Para atrair certos mercados já não chega usar a bandeira do Turismo de Sol e Mar

Rui Leão Martinho, Bastonário da Ordem dos Economistas, esteve no Algarve para o lançamento da futura Delegação Regional da OE, […]

Rui Leão Martinho, Bastonário da Ordem dos Economistas, esteve no Algarve para o lançamento da futura Delegação Regional da OE, que terá sede em Faro. O Sul Informação, que assinou um protocolo de cooperação com a Ordem dos Economistas, falou com o seu bastonário sobre as expectativas e sobre a situação económica do Algarve, em especial da sua maior indústria, o Turismo.

Sul Informação – Que expectativas tem em relação a esta Delegação Regional?

Rui Leão Martinho – Esta é a quarta delegação que temos em termos regionais e a expectativa é que, com a adesão que eu aqui vi, com o entusiasmo dos seus promotores, com a juventude que eles próprios têm e a capacidade de realizar algumas atividades, algumas delas aqui anunciadas – como os protocolos com os media – esta seja uma delegação bastante dinâmica e que, com o seu trabalho, ajude a sede, que está em Lisboa.
Nós temos isso com delegações regionais na Madeira, nos Açores e no Norte, faltava-nos precisamente esta delegação do Sul/Algarve. Porque este número de 200 inscritos [na Ordem no Algarve] não é despiciendo em relação ao número geral de economistas existentes no país. Agora há é que promover atividades de relevo, para que as pessoas se motivem a inscrever-se e a pagar uma quota para virem assistir a essas atividades.
É uma questão de tempo o desenvolvimento desta delegação regional, que está aqui no centro, em Faro, num local ótimo para poder albergar os colegas do Algarve, como também os colegas que estão no sul do Alentejo. Se houver aqui atividades de muito interesse, também eles virão aqui a Faro, para um debate, para uma conversa, para poderem ficar atualizados e intervirem na discussão.

SI – O Algarve atravessa uma grave crise, com reflexos muito acentuados nomeadamente no emprego. Diz-se que é porque o Algarve apostou demasiado e quase só no Turismo. Como Bastonário da Ordem dos Economistas, acha que foi esse o erro do Algarve?

RLM – Não. A questão do desemprego é hoje uma questão global. Primeiro a nível europeu e depois a nível de Portugal, no seu todo. Poderá haver bolsas onde o desemprego é mais gravoso, mas não podemos analisar a questão com os mesmos critérios de há alguns anos.
O Algarve ou a Madeira, por exemplo, apostaram no Turismo e fizeram bem. O Turismo é o produto que nós mais exportamos, é um produto muito importante em termos de geração de receitas. Ainda no ano passado, mesmo com a crise, as estatísticas surpreenderam-nos com um número maior de visitantes a Portugal. A competirmos com tantos países, todos a terem as suas características de aliciamento, de motivação para que os turistas vão, conseguir em Portugal manter estes níveis é elogioso. É elogioso para aquilo que fazemos. Continuamos a ter clientes de Sol e Mar, como temos clientes para os desportos, para golfe, e vamos ter para conferências, para turismo de saúde e de terceira idade. Temos que desenvolver mais esta área, com condições fiscais específicas e condições legais de sustentabilidade, para que, quem compra, saiba que, durante um período longo, de 15 ou 20 anos, não são alteradas as condições de impostos, de tudo aquilo que tem a pagar no país em que vai fazer o seu investimento.
A aposta no Turismo não foi má, e o desemprego em Portugal tem que se conjugar com as questões do desemprego em toda a União Europeia. Em primeiro lugar, em Portugal temos que tomar medidas – e penso que já o estamos a fazer – para tentar tornar menos dramática a vida daqueles que já estão desempregados. Mas isso não é suficiente. Para criar emprego, temos que tomar rapidamente medidas de estímulo – que passam por licenciamentos rápidos, justiça a funcionar, quadro legal sustentável para atrair investimento direto, seja de estrangeiros, seja de portugueses com sucesso que estão lá fora. São esses novos investimentos que irão criar postos de trabalho.
Mas tudo isto leva o seu tempo. E estamos numa conjuntura que em Portugal é de austeridade, mas numa União Europeia que está no mesmo tipo de conjuntura, o que não nos ajuda. Haverá um tempo durante o qual esta situação é difícil de alterar, mas há a expectativa de que, a médio prazo – embora para quem está desempregado o médio prazo seja sempre um drama – seja alterada esta situação e que tenhamos um novo período, que nunca será de pleno emprego, mas durante o qual as pessoas desempregadas diminuam.

SI – Mas não há que reorientar a estratégia económica do Algarve?

RLM – Do Algarve e do país, toda! Não foi ingenuamente que falei que o Turismo tem muitas diversidades e muitas nuances. Continua a haver razão para fazermos a apologia do Sol e Mar como nossa bandeira turística, para uns, mas para outros isso já não chega. Para esses outros, será o Desporto, a Saúde…

SI – Poderá ser também a Economia do Mar?

RLM – Sim, a Economia do Mar. Ainda agora vim da Madeira e todo o tema da conferência anual que a Ordem dos Economistas lá promoveu foi a Economia do Mar. Não imagina a quantidade de capacidades que o mar oferece, desde aquelas que necessitam de investimentos muito modestos e que, portanto, os portugueses poderão promover sem grande esforço, desde que tenham capacidade e motivação para as levar a cabo, até aquelas de exploração do fundo do mar, onde nós se calhar precisamos de fazer alguma cooperação, alguma aliança, alguma joint-venture, com os estrangeiros que são especialistas nessas áreas, como os noruegueses, os canadianos. Mas tudo isso é uma parte que precisamos de explorar mais.
Mas da conjugação de tudo isso é que há-de haver um resultado final de crescimento não só do fluxo turístico, mas também do emprego que possa crescer com ele. Até lá, não devemos baixar os braços, porque, como eu dizia no início, o facto de estarmos a ser procurados por cada vez mais turistas significa que Portugal não tem tido, afinal, uma política tão má, porque consegue captar à mesma exércitos de turistas, que, por um dia, por uma semana, pelo tempo que for, vêm a Portugal e muitas vezes voltam mais do que uma vez.
O Turismo é para nós o acarinharmos, para fazermos ainda mais a sua exploração, nomeadamente das vias que ainda não estão devidamente exploradas. Mas não acabar, de maneira nenhuma, com o Turismo, que é a principal receita que temos em Portugal todo e muito particularmente no Algarve.

 

Entrevista de: Elisabete Rodrigues e Hugo Rodrigues

Veja aqui todas as fotos da sessão de apresentação da Delegação Regional da Ordem dos Economistas.

 

 

 

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