A 230 metros de profundidade, Festival de Jazz de Loulé anuncia as suas surpresas

Mário Laginha bateu palmas, para ouvir o som, e disse: «estava com medo que houvesse muito eco, mas o sal […]

Festival de Jazz de Loulé na Mina de Sal Gema_22Mário Laginha bateu palmas, para ouvir o som, e disse: «estava com medo que houvesse muito eco, mas o sal das paredes e do chão deve absorvê-lo. Tem excelentes condições para concerto». O músico dava assim a sua aprovação ao «cenário inabitual» escolhido pela Casa da Cultura de Loulé para apresentar, ontem ao início da noite, o Festival Internacional de Jazz de Loulé.

E que «cenário inabitual» era esse? As galerias com 10 metros de altura e 37 quilómetros de extensão, da mina de Sal Gema de Loulé, explorada pela CUF, 230 metros abaixo da cidade.

Para a apresentação desta que será a 22ª edição do mais antigo festival de jazz do Algarve – e de um dos de maior longevidade do país – , foi convidada cerca de meia centena de pessoas que, em grupos de seis, apertadinhas que nem sardinha em lata, desceram às profundezas da terra nos elevadores usados pelos mineiros.

Lá em baixo, soube-se que o festival, cuja fase formal de concertos decorre de 29 a 31 de Julho, na Alcaidaria do Castelo, até já começou. Houve uma apresentação informal no MED, jazz no cinema, este showcase com Mário Laginha, no fundo da mina de sal gema, haverá ainda um concerto ao ar livre no Parque Municipal, marcado para sábado, 16 de Julho (10h30), com os muitos jovens músicos da «tÉssa e a banda troilarÉ», e ainda Jazz no Bafo (o bar Bafo de Baco), dia 22 (23h00), com «What about Sara».

 

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Mário Laginha, ainda de capacete (obrigatório), na apresentação do Festival

 

E ontem mesmo, depois da apresentação do festival e da curta atuação de Mário Laginha, no fundo da mina, seguiu-se, no Cineteatro Louletano, a audição final dos quatro trios pré-selecionados, dos nove que se apresentaram ao concurso promovido pela Câmara Municipal para escolher o futuro Trio de Jazz de Loulé.

«Concorreram nove trios de todo o país, dos quais quatro, através de uma prova cega, foram selecionados para esta final. Agora terão meia hora cada um para se apresentar ao vivo, perante o júri e o público, e desses quatro será escolhido um. Esse irá estrear-se no Festival de Jazz e depois terá a obrigação de fazer um total de 12 concertos por ano, pagos pela Câmara de Loulé», explicou, ao Sul Informação, Dália Paulo, diretora do Departamento de Desenvolvimento e Coesão.

No fim, a escolha do júri para este Trio de Jazz de Loulé recaiu sobre João Pedro Coelho (piano), António Quintino (contrabaixo) e João Pereira (bateria).

Mário Laginha, diretor artístico do Festival de Jazz, confessou que a sua ideia de criar um Trio de Jazz, «muito bem recebida» pelos responsáveis da autarquia, «foi inspirada em coisas que fui vendo: por exemplo a Orquestra de Jazz de Matosinhos ou o Quarteto de Cordas de Matosinhos, que levam o nome dessa cidade a Portugal todo e ao mundo».

«Para que a coisa fosse transparente e justa, achámos melhor fazer um concurso», mas, admitiu, «estávamos muito apertados de tempo porque eu queria que o trio tocasse já no festival deste ano». E assim será.

Mário Laginha disse-se admirado com a quantidade de trios que concorreu: «nunca esperei que fosse possível haver tantos». Mas, sublinhou, «tal como no futebol, com a seleção nacional, quando as forças estão certas, tudo pode acontecer».

E o concerto do recém escolhido Trio de Jazz de Loulé, naquela que será a sua estreia absoluta perante o grande público, irá fechar, a 31 de Julho, o Festival.

O consagrado músico de jazz Mário Laginha é o diretor artístico deste certame. E porquê? Primeiro, pelo «laço muito forte» que o une a Loulé, onde a sua mãe nasceu e viveu até ir para Lisboa estudar.

 

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Os dois presidentes: Vítor Aleixo (Câmara de Loulé) e João Espada (Casa da Cultura de Loulé)

 

E, tendo conseguido sobreviver durante os tempos da crise mais profunda, quando, confessou, «pensámos em acabar com o festival» porque não havia dinheiro, Mário Laginha está muito confiante nesta edição de 2016, que marca o regresso do evento a um patamar de qualidade que, na realidade, nunca abandonou.

Assim, a programação arranca no dia 29, sexta-feira (21h30), com Gileno Santana e Tuniko Goulart, «um duo brasileiro, mas que, na realidade, é formado por músicos que vivem em Portugal. O Tuniko até vive em Faro. Têm uma formação pouco habitual de trompete e violão».

Nessa mesma noite, segue-se João Mortágua, «um saxofonista do Porto que é brilhante». Mário Laginha sublinhou a oportunidade de o trazer ao Algarve, já que, salientou, «o país é pequeno, mas nestas coisas parece que é grande demais».

Na segunda das três noites, 30 de Julho, sábado, o programa arranca com o Marco Martins Quintet, um músico de Loulé que vive em Paris, e que Laginha disse ter-lhe sido apresentado pelos dois responsáveis da Casa da Cultura de Loulé – Élio Pelica e João Espada. «Este grupo é incrível», garantiu o diretor artístico do Festival.

Depois, a fechar a noite, segue-se por Vardan Ovsepian, um pianista arménio a viver em Los Angeles, que faz duo com a cantora brasileira, de São Paulo, Tatiana Parra. «É incrível o som, sou mesmo fã!», comentou, entusiasmado, Mário Laginha.

 

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Mário Laginha, no seu showcase de apresentação do Festival, no fundo da mina

 

Finalmente, no dia 31, domingo, será a vez de a Alcaidaria do Castelo receber a estreia oficial do Trio de Jazz de Loulé. À hora da apresentação do Festival no fundo da mina de Sal Gema, Mário Laginha, que também integrou o júri, ainda não sabia, obviamente, quem seria o escolhido, mas instou os convidados: «peço que apoiem este trio, estes músicos, e os sintam como vossos. E espero que eles sejam muito bons e que tenham uma vida longa, para levar o nome de Loulé a todo o Algarve, ao resto do país e até fora. Gestos destes fazem com que a música se espalhe e chegue às pessoas».

E o gesto – inédito em todo o Sul do país – de criar um Trio de Jazz partiu da Câmara Municipal de Loulé, cujo presidente, depois de salientar o «momento especialíssimo» que se estava a viver ali, a 230 metros de profundidade, frisou que «a cultura é um investimento com claro retorno económico direto e indireto».

A Câmara Municipal a que preside está «fortemente empenhada em fazer da Cultura um recurso de Loulé», acrescentou Vítor Aleixo.

E a aposta reforçada no Festival Internacional de Jazz é sinónimo disso mesmo, como disse João Espada, presidente da Casa da Cultura de Loulé, que promove o evento desde sempre.

Um percurso recordado com emoção por Eduardo Manuel, um dos organizadores do primeiro Jazz no Castelo: «foi lá que tudo começou há 21 anos». E será lá que, de 29 a 31 de Julho, tudo irá culminar, em mais esta edição do Festival.

 

Festival Internacional de Jazz de Loulé: o que ainda falta acontecer

16 de Julho Jazz Kids 10h30
«tÉssa e a banda troilarÉ»/Concerto ao ar livre
Parque Municipal

22 Jazz no Bafo 23h00
«What about Sara»
Bafo de Baco

29 Sexta 21h30
Gileno Santana e Tuniko Goulart
João Mortágua “Janela”
na Alcaidaria do Castelo

30 Sábado 21h30
Marco Martins Quartet
Vardan Ovsepian e Tatiana Parra
na Alcaidaria do Castelo

31 Domingo 21h30
Trio de Jazz de Loulé
na Alcaidaria do Castelo

 

Fotos: Elisabete Rodrigues|Sul Informação

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