Monchique lança programa pioneiro para salvar animais domésticos dos incêndios

O que acontece aos cães, aos gatos, às aves de capoeira, no caso de um incêndio que ponha em risco […]

cãoO que acontece aos cães, aos gatos, às aves de capoeira, no caso de um incêndio que ponha em risco a habitação dos seus donos? Muitos desses animais domésticos são postos em liberdade quando as chamas se aproximam, na convicção de que se hão-de salvar pelos seus próprios meios, mas a verdade é que bem mais de metade deles acaba por morrer.

Por isso, a Câmara Municipal de Monchique lançou um programa pioneiro chamado «Animal Seguro», com medidas de proteção para os animais em caso de incêndio.

Nos recentes fogos que acabaram por destruir mais de 2000 hectares na Serra de Monchique, na primeira semana de Setembro, o programa já esteve «em funcionamento e deu bons resultados», revelou Rui André, presidente da Câmara de Monchique, ao Sul Informação.

A médica veterinária municipal de Monchique explica que este programa algarvio, pioneiro no país, se baseia «no programa desenvolvido nos Estados Unidos, após o furacão Katrina».

«Segundo dados de 2010, cerca de 80 a 90% dos animais não evacuados pelos seus tutores em caso de catástrofe acabam por morrer», acrescenta. E quando se fala de animais domésticos, está a falar-se daqueles que se destinam a companhia, a guarda e até a produção (galinhas, porcos, vacas, cavalos, cabras, ovelhas, coelhos).

O objetivo é, salientou a veterinária Ana Silva, «que as famílias tenham um plano de proteção e evacuação em que os elementos de quatro patas [ou duas asas] também estejam incluídos».

Em Portugal, explicou, «um programa deste género existe apenas como tese de mestrado na Câmara Municipal de Lisboa, mas nunca foi aplicado na prática. Nós somos os primeiros, aqui em Monchique».

Todas as regras e procedimentos a seguir para proteger os animais estão contidos num pequeno manual com 24 páginas, que tem estado a ser distribuído pelo Município e que em breve poderá ser descarregado no seu site, em PDF.

As medidas de proteção são diferentes em função das características e da quantidade de animais a proteger, quer se trate de animais de companhia, quer de animais de produção.

animal seguro
Autocolante a colocar na janela da casa

Algumas das regras são básicas: a jovem médica veterinária municipal explica que, porque «os animais se desorientam muito com o fogo», os seus donos que vivem em zonas de risco devem ter sempre à mão uma trela ou uma caixa de transporte. E quem tem animais perigosos em casa – como cobras, aranhas – também se deve lembrar deles na hora de sair.

Numa janela da casa deve ainda colocar-se um autocolante ou pequeno cartaz que indique quais os animais que estão presentes nessa habitação…e até se algum deles é agressivo. Isso para que as equipas de resgate saibam exatamente com o que irão deparar-se. Além disso, depois de terem deixado a casa, levando os animais, deve escrever-se nesse autocolante, em letras grandes, a palavra «Evacuado».

Mas não são só os animais de companhia ou de guarda, na sua maioria cães e gatos, que preocupam os mentores deste programa. Também os animais de produção podem sofrer nos incêndios.

«Temos o caso de uns estrangeiros residentes que têm instalações fantásticas para os seus cavalos, com climatização e tudo, numa quinta aqui na serra. Só há um problema: todas as instalações foram construídas em madeira, por isso muito vulneráveis ao fogo», contou o autarca Rui André ao Sul Informação. «Neste caso, foram essas pessoas que contactaram os serviços da Câmara, para saber o que haviam de fazer para se proteger».

O presidente da autarquia recorda ainda que, nos incêndios de 2003, quando a suinicultura era ainda uma atividade económica muito forte no concelho, «os aspersores de água montados nos telhados das instalações salvaram milhares de porcos».

Apresentação Programa Animal Seguro_1
A veterinária municipal Ana Silva a apresentar o Programa Animal Seguro, promovido pela CM Monchique

Além de definir todas as medidas de proteção aos animais e de as difundir entre a população e os agentes de proteção civil, o Município de Monchique vai também entregar aos Bombeiros locais «unidades de cuidados intensivos e duas máscaras de oxigénio para animais». Além disso, na corporação da vila há já dois bombeiros com formação em primeiros socorros para animais.

No fim de semana de 2 e 3 de Setembro, aquando da primeira vaga de grandes incêndios na Serra de Monchique, foram resgatados, no âmbito deste Programa Animal Seguro, «dois gatos e três cães». Um dos cães pertencia a uma pessoa acamada, que foi retirada da sua casa por precaução, mas que se recusava a sair sem ser na companhia do animal.

«Nos momentos de grandes aflições, surge sempre a solidariedade», contou a veterinária Ana Silva. «Foi bonito ter recebido telefonemas a dizer: há aqui mais espaço para acolher animais, se for preciso. Foi-nos oferecido alojamento para 100 galinhas, para ovelhas e para cabras».

Das medidas previstas no manual preparado pela autarquia houve, porém, um animal que ainda ficou de fora, mas que o autarca Rui André promete vir a incluir, no futuro: as abelhas.

«As abelhas também são animais de produção, com grande expressão económica aqui na serra, e as colmeias acabam por ser sempre muito afetadas pelos incêndios. No futuro, vamos também tentar definir condições e medidas de segurança para elas». O “gado do vento”, como lhe chamavam os forais medievais, pode assim vir a ser englobado no Programa Animal Seguro.

Testado pela primeira vez no terreno na primeira semana de Setembro, o presidente Rui André faz questão de salientar que, nos recentes incêndios, o Programa Animal Seguro foi aplicado e «não se registou a morte de nenhum animal doméstico no concelho». «Já basta às pessoas perder as hortas, as árvores, os pomares. Não queremos que percam também os seus animais».

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