No Enxerim, a ginástica é (mesmo) para todos

Bruno Macedo nasceu com paralisia cerebral e anda numa cadeira de rodas. Tem dificuldade em expressar-se, mas adora música e […]

Bruno Macedo nasceu com paralisia cerebral e anda numa cadeira de rodas. Tem dificuldade em expressar-se, mas adora música e cantar. Em 2015, depois de ver, com a mãe, Alexandra Sousa, um sarau de ginástica adaptada, com pessoas portadoras de trissomia 21, quis também experimentar e cumprir um sonho.

Hoje, ao serviço do Grupo Desportivo e Cultural do Enxerim, com a companheira Jéssica Duarte, que não tem nenhuma deficiência, faz atuações, como a do fim-de-semana, no Torneio de Iniciação à Ginástica Acrobática, em Silves. A sua cadeira de rodas, que até poderia parecer um problema, é elemento fundamental da atuação.

Num canto do pavilhão, Bruno e Jéssica estão quase a entrar em ação. Ambos vestem maillots pretos e brancos: as cores do Enxerim. A música começa e os colchões tornam-se o seu palco. Bruno vai sorrindo, levantando os braços, enquanto Jéssica utiliza a cadeira de rodas como suporte para as acrobacias.

Nas bancadas, a mãe de Bruno, de lágrimas nos olhos, filma a atuação. «Emociono-me sempre», confessa ao Sul Informação. Se o facto de Jéssica fazer da cadeira de rodas um dos elementos da atuação pode causar espanto, o final não é menos surpreendente. A atleta tira Bruno da cadeira, deita-o e, abraçada ao colega, num gesto de carinho, coloca a cabeça no seu peito, enquanto a música acaba.

Mesmo lesionada num pé, Jéssica não quis deixar de participar no torneio. «Tenho aprendido muito desde que estou com o Bruno», disse. Hugo Mendes, treinador de ginástica do Enxerim e mentor de todo o projeto, recorda o momento que em Bruno e Jéssica se tornaram companheiros.

Depois de o clube ter aceitado que o filho de Alexandra Sousa entrasse na ginástica, Hugo Mendes juntou todos os atletas que já treinava. «Sentei-os e expliquei-lhes o que ia acontecer. O Bruno chegou entretanto e a Jéssica disse: “quero trabalhar com ele!”», conta o treinador ao Sul Informação.

Para Hugo, que também foi ginasta, treinar esta classe é um trabalho «incrível e muito compensador». No seu entender, «criámos algo que é ainda melhor do que a inclusão, já que juntámos atletas com deficiência com os ditos normais. Isto foi uma evolução exponencial!».

A ideia de criar uma classe de ginástica adaptada, que também junta, no Enxerim, atletas com trissomia 21 ou autismo, não nasceu neste clube do concelho de Silves, mas sim na Associação Algarvia de Pais e Amigos de Crianças Diminuídas Mentais (AAPACDM), de Faro, onde Hugo trabalha e também treina ginástica adaptada.

Por isso, o treinador de ambos os clubes não pára de dar indicações a estes (também) seus atletas, que participam igualmente no torneio. Junto à mesa dos juízes, Hugo gesticula, dá indicações, mas também sorri – e muito – para os seus pupilos.

Um final surpreendente para a coreografia de Jéssica e Bruno

 

No Enxerim, este ex-ginasta aponta um problema: «a Fissul, onde treinamos, não tem as condições ideais».

Mesmo assim, há dois ou três treinos por semana. Carina Fernandes tem um papel importante para que tudo corra bem aos atletas de ginástica adaptada. «Trabalho ao nível da psicomotricidade. Ajudo nas coreografias para conseguirem manter o equilíbrio. Nos torneios, há muita confusão e eles podem esquecer-se facilmente dos esquemas e de onde se devem posicionar», explica.

A manhã de competição está quase a chegar ao fim. Na categoria F, em par misto, Bruno e Jéssica ficaram em 2º lugar.

Após a entrega de prémios, os atletas abraçam o treinador Hugo Mendes. «Lembro-me de como, no início de tudo isto, estava receoso. Eu é que estava a complicar…», conclui, sorridente.

 

Fotos: Pedro Lemos|Sul Informação

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