Peças de joalharia contemporânea feitas no Algarve inspiram projeto inovador

São peças de joalharia, mas também obras de arte, com design de autor, pensadas como esculturas que se consigam destacar […]

Sessão Fotográfica Corpo Restrito_1São peças de joalharia, mas também obras de arte, com design de autor, pensadas como esculturas que se consigam destacar dos corpos dos modelos que as usarão e assumam o protagonismo.

O projeto «Corpo Restrito», inédito em Portugal, junta dois mundos que nem sempre se unem, mas que têm muito em comum. O resultado desta fusão vai ser dado a conhecer, em primeira mão, no dia 3 de outubro, no Foyer do Teatro das Figuras, às 21h30.

«A joalharia é uma forma de escultura, seja que tamanho tiver. Ela é tridimensional. O que quisemos fazer foi peças de joalharia de grandes dimensões, que interviessem sobre o corpo. Inicialmente pensei convidar apenas joalheiros, mas, como não há assim tantos no Algarve, alarguei o leque a escultores, cenógrafos e outros artistas plásticos», revelou ao Sul Informação o mestre joalheiro Filomeno Pereira de Sousa, mentor deste projeto. O repto foi aceite por 20 artistas, que criaram 25 peças.

Ao mesmo tempo, foi pedido ao conceituado fotógrafo algarvio Vasco Célio que fizesse uma recolha de imagens de todas as peças do «Corpo Restrito», que serão o objeto de uma mostra que irá estar em diferentes pontos do Algarve, a partir de 11 de outubro, e que, eventualmente, servirão de base a um catálogo.

A exposição conta com 25 imagens e já tem passagem garantida no Palácio do Tenente, em Faro (11 e 18 de outubro), nas Ruínas de Milreu, em Estoi (23 de outubro a 29 de novembro), e no Museu do Trajo de São Brás de Alportel (11 de dezembro a março de 2015).

Vasco Célio_1Será pelas imagens que a maioria das pessoas terá a oportunidade de conhecer estas peças. A única vez que elas serão mostradas ao vivo e em modelos será no evento de dia 3 de outubro.

Aqui, os modelos serão «pessoas que não são profissionais, rostos da sociedade farense, do dia a dia», que vão circular entre os convidados, «conversar com eles e explicar as peças que usam», revelou Filomeno de Sousa.

Todas as pessoas envolvidas neste projeto, incluindo toda a equipa artística e de produção, estão a colaborar pro bono, ou seja, de forma totalmente gratuita. Ao mesmo tempo, têm surgido «inúmeros apoiantes», entre entidades públicas, empresas e pessoas a nível individual.

«Quando começamos a falar deste projeto, as pessoas ficaram entusiasmadas e muitas portas se abriram», revelou Filomeno de Sousa.

 

No «Corpo Restrito» a arte sobrepõem-se à preciosidade dos materiais

Sessão Fotográfica Corpo Restrito_3O projeto «Corpo Restrito» tem várias regras, mas nenhuma delas restringe a escolha de materiais e opções artísticas, por parte dos criadores, já que «é permitido qualquer material e qualquer técnica».

«As pessoas, quando se fala em joalharia, às vezes confundem e associam o uso de materiais nobres: ouro, prata e pedras preciosas. Esse conceito pode ainda existir para algumas pessoas, mas na joalharia contemporânea de autor, que existe há 40 anos, a preciosidade não está nos materiais, mas na qualidade artística da peça, tal como na escultura ou na pintura», disse.

Das peças criadas no âmbito deste projeto, há algumas em prata e em bronze, «mas também há plástico e tecido». «Além disso, por serem peças de grande dimensão, era impossível fazê-las apenas em materiais nobres. E não é só pelo custo. O ouro tem uma densidade muito grande e uma peça neste material podia pesar mais de um quilo, o que não seria muito confortável», disse, a rir.

No campo do que é obrigatório, Filomeno de Sousa pediu aos criadores que as peças sejam de grandes dimensões e que «tenham formas que se projetem para fora do corpo». «Também não era permitido usar materiais e formas já identificados e as peças também não poderiam ter aparência artesanal. Ou seja, teriam de ser peças de design, depuradas, altivas e elegantes», revelou.

 

Uma experiência «única e invulgar»

Filomeno Pereira de Sousa«No Algarve, nunca houve nada deste tipo, mas também estou à altura de afirmar que nunca se fez algo igual noutro ponto do país. É claro que já houve desfiles de joias, mas são joias comerciais, de pequena dimensão, que muitas vezes não se conseguem ver bem, no desfile. Aqui, não, são peças de grande dimensão», disse Filomeno de Sousa.

Esta é, assim, «uma experiência única e invulgar», onde «não é o corpo que transporta a joia, mas a joia que intervém, sobrepõe e conduz o corpo».

A escolha do local para mostrar ao vivo as peças criadas não foi simples. «Houve várias sugestões. Em Faro, há vários claustros que, certamente, seriam um bom cenário. Mas eu sempre imaginei uma sala mais límpida e aberta, e o Foyer do Teatro corresponde a isso.

«Tudo começa porque eu tenho experiência em joalharia há 40 anos e dou aulas há 34. Já tive uma escola em lisboa e no Porto e abri, há cerca de ano e meio, um pequeno workshop, em Faro», revelou Filomeno Pereira de Sousa.

«Em convívio com os meus alunos, surgiu a ideia de fazermos peças de grandes dimensões. Este é um trabalho que eu já tinha feito anos 80, que já eram feitas antes por outros joalheiros e, às vezes, voltam a aparecer», acrescentou.

 

Fotografias dão a ideia «que o manequim é que é o acessório da peça»

Vasco Célio_2O Sul Informação esteve com o mentor do projeto e com o fotógrafo Vasco Célio numa sessão de fotografia, onde viu algumas das peças já criadas e assistiu ao trabalho do fotógrafo algarvio.

«O Filomeno quis fazer um conjunto de imagens que fossem o estandarte deste projeto. Foi-me dada a liberdade total para fazer o que eu quisesse, desde que as peças fossem bem visíveis. Ou seja, isto não é para mostrar as peças, como se tratasse de um catálogo, como é típico, mas sim algo mais criativo e artístico», explicou Vasco Célio.

«Este registo fotográfico será aquilo que ficará guardado e aquilo a que as pessoas que não possam ir ao desfile terão acesso. Criámos alguns conceitos e houve várias ideias. Por questões logísticas, decidimos fazer as sessões todas em estúdio, com uma iluminação muito específica que eu criei, para dar a ideia que o manequim é que é o acessório da peça», explicou.

Um trabalho de precisão e paciência, em que o mais pequeno pormenor conta. Até porque estas fotos serão, mais tarde, impressas «num suporte nobre, durável e de grandes dimensões». «Queremos que o confronto com quem vir a peça na exposição seja quase um confronto direto com a peça, em termos dimensionais», acrescentou Vasco Célio.

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