13 resgates e nove pessoas desalojadas em Algoz, Tunes, Pera e Alcantarilha

Em Algoz, nunca se viu tanta água nas ruas, como no passado domingo, dia 1 de Novembro. Depois de horas […]

Cheias em Algoz - foto de Márcio Baptista
Algoz – foto de Márcio Baptista

Em Algoz, nunca se viu tanta água nas ruas, como no passado domingo, dia 1 de Novembro. Depois de horas e horas de chuva intensa, a ribeira que passa por baixo de grande parte da vila, encanada, transbordou e as pessoas desesperaram sem ver chegar os bombeiros ou outros meios de proteção civil que as pudessem socorrer.

Além de inundações em pisos térreos, caves e garagens, e da parede de uma garagem que abateu, devido à força das águas, não houve prejuízos mais graves. Mas as redes sociais ficaram inundadas de críticas ao alegado atraso do socorro, em Algoz.

Nelson Correia, comandante da Proteção Civil Municipal de Silves, disse ao Sul Informação que «à hora em que as coisas estiveram mais graves em Algoz havia muitas ocorrências em todo o concelho, com tudo a acontecer ao mesmo tempo».

Aliás, Silves, com 34 ocorrências, das quais «31 foram de facto inundações urbanas ou cheias em linhas de água em áreas urbanas ou adjacentes», foi o concelho do Algarve a registar maior número de casos (para isso, contribuiu o facto de as cheias em Albufeira e Quarteira serem tratadas como uma só ocorrência).

O que se passou em Algoz, em Tunes, em Alcantarilha ou Pera, as localidades silvenses mais atingidas pelo temporal que se abateu sobre a zona central do Algarve no domingo, não atingiu a dimensão dos estragos em Albufeira, mas causou prejuízos e, sobretudo, muitos sustos de quem, vendo as águas a subir, não sabia o que poderia ainda acontecer.

Algoz - foto de Márcio Baptista
Algoz – foto de Márcio Baptista

Ao todo, houve a necessidade de fazer 13 resgates de pessoas presas pelas águas (cinco em Alcantarilha e oito em Algoz/Tunes) e a necessidade de realojar nove dessas pessoas.

Estas foram alojadas no Hostel da Casa do Povo de São Bartolomeu de Messines, que disponibilizou as suas instalações gratuitamente. Os desalojados contaram ainda com o apoio da delegação de Silves/Albufeira da Cruz Vermelha Portuguesa, que disponibilizou técnicos especializados (psicólogos), transporte e roupas para as pessoas afetadas, bem como da Santa Casa da Misericórdia de Alcantarilha.

Luís Direito, colaborador habitual do Sul Informação na área da fotografia, foi um desses desalojados. Com a mulher e a sogra, tiveram de ser retirados da sua casa perto de Pera, quando esta foi inundada por uma torrente de água e lama, depois da vizinha ribeira ter transbordado e ter rebentado com um muro.

Apesar de toda a parte mais baixa da casa e respetivo recheio terem ficado destruídos, Luís Direito ainda evitou prejuízos maiores porque, a meio da tarde, quando nem no seu jipe conseguiu sair de casa para ir às compras, resolveu colocar os carros e a mota num local mais elevado da sua propriedade.

«Por volta das 20h15, ouvimos um estrondo enorme, deduzimos logo que o muro não tinha resistido e foi o desespero total. Fomos ver e era uma enxurrada de água e lama a vir na nossa direção. Fomos para a sala e retiramos o que pudemos, o mais rapidamente possível, e o que não pudemos, colocamos em cima dos móveis», conta Luís Direito na sua página pessoal de Facebook.

«Ficámos sem luz e foi uma sorte, pois nem nos lembrámos que, ao estar na sala já sem-inundada, podíamos ter sido eletrocutados. Mas a água gelada e o desespero foi demasiado e ficámos impotentes na cozinha [mais elevada] a ver a água invadir a sala e destruir tudo, os móveis a flutuarem e a virarem-se, enfim é indescritível», conta ainda.

«O que parecia muito pouco provável aconteceu, apesar de todas as precauções que tomámos no passado de reforçar diques, arranjar muros, limpar ribeira».

Tunes - foto de André Miguel
Tunes – foto de André Miguel

Depois de vários contactos desesperados a pedir ajuda, já noite cerrada, quando pensavam que ninguém os iria salvar, acabou por chegar ajuda dos Bombeiros e da União de Freguesias Pera e Alcantarilha. Com as viaturas todo o terreno verdadeiramente pelo mato dentro, o socorro chegou e as três pessoas acabaram por ser resgatadas, tendo passado a noite no hostel em Messines. Também os vizinhos, um casal idoso inglês e uns portugueses, foram retirados, apenas tendo morrido alguns animais.

Nelson Correia, responsável pela Proteção Civil de Silves, acrescentou que, apesar destas situações, nada de mais grave aconteceu sobretudo porque, avisada do temporal que se previa, a Proteção Civil Municipal resolveu, previamente, ainda na sexta-feira, abrir o cordão dunar em Armação de Pêra, facilitando assim o escoamento das águas que viessem a acumular-se na ribeira de Alcantarilha, como efetivamente aconteceu.

«A abertura do cordão dunar foi decidida para garantir o escoamento das águas na parte histórica de Armação de Pêra, onde, de facto, acabou por não haver inundações relevantes, e para escoar as águas da ribeira e de toda a sua bacia hidrográfica».

A intervenção, abrindo a saída da ribeira para o mar, «foi determinante para não haver inundações em Armação, mas acabou por evitar que, a montante, as consequências das cheias fossem ainda piores. Foi muito importante para drenar toda essa linha de água que vem de Tunes, Algoz e Alcantarilha», salientou Nelson Correia em declarações ao Sul Informação.

Nas praias do concelho, e também como medida preventiva, foi colocada areia, com a ajuda de máquinas de rasto, a defender os apoios de praia mais expostos à ação do mar.

Quanto aos casos de inundações, o responsável pela Proteção Civil silvense afirma que, «como aconteceu agora, não há registo de uma situação destas em Algoz. Mas foram 10 horas a chover torrencialmente!».

Algoz - foto de Márcio Baptista
Algoz – foto de Márcio Baptista

Participaram nas operações, 97 operacionais e 37 viaturas, estando envolvidas várias entidades, desde a Câmara Municipal, aos Corpos de Bombeiros de Silves e Messines, as Juntas de Freguesia, a Cruz Vermelha Portuguesa (Delegação de Silves/Albufeira), a Guarda Nacional Republicana (GNR) (destacamento territorial e GIPS), a Casa do Povo de São Bartolomeu de Messines e ainda outras entidades privadas que cooperaram com as autoridades.

Ao longo do dia, foram sendo restabelecidas diversas vias de comunicação e procedeu-se à desobstrução de linhas de água, com apoio da Unidade de Máquinas e Viaturas da autarquia e das juntas de freguesia.

As áreas em risco de colapso foram sinalizadas e confinadas, tendo sido feita, ainda, a avaliação e restabelecimento dos sistemas de drenagem, de modo a garantir o maior escoamento possível das águas.

Durante os dias seguintes (segunda e terça-feira) fez-se a análise de riscos e reposição da normalidade, tendo essas intervenções sido coordenadas pelo Serviço Municipal de Proteção Civil e executadas com o apoio da Unidade de Máquinas e Viaturas, equipa de logística, equipas da rede viária, Divisão de Serviços Urbanos e Ambiente e sector de Ação Social.

A presidente da Câmara Rosa Palma acompanhou os trabalhos e visitou alguns dos locais e pessoas mais afetadas.

 

Transcrevemos na íntegra, por ser um relato na primeira pessoa pleno de dramatismo, o post de Luís Direito, uma das vítimas das cheias no concelho de Silves:

«Crónica das cheias em Alcantarilha:

Fomos a um casamento de uma prima no sábado, e domingo regressávamos a casa a ouvir a rádio. Conforme nos aproximávamos, íamos ficando alarmados: “cheias em Albufeira”, “aviso vermelho” etc, etc, etc, mas nunca nos passou pela cabeça as verdadeiras proporções da catástrofe, ou que sequer nos atingiria como atingiu.

Chegámos a Alcantarilha após fortes chuvadas já ao entrar no Algarve, e ainda atravessámos a ponte para chegar a casa, mas, chegados ao outro lado da ribeira, havia muros caídos e em desespero, pois já não conseguíamos voltar para trás, dado que a água subia rapidamente, ligámos para bombeiros, GNR, Proteção Civil, mas nada, ninguém apareceu, e a GNR não tinha viaturas para poder atravessar e nos ir ajudar, pelo que ficaram em alerta e iam-nos contactando de vez em quando.

A única solução era abrir caminho até casa e eu e a Vi tivemos que arregaçar as mangas e remover as pedras do caminho (algumas com mais de 80-90kg) durante quase uma hora, até que conseguimos passar e chegar a casa, onde tudo estava normal para nosso alívio. Apercebemo-nos, no entanto, das fortes chuvadas que houve, pela marca de 40 cm do lixo trazido pela enxurrada e que estava bem marcada no portão.

No entanto, a água continuava a subir e, mais tarde, resolvi ir comprar pão e espreitar a ponte que sempre foi a nossa referência para o nível das cheias, mas mesmo no velhinho 4×4, já não consegui atravessar a ponte, pelo que tive que regressar a casa e esperar e rezar para que a água não continuasse a subir, o que foi apenas temporário.

Por volta das 19h00, os diques que separam a quinta da ribeira rebentaram em alguns pontos e, em cerca de 30 minutos, um hectare ficou completamente inundado e chegou aos muros que separam a propriedade da casa, os quais já tinham antes resistido há 10 anos, quando a água ficou a cerca de 15 cm do topo deste muro

Por volta das 19h00, os diques que separam a quinta da ribeira rebentaram em alguns pontos e, em cerca de 30 minutos, cerca de 1 hectare ficou completamente inundado e chegou aos muros que separam a propriedade da casa, os quais já tinham antes resistido há cerca de 10 anos, quando a água ficou a cerca de 15 cm do topo deste muro.

Como já era noite e não me apercebi muito bem se a água continuava a subir ou não, pelo sim pelo não, retirei as viaturas da parte baixa e coloquei-as ao pé da cozinha da casa, onde é cerca de 1,3m mais alto, pois aqui a água nunca chegou, mesmo em templos passados, não havia relatos.

Por volta das 20h15, quando estávamos a comer uma canjinha, ouvimos um estrondo enorme, deduzimos logo que o muro não tinha resistido e foi o desespero total. Fomos ver e era uma enxurrada de água e lama a vir na nossa direção. Fomos para a sala e retirámos o que pudemos o mais rapidamente possível e o que não pudemos, colocamos em cima dos móveis.

Ficámos sem luz e foi uma sorte, pois nem nos lembrámos que, ao estar na sala já semi-inundada, podíamos ter sido eletrocutados. Mas a água gelada e o desespero foi demasiado e ficámos impotentes na cozinha a ver a água invadir a sala e destruir tudo, os móveis a flutuarem e a virarem-se, enfim é indescritível.

Mas o que parecia muito pouco provável aconteceu, apesar de todas as precauções que tomámos no passado de reforçar diques, arranjar muros, limpar ribeira (que mais nenhum vizinho nem ninguém se preocupa em limpar e manter desassoreado, mas que vai mudar, ou eu não me chamo Luís Direito), etc, etc, etc.

Nesta altura, tudo me passava pela cabeça a uma velocidade vertiginosa e a prioridade era acalmar e ir dormir, pois já não havia nada a fazer, pois agora nem as viaturas conseguiam sair de casa, dado que a água chegava quase até ao portão e mesmo o 4×4 iria ser difícil passar nos caminhos já impraticáveis e destruídos pela enxurrada.

Moro em Pêra e a minha casa dista apenas 800 m até ao centro de Alcantarilha e ao outro lado da ponte, mas não tenho água pública, a iluminação pública apenas este ano chegou à minha porta (por muita insistência e persistência do Presidente da Junta, o Sr. João Palma), não há esgotos públicos, não há recolha de lixo, não há carteiro, e apesar de haver quatro caminhos, num deles nem a pé se passa, noutro só de 4×4, o da ponte e que usamos todos os dias, quando chove um pouco mais, fica inutilizado, e um 4º, que é privado e que apesar de terem que manter aberto porque sempre deu serventia a quem mora nesta zona, os proprietários resolveram fechar.

Por isso, estamos isolados a 800 m da civilização e porque somos apenas 3 famílias a viver neste paraíso/inferno, pouco há a fazer, caso não haja verdadeira vontade política.

Isto estava muito feio, só vos digo, já me vi em grandes apertos e sempre me consegui salvar, mas foi sozinho. Agora com pessoas sob a nossa responsabilidade, tudo muda

Como podem perceber, estavam esgotadas as minhas hipóteses de fuga e, se fosse só eu, estava tudo bem, mas temos connosco a minha sogra, que mal anda devido a uma queda no sábado e sofre de Alzheimer, por isso em desespero por elas e por cautela, pois a água continuava a subir, resolvi ligar ao meu amigo, o José Marques, ex-presidente da junta de Pêra e que por milagre se encontrava com o Presidente da Junta, o Sr. João Palma, e que sabiam do que se passava em Albufeira e noutras zonas, onde andavam todos os Bombeiros e Proteção Civil, mas que me iam colocar ao corrente para saber se ia progredir, ou começar a baixar as águas.

Isto estava muito feio, só vos digo, já me vi em grandes apertos e sempre me consegui salvar, mas foi sozinho. Agora com pessoas sob a nossa responsabilidade, tudo muda.

O José Marques e o João Palma ligaram à Senhora Presidente da Câmara e conseguiram alertar a Proteção Civil e os Bombeiros e não estiveram com contemplações e vieram por um caminho muitíssimo mau resgatar-nos.

Já estávamos todos na cama e a minha sogra tinha tomado comprimidos para dormir e analgésicos por causa da perna, quando me liga o José Marques a dizer que estavam a chegar, vindos não sei por onde.

Vesti-me à pressa e debaixo de forte chuva fui ver o caminho até ao portão e resolvi cortar uma vedação e arrancar pilares bem cravados no chão, quando chegou a comitiva de Bombeiros e a carrinha da Junta de Freguesia.

Levaram-nos todos e eu consegui tirar o 4×4 por esse caminho improvisado (e onde quase se voltava, mas apesar de tudo portou-se muito bem). Fui o último a sair e nem sabia muito bem por onde ir, mas cerca de 300 m à frente estavam à minha espera, eram 22h45 da noite e fomos para um Hostel em Messines.

Mais uma vez na minha vida fui desalojado, a última tinha sido em 1975, em 25 de Setembro, fez agora 40 anos, quando tivemos que abandonar tudo em Angola e regressar sem nada a Portugal.

Sempre tive noção do que é perder alguma coisa, e sempre nos erguemos, mas vai ficando cada vez mais difícil e complicado, não é fácil.

Ainda na Junta de Freguesia onde a Proteção Civil nos foi recolher, dei os telemóveis dos vizinhos, a família Prates e do casal de ingleses Jon, todos idosos. E se os primeiros nem ouviram ninguém a chamá-los, os segundos estavam já completamente isolados e sem qualquer possibilidade de resgate por terra, tanta era a água e todos fugiram para os 1ºs andares das suas habitações. Perderam tudo o que tinham ao nível do R/ch e morreram muitos animais dos Prates.

Estava sem eletricidade, o poço estava coberto de água inquinada, lixo por todo o lado, enfim tudo estragado e destruído, exceto o carro e a mota que, na noite anterior, tinha colocado no ponto mais alto, por detrás da casa, e os quartos no primeiro andar, onde ficaram os espertos Mingas e Gris, os nosso gatos valentes

No dia seguinte de manhã, regressei a casa, pelo mesmo caminho tortuoso de fuga na noite anterior, ainda não conseguia ir até à casa. Ao chegar à zona alta da cozinha, vi que a água ainda teve a ousadia de entrar 30 cm acima do nível da cozinha.

Estava sem eletricidade, o poço estava coberto de água inquinada, lixo por todo o lado, enfim tudo estragado e destruído, exceto o carro e a mota que, na noite anterior, tinha colocado no ponto mais alto, por detrás da casa, e os quartos no primeiro andar, onde ficaram os espertos Mingas e Gris, os nosso gatos valentes.

Agora vai ser deitar tudo ao lixo, aproveitar o pouco que se pode, ver se consigo tirar a água do poço para, pelo menos, ter água boa para consumo da casa, pois, para beber e cozinhar, usamos sempre água engarrafada há 15 anos.

Agradeço ao José Marques e ao João Palma terem feito tudo para nos salvar e à Presidente da Câmara de Silves por se ter preocupado e nos ter vindo visitar e visto com os próprios olhos a calamidade e disponibilizado ajuda da Câmara, se precisarmos, assim como aos bravos Bombeiros, que foram incansáveis nessa noite, e aos membros da Proteção Civil, que sempre nos acompanharam e apoiaram em tudo, à Rita e ao Orlando, que ontem “apenas” nos apareceram à porta sem avisar, munidos de galochas, vassouras e esfregonas, e muita motivação, e à Cristina, que também veio de transportes públicos desde Portimão, assim como aos meus colegas e amigos, que não param de ligar a disponibilizarem ajuda e alojamento.

Um abraço muito especial à Paula e o Toni, que apesar de estarem do outro lado do planeta, em Moçambique, me ligaram ainda eu estava meio ensonado em Messines, a disponibilizarem a casa e ajuda no que fosse possível. Temos muitos e bons amigos.

Daqui a pouco, vem a perita do seguro, ver o que pode fazer para nos dar o menos possível por toda esta desgraça».

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