica que Loulé tem para contar: “As pessoas não têm noção da riqueza patrimonial do país, e, muito menos, de um sítio como Loulé, em que estão habituadas a ir para a praia. Esta exposição cumpre muito bem o papel de chamar a atenção para um território que tem um tesouro, não é só praia”.

«Loulé. Territórios, Memórias, Identidades» é uma iniciativa conjunta dos Museus Nacional de Arqueologia e Municipal de Loulé, que reúne mais de 500 bens culturais que testemunham os últimos oito milénios de história deste que é o maior e mais povoado concelho do Algarve.

Comissariada por Victor S. Gonçalves, Catarina Viegas e Amílcar Guerra, da Universidade de Lisboa, Helena Catarino, da Universidade de Coimbra, e Luís Filipe Oliveira, da Universidade do Algarve, a exposição revela a ocupação humana do território louletano desde a Pré História à Idade Média.

A data da inauguração da exposição será anunciada no final da semana que vem.

 

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