Morreu o Mestre Fernando Rodrigues, o último oleiro de Lagoa

O Mestre Fernando Rodrigues, de 80 anos, o último oleiro tradicional de Lagoa, morreu esta terça-feira à noite, vítima de […]

O Mestre Fernando Rodrigues, de 80 anos, o último oleiro tradicional de Lagoa, morreu esta terça-feira à noite, vítima de problemas cardíacos, na Urgência do Hospital de Portimão.

O Mestre Rodrigues era, desde 1983, o responsável pelo curso de Olaria da Escola de Artes de Lagoa, permitindo manter viva, através das peças que criava na sua roda de oleiro e dos muitos alunos a que ensinou a sua arte, a tradição e as formas de uma atividade que chegou a ser importante na economia do concelho.

Este ano, reconhecendo o seu contributo, a Câmara de Lagoa tinha até promovido uma homenagem para atribuir à Escola de Artes de Lagoa o nome do Mestre Fernando dos Santos Rodrigues.

A família ainda não sabe quando terá lugar o funeral, cuja data e hora será oportunamente informada.

 

Uma vida cheia

Já o seu avô e o seu pai eram oleiros, assim como tios e primos. Por isso, quando Fernando dos Santos Rodrigues nasceu em Lagoa, no dia 25 de Setembro de 1933, o seu destino parecia estar traçado. Fernando havia de ser oleiro, para seguir uma tradição de família e dar continuidade a uma manufatura que era, na altura, uma das mais importantes da então vila.

E assim, aos 10 anos de idade, em 1943, mal acabou a escola primária, Fernando foi aprender aquela arte tradicional com o pai, o Mestre Gregório Rodrigues, dono de uma das mais movimentadas olarias de Lagoa.

Fernando tinha sido muito bom aluno na escola primária, tendo como professora a D. Bárbara, e chegou a fazer o exame de admissão ao liceu, que passou. Mas, para grande desgosto dele próprio e da sua professora, o pai não o deixou prosseguir os estudos. Os tempos eram difíceis e a ajuda de um filho era preciosa, nesses tempos. E o Fernando, em vez de ir para o liceu estudar, foi trabalhar na oficina do seu pai, o Mestre Gregório.

Dos seus tempos de juventude, recorda-se das noites de alegria com os irmãos e os pais, passados a cantar e a tocar. O jovem Fernando queria um violino, mas acabaram por lhe oferecer um banjo. E ele lá aprendeu a tocar o banjo.

Nos anos 40 e 50, durante e após a 2ª Guerra Mundial, apesar de Portugal não ter nela participado, a vida era difícil e havia fome. Lagoa era então terra de grandes proprietários agrícolas, que davam trabalho quando queriam e a quem queriam. Por isso, quem tinha um ofício, como o Mestre Gregório, conseguia escapar a este cenário de pobreza. «Na minha casa sempre tivemos o suficiente para comer. E a minha mãe matou a fominha a muita gente», recorda o Mestre Fernando Rodrigues.

Desde os anos 20 que Lagoa era o maior centro oleiro do Algarve. A olaria chegou mesmo a ser a principal indústria do concelho, depois suplantada pela cortiça e sobretudo pelas conservas.

Em Lagoa, recorda o Mestre Rodrigues, chegou a haver mais de 200 pessoas ocupadas com a olaria. «Desde os artistas até às pessoas que apanhavam lenha na serra e a traziam para cá, para vender aos donos das oficinas», recorda. «Todos os dias vinham carradas e carradas de lenha para as olarias e para as padarias. Por isso, nesses tempos, as matas da serra andavam sempre limpinhas e não havia tantos fogos».

Que o Mestre Rodrigues se lembre, no auge, Lagoa chegou a ter uma dúzia de oleiros a trabalhar nas suas oficinas, muitos deles empregando artistas que vieram de outras partes da região, mas sobretudo do Alentejo. «Só na olaria do meu pai chegaram a estar 14 desses artistas do Alentejo a trabalhar».

Na olaria, o jovem Fernando Rodrigues fez de tudo, começando por ser servente do seu pai. Mas depressa se descobriu que o miúdo tinha muito jeito e o pai passou a confiar-lhe o trabalho na roda. Por essa altura, quando tinha para aí uns 14 ou 15 anos, houve uma prima de Lisboa que, atenta à habilidade artística do Fernando, o incentivou a fazer umas peças para serem submetidas à apreciação da Escola de Belas Artes, em Lisboa.

O jovem Fernando tinha um sonho de ir para lá estudar, aperfeiçoando a sua faceta de artista… As peças foram apreciadas, os professores das Belas Artes gostaram muito delas, mas havia um pequeno/grande problema: o Fernando não tinha estudos, só tinha a escola primária, nunca tinha entrado no liceu. E assim caiu por terra o seu sonho…

 

Uma família de oleiros

Nos anos 40, 50 e 60 do século passado, os oleiros «trabalhavam o ano inteiro para vender nas feiras de Verão e de Outono. As feiras de Boliqueime, da Guia, eram as maiores do Algarve», recorda Fernando Rodrigues.

«O meu pai alugava umas carroças puxadas por mulas e íamos correr as feiras. Cada feira durava sete, oito dias. Íamos com os carros de mula carregados de loiça, dormíamos debaixo de umas lonas que faziam de tenda, e assim íamos vendendo a produção de um ano».

E o que vendiam? «Naquele tempo, os utensílios que as pessoas usavam em casa eram todos de barro, de olaria». Panelas, caldeirões, plenganas (para as caldeiradas), parras (para guardar o lombo de porco na banha), penicos, bilhas, tachos, jarros, mealheiros, cabocas, cocos (para os homens levarem a comida para o trabalho) e até brinquedos, que mais não eram senão miniaturas das peças grandes, tudo isso saía da roda dos oleiros.

«Grandes alguidares e vasos de barro vermelho, ainda húmidos da roda, jazem no pavimento exterior, secando ao sol, preparando-se para irem para o forno. Entrámos – foi como pôr um pé diretamente nos tempos medievais – e encontrámo-nos num grande armazém com chão de terra batida. Panelas e vasilhas de barro estavam empilhadas por todo o lado. Perto de um alguidar de barro húmido, um homem vestindo uma bata e umas velhas calças de ganga estava sentado na roda de oleiro, que rodava com um golpe de pé, enquanto fazia um pedaço de terra vermelha subir e florir como uma tulipa entre os seus dedos, até lhe ter dado a forma de um jarro».

Foi assim que, em 1965, o poeta sul-africano David Wright descreveu a olaria de Lagoa, no seu livro «Algarve – A Portrait and a Guide», publicado em Londres e escrito em parceria com o seu amigo e artista irlandês Patrick Swift, que ilustrou o livro na pacatez da sua casa perto da Praia do Carvoeiro.

O oleiro a que o poeta se refere é Mestre Gregório, pai de Fernando Rodrigues. Até aos anos 60 e 70, de facto a olaria haveria de manter as suas características e técnicas de arte milenar.

Nas feiras – que eram os verdadeiros centros comerciais da época -, os camponeses de todo o litoral, do barrocal e da serra vinham abastecer-se do que necessitariam ao longo dos meses seguintes. E compravam carradas de loiça de barro. Quando, nos anos 70, «veio o alumínio, o esmalte e o plástico, começou a dar cabo do negócio das olarias», recorda Mestre Rodrigues. É que alumínio, esmalte, plástico, eram mais duráveis, mais fáceis de limpar e até mais “modernos”.

Nos anos 40, 50 e 60, os mestres oleiros não compravam cores para decorar as suas peças, «porque isso era muito caro». «Antigamente, o que se usava na olaria tradicional, para dar cor às peças, era o sulfato de cobre, que dava o verde claro. Era o mesmo sulfato que se dava nas vinhas. O meu pai comprou depois um amarelo, que era mais caro. E chegou a usar o verde, o azul e o amarelo, para decorar algumas peças», sobretudo as de ir à mesa – taças, chávenas, jarrinhos, canecas. Algumas destas peças de Mestre Gregório ainda hoje existem e podem ser vistas na Escola de Artesanato de Lagoa.

 

Uma carreira militar exemplar

Fernando Rodrigues trabalhou com o pai, na olaria, até 1954, quando fez 19 anos. «Mas era uma vida dura, a olaria já estava a cair na decadência, já não dava para todos», recorda. E por isso, aos 19 anos, Fernando dos Santos Rodrigues resolveu procurar uma vida melhor, entrando no Exército. Entretanto também se casou e teve um filho, e a vida de família exigia outras condições financeiras que a olaria já não lhe podia garantir.

«Entrei como soldado, em Lagos, fui promovido a cabo e furriel», recorda. E a carreira militar levou-o a conhecer esse imenso Portugal de então, da Ásia a África. Entre 1959 e 1961, esteve na Índia, em Goa, de onde guarda muito boas recordações. Saiu de Goa pouco tempo antes da invasão dos então territórios portugueses na Índia, pelo governo da União Indiana.

Em 1961, foi para Moçambique, para a distante Vila Cabral (hoje Lichinga), zona no Norte da província, perto do Lago Niassa, longe de tudo e de todos, uma espécie de fim do mundo quente.

Nessa altura, a sua mulher Maria Isabel e o filho mais novo, José Manuel, foram ter com ele a Vila Cabral. E aí nasceria, em 1963, a sua segunda filha, Isabel Luísa. A família instalada na povoação nem se aperceberia dos perigos que o jovem sargento Rodrigues enfrentava, com os seus homens, no mato, em plena Guerra Colonial…

Em 1964, regressou a Portugal Continental com a família. Logo no ano seguinte, o sargento Rodrigues foi nomeado para a primeira de duas comissões seguidas que fez na Guiné portuguesa. A segunda começou em 1968. Na Guiné, o sargento Rodrigues esteve em Nova Lamego, Bula, Bolama, entre muitos outros lugares. Eram, como sempre diz, «zonas danadas», onde a sua vida esteve muitas vezes em perigo. A Guerra Colonial na Guiné estava ao rubro no final dos anos 60 e o sargento Rodrigues, cuja especialidade era disparador-observador de armas pesadas, esteve nos sítios mais perigosos, sofreu emboscadas, viu muitos camaradas morrer ou ser feridos. Ele, felizmente, voltou são e salvo a Portugal.

Mas logo em 1970 partiu de novo para África, desta vez para Angola, onde ficou até 1974. «Apanhei lá o 25 de Abril», recorda. Em Angola, passou por Cabinda, Mampupa (no sul), Luanda. «Larguei de Luanda debaixo de fogo, mal conseguíamos chegar ao navio que estava fundeado para nos tirar de lá», sublinha.

Dos seus tempos de África, além dos muitos amigos e camaradas que por lá fez, e dos perigos que passou, Fernando Rodrigues lembra-se sobretudo das caçadas. «Ia à caça, mas era para a sobrevivência da companhia. Tive de me armar em caçador, para termos um rancho melhorado», recorda. «Só abatíamos o que era mesmo para comer. Fui nomeado chefe de caça pelo meu comandante». Em Portugal continental, nunca Fernando Rodrigues pegou numa arma para dar um tiro num animal.

Entre as suas comissões em África, nos tempos que passava em Portugal, em Lagoa, com a família, Fernando Rodrigues nunca deixou morrer a sua paixão pela olaria. «Sempre que cá estava ia ajudar o meu pai, fazer peças na roda de oleiro. Sempre tive a ideia de um dia voltar para cá e dedicar-me de novo a esta arte».

Talvez por isso, quando andou lá pelas Áfricas, Fernando Rodrigues fez sempre questão de contactar com as pessoas ligadas ao ramo da cerâmica e da olaria e descobriu tradições oleiras bem diferentes e ao mesmo tempo tão iguais às que conhecia em Portugal Continental.

 

O renascer da Olaria, pela mão dos artistas

Entretanto, nos anos 70, quando a olaria em Lagoa estava moribunda, tinha havido gente de fora que trouxe um novo alento – os artistas plásticos Lima de Freitas, português, e Patrick Swift, irlandês, que tinham casa de férias no concelho, encantaram-se com as formas milenares da cerâmica lagoense e algarvia e, aproveitando o facto de ainda haver pelo menos um mestre a trabalhar, resolveram fundar a Olaria de Porches.

Durante semanas ou mesmo meses, o Mestre Gregório trabalhou em conjunto com Lima de Freitas e Swift para redescobrir, na roda de oleiro, as formas de peças ancestrais. Os dois artistas plásticos, gente viajada e conhecedora da História da Arte europeia, encontravam nas formas das peças que saíam das mãos do já idoso Mestre Gregório origens remotas, provavelmente fenícias, romanas, árabes.

O mestre trabalhou com os dois artistas plásticos na Olaria de Porches durante uns sete, oito anos. Os artistas partiram das suas formas para reinventar decorações, feitas a azul e verde sobre branco, de pássaros, peixes, flores e plantas.

Fernando Rodrigues, nos seus tempos livres entre comissões, também participou nesse trabalho de redescoberta das formas ancestrais da olaria tradicional do Algarve. «Ainda hoje, parte das formas que são usadas na Olaria de Porches têm a ver com o feitio das peças que eu e o meu pai fizemos».

Em 1982, tendo atingido o posto de Sargento-Chefe do Exército, passou à reserva e voltou, de vez, à sua terra natal de Lagoa.

 

O nascimento da Escola de Artes de Lagoa

Nesse mesmo ano, Fernando Rodrigues propôs, ao então presidente da Câmara de Lagoa Abel Santos a criação da Escola de Artesanato, aproveitando as antigas instalações do matadouro, que estavam abandonadas e desaproveitadas.

O presidente Abel Santos acolheu a ideia com agrado e assim surgiu a Escola de Artesanato de Lagoa. O seu pai, Mestre Gregório, que já tinha abandonado a atividade de oleiro, ainda deu alguma ajuda nos primeiros tempos da Escola.

De volta à arte que sempre amou, Fernando Rodrigues dedicou-se a fazer as peças que pertencem à tradição oleira de Lagoa, mas também a criar novas formas. E foi descobrindo e aperfeiçoando as técnicas de decoração. Os peixes, os pássaros, os moinhos, as senhoras montadas em cima de burros, as casas algarvias, os frutos da terra, são os motivos dos seus desenhos nas peças de barro que tem produzido ao longo dos anos, agora dotadas de novas cores e de novas técnicas de pintura e vidrado.

A arte do Mestre Rodrigues foi, assim, caldeando a tradição com a inovação e a criatividade, para resultar num sem número de peças de barro.

Com o presidente da Câmara Jacinto Correia, o Mestre Rodrigues começou a deslocar-se às feiras de todo o país, em representação do concelho de Lagoa, levando as suas peças de olaria e dando a conhecer as riquezas e tradições do município. Ao longo de quase 20 anos, participou inúmeras vezes no Festival de Gastronomia de Santarém, e ainda nas feiras de artesanato da FIL em Lisboa, em Vila Franca de Xira, em Vila do Conde, Batalha, Famalicão e até em Espanha.

Mas onde a sua arte se tornou mais conhecida foi mesmo na Fatacil, em Lagoa, na qual o Mestre Rodrigues participa quase desde a primeira hora, num stand logo à entrada da feira. Durante anos, o pavilhão da Escola de Artesanato de Lagoa tem sido sempre visita obrigatória de primeiros-ministros, ministros e presidentes da República, quase todos agraciados com uma das mais belas peças feitas pelo mestre.

Na Escola de Artesanato, entretanto, as condições têm sido melhoradas ao longo dos anos. As peças já não são cozidas em forno a lenha, como na olaria do velho Mestre Gregório, mas em forno elétrico. Mas, durante muito tempo o barro continuou a ser amassado à mão e ainda hoje as peças continuam a ser feitas na roda, impulsionada a golpe de pé.

Mestre Fernando Rodrigues recorda com especial atenção os melhoramentos que a Câmara de Lagoa fez na Escola de Artesanato, coordenados pelo então vereador da Cultura Francisco Martins, hoje presidente da Câmara de Lagoa, e pelo Paulo Paias. E saúda também a compra de uma máquina elétrica para amassar o barro, porque hoje já não há quem faça esse cansativo trabalho manual e ele próprio já não tem saúde para o fazer.

Na Fatacil, Mestre Fernando Rodrigues contou, ao longo dos anos, com a ajuda preciosa do seu sobrinho Jorge e dos seus netos: primeiro o Nuno Miguel, o mais velho, depois o André e até a Carolina. E nas edições mais recentes, contou também com a colaboração preciosa dos seus alunos na Escola de Artesanato.

Na Escola de Artesanato de Lagoa, o Mestre Fernando Rodrigues deu formação profissional durante dois anos. Foi depois professor da Área Tecnológica/Olaria na Escola Secundária Padre António Martins de Oliveira, em Lagoa, durante outros três anos.

Desde 1990 que ministra cursos de olaria na Escola de Artesanato, tendo já ensinado a sua arte, tanto no que diz respeito ao trabalho de preparação e moldagem do barro na roda, como de pintura das peças, a largas centenas de pessoas, de todas as idades, profissões e nacionalidades.

Alguns desses seus alunos – não tantos como o Mestre Rodrigues gostaria… – dedicaram-se à olaria, noutras partes do Algarve e do país.

«Tenho alunos de todas as idades, portugueses e estrangeiros. São pessoas que andam aqui por gosto, para aprender esta arte que não pode morrer. E tenho aqui já verdadeiros artistas!», exclama, com orgulho de professor.

Em Janeiro de 2011, a Junta de Freguesia de Lagoa, então liderada por Francisco Martins, hoje presidente da Câmara, homenageou o Mestre Fernando Rodrigues, numa comovente cerimónia que juntou centenas de pessoas no Auditório Municipal.

Em Abril passado, foi a vez de a Câmara de Lagoa, por iniciativa do seu então presidente José Inácio Eduardo, lhe prestar homenagem, atribuindo o nome do Mestre Rodrigues à Escola de Artes de Lagoa.

Até há poucos dias, apesar de a saúde já estar debilitada, o Mestre Fernando Rodrigues continuou a fazer as suas peças na roda, a pintá-las e a cozê-las no forno. E continuou, sobretudo, a dar aulas, duas vezes por semana, às quartas-feiras e aos sábados, na Escola Municipal de Artesanato de Lagoa, a cerca de duas dezenas de alunos. E garantia que, enquanto tivesse forças, continuaria a meter as mãos no barro, para dele fazer sair peças que encerram milhares de anos de história e tradição, passadas de geração em geração.

Faleceu esta terça-feira, dia 29 de outubro, vítima de problemas cardíacos, no Hospital de Portimão.

 

Nota: a biografia do Mestre Rodrigues foi escrita em 2011, pela jornalista Elisabete Rodrigues, diretora do Sul Informação, de quem ele era sogro.

 

 

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