No Centro de Medicina e Reabilitação do Sul «fazem-se milagres»

É por entre árvores, no meio das serras e longe do cosmopolitismo, que se ergue o Centro de Medicina e Reabilitação do […]

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É por entre árvores, no meio das serras e longe do cosmopolitismo, que se ergue o Centro de Medicina e Reabilitação do Sul (CMR Sul), em São Brás de Alportel. Antes foi um Sanatório. Hoje é, no país, um dos mais conceituados centros de reabilitação para doentes que sofreram AVCS ou lesões cerebrais graves. Gilberta Ferreira, tetraplégica, é uma das 41 internadas. «Aqui fazem-se milagres», garante.

No ginásio de reabilitação do CMR Sul, não há tempo para descanso. De um lado, há pacientes a fazer exercícios físicos; no outro, há camas em que alguns utentes vão sendo ajudados por terapeutas. Deitada na cama, sorridente, Gilberta Ferreira é uma das pacientes que está a receber massagens nas pernas e braços.

Um acidente de automóvel tirou-lhe os movimentos nos membros inferiores e superiores – é tetraplégica. Este é o seu sexto internamento. Já esteve quer no Centro de Medicina e Reabilitação de Alcoitão, quer no Hospital de S. João, no Porto, onde lhe disseram que nunca mais iria conseguir mexer nenhum membro no corpo, só o pescoço.

«Hoje, graças ao trabalho do CMR Sul, consigo mexer um pouco os braços», diz, enquanto o demonstra, orgulhosa. «O trabalho que todos fazem aqui é incrível. Os doentes são colocados em primeiro lugar em tudo. Há um acompanhamento de todas as áreas, seja a psicologia, seja a fisioterapia. Todas as pessoas trabalham para nós e em nossa função», acrescenta.

 

foto cmr sul 3Um trabalho «intensivo e integral»

Arminda Lopes é uma dessas pessoas. Baixa, de cabelo loiro, percorre os corredores do CMR Sul sempre de bata vestida. É a diretora clínica do Centro. «O trabalho de reabilitação que fazemos é intensivo e integral. Há uma articulação entre a fisioterapia, a psicologia, a terapia ocupacional e a enfermagem. Os doentes são abordados nas múltiplas facetas das suas necessidades. Mal recebemos os doentes, fazemos logo, durante 48 horas, uma avaliação intensiva do seu estado», explica à reportagem do Sul Informação.

Após esta primeira fase, são definidos objetivos de recuperação para cada doente… que são fixados pelos pacientes. «Depois, todos trabalhamos para que eles sejam cumpridos. Para quem não tem capacidade cognitiva para os definir, o objetivo passa a ser fazer com que esses doentes recuperem essa tal capacidade cognitiva», diz Arminda Lopes.

Num estudo feito entre vários Centros do género, o CMR Sul explicou o porquê de ser uma unidade conceituada. Orgulhosa, Arminda Lopes diz: «nós, com resultados em termos de melhorias funcionais idênticos entre todos, conseguimos que os utentes estejam internados menos tempo. O tempo média é de 74 dias e no CMR Sul é de 43», acrescenta, orgulhosa.

Devido a estes números, aos quais se acrescenta o facto de 87% dos doentes voltarem para casa, a primeira ideia dos pacientes, mal chegam, é que o CMR Sul lhes vai, num ápice, apontar o caminho da recuperação. «Todos vêm cheios de expetativas. Por isso, a fase inicial é a mais difícil. O que nós trabalhamos é a adaptação das pessoas às suas limitações. Os pacientes não tem de aceitar o que lhes aconteceu, mas sim de se adaptar», conclui.

 

 

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Gilberta Ferreira, no CMR Sul

«Devo ao CMR Sul a minha segunda vida»

Após as massagens, Gilberta senta-se, com ajuda, na cama. Apesar das dificuldades motoras, mantem a integridade mental, demonstrando grande à vontade. «Se antes do meu acidente devo a vida aos meus pais, depois do que me aconteceu, devo ao CMR Sul a minha segunda vida», diz, emocionada.

«Aqui sinto que basta espirrar para ter logo três pessoas à minha volta, para saber se estou bem», conta, entre risos. Apesar do «oásis» que Gilberta considera que é o CMR Sul, há algumas falhas que lhe aponta.

A primeira: «não temos Internet. Em pleno século XXI, é absurdo não podermos estar online». A segunda: «desde que a gestão está a cargo da Administração Regional de Saúde (ARS), tenho sentido falhas. Por favor, não acabem com a qualidade disto», apela.

 

 

foto cmr sul 2O «problema grave» da contratação

Desde 2013 que o CMR Sul está sob a gestão da ARS Algarve, após a recusa do Tribunal de Contas em prorrogar o contrato de gestão estabelecido no âmbito de uma parceira público-privada com a GPSaúde – Sociedade Gestora do Centro de Medicina Física e Reabilitação do Sul SA.

Uma das maiores falhas apontadas à gestão da ARS tem sido a falta de contratação de pessoal.

Nuno Ramos é vogal do Conselho Diretivo da Administração Regional de Saúde e garante que se «está em processo de substituição de quem saiu». «Há regras especiais de contratação. É necessário fazer um pedido especial quer ao Ministério das Finanças, quer ao Ministério da Saúde», explica. E acrescenta: «nós [ARS] fazemos uma gestão de grande proximidade. Não estamos preocupados só com a quantidade, mas mais com a qualidade».

Para Arminda Lopes os números interessam: das 54 camas disponíveis apenas 41 estão ocupadas «porque não temos pessoal para as outras». «Este é um problema muito grave», considera a diretora clínica. Quanto à equipa do CMR Sul, anda «por volta das 130 pessoas», conclui.

Temendo que a excelência alcançada possa ser posta em causa de forma irremediável pelo impasse que se vive quanto à gestão do Centro de Medicina e Reabilitação do Sul, esta semana a AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve  exigiu ao Ministério da Saúde que apresente uma solução «urgente» para os problemas de funcionamento que afetam aquela unidade de saúde.

 

 

«Gostava muito de poder trabalhar»

Alheada dos números, Gilberta Ferreira confessa ter um «grande desgosto», que é não poder trabalhar. Antes do acidente, era dona da Quinta da Gill, um centro de hipismo, em frente à Escola Internacional do Algarve, perto de Lagoa. «Como tenho uma grande percentagem de invalidez, não posso trabalhar», explica Gilberta.

Ainda assim, há algo que esta lisboeta, que, por viver no Algarve há mais de 30 anos, se considera algarvia, ganhou com o acidente: a amizade de outros pacientes do CMR Sul. Emocionada, Gilberta faz uma pausa para concluir: «aqui fazem-se amizades. Há um grande respeito de todos».

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