Há um «Fado» que nos une no romance de um novo escritor

«Fado», o primeiro romance de Napoleão Mira, vai ser apresentado este sábado, às 18h00, na Casa Manuel Teixeira Gomes, em […]

«Fado», o primeiro romance de Napoleão Mira, vai ser apresentado este sábado, às 18h00, na Casa Manuel Teixeira Gomes, em Portimão.

O livro, que começa no dia, em 1966, em que Portugal venceu a Coreia do Norte no Mundial de Futebol de Londres, com quatro golos de Eusébio, conta uma história que poucas vezes tem sido contada: a desses milhares e milhares de portugueses que foram obrigados a emigrar a salto para França, em busca de uma vida que o seu país lhes negava.

Napoleão Mira, alentejano de Entradas, nascido em 1956, vive no Algarve, no concelho de Lagoa desde 1983. Mas o seu livro é passado numa aldeia num vale da Serra do Marão, em Trás-os-Montes, ou antes, parte de lá.

«Levei um ano a escrever este livro e comecei a escrevê-lo de trás para a frente. Escrevi a frase final, depois surgiu o título e só depois gerei o conteúdo e nasceram as personagens», explica Napoleão Mira.

Apesar de este ser o seu primeiro romance, não se pense que o autor é novato na escrita. Sendo empresário na área do turismo, Napoleão já foi diretor e editor de uma revista na sua terra natal de Entradas («O Trigueirão»), continua a colaborar numa série de jornais e revistas como colunista, mantém há anos um blogue (www.pulanito.blogspot.com) e no ano passado publicou um livro com a compilação das suas melhores crónicas («Ao Sul»).

Na música, criou «Pratica(mente)» e «Slides – Retratos da Cidade Branca», para o disco «Pratica(mente)», de Sam the Kid, que é seu filho (a criatividade corre nas veias da família, está visto). Participou com o tema «Subúrbio» no disco «Eu e os Meus» de Dino&The Soulmotion. Integrou o projeto de Hip Hop Pessoa por altura do 120º aniversário do nascimento de Fernando Pessoa, recriando e dizendo «Tabacaria».

Em parceria com Sam the Kid, criou e interpretou, para o primeiro Festival Silêncio!, o espetáculo «Palavras Nossas».

Recentemente participou nos trabalhos discográficos da banda Orelha Negra e no esperado CD de Sir Scratch a editar neste ano de 2012.

Apesar de toda esta criatividade, Napoleão Mira confessa: «não tenho escola, não sei como se faz um romance». «Fiz este romance como sentia que tinha que ser, com um ritmo de escrita que é fruto da minha teimosia e da minha sede de conhecimento. Fiz isto por pura intuição».

Napoleão explica que é um «escritor emocional» e não tanto «um escritor disciplinado», daqueles que todos os dias dedicam x tempo à escrita. «Da minha experiência, já percebi que para mim é melhor escrever de manhã, é melhor no inverno e escrevo essencialmente no Alentejo, na casa que tenho em Entradas».

Quanto ao ritmo de escrita, fazendo jus à sua faceta «emocional», o capítulo III deste «Fado», que é o seu preferido em todo o livro, saiu-lhe «de jorro». «Sentei-me a escrever e só me levantei quando o acabei». «Os outros nem por isso». Lendo este capítulo III percebe-se porque é que o autor o considera o seu preferido e até porque lhe saiu assim, torrencial.

Como bom alentejano que é, Napoleão explica que «um romance não pode ser escrito na pressa da publicação. Tem que amadurecer, ser degustado, para que produto final seja interessante para o leitor. Dei o tempo certo, à narrativa, às personagens e a mim próprio».

A história deste «Fado» é, então, a história desses portugueses que foram “a salto” para França, engrossando os sórdidos bidonvilles dos arredores de Paris. «É uma homenagem que eu faço a uma gente que, de algum modo, começa a estar no esquecimento», explica o escritor. «Faço-o porque eles foram verdadeiros heróis. Nos anos 60, entre 1962 e 1968, saíram de Portugal 700 mil pessoas. Foi um êxodo migratório que levou muitos dos melhores braços de Portugal».

E porquê? «Porque é que tenho de atravessar a fronteira assim, clandestinamente, sujeito a ser morto ou preso? Esta é uma pergunta a que uma das personagens, um dissidente político que se junta ao grupo de emigrantes, vai responder».

Para escrever este livro, Napoleão Mira fez muita pesquisa, consultou arquivos, falou com pessoas, calcorreou lugares. E descobriu que em 1966, quando se passa a sua história, atravessar a fronteira a salto custava 12 contos, o que era uma fortuna. «Com 48 contos, comprava-se um carro, um Mini. Passando quatro gajos a salto, os engajadores ganhavam para comprar um carro».

Mas, «paradoxalmente, a emigração legal – que era possível – custava mais dinheiro: em espera, em papelada, em viagens e deslocações a Lisboa necessárias, em desgaste».

«Essa era a intenção de Salazar. Não queria que as pessoas emigrassem para manter o preço baixo da mão-de-obra em Portugal e para evitar que lá de fora viessem ideias esquisitas».

E porquê escolher Trás-os-Montes para esta sua história? «Para dar dimensão territorial à minha escrita, mas sobretudo porque Trás-os-Montes e as Beiras foram os mais sacrificados por esta debandada».

«Fado», como não podia deixar de ser a um romance que quer prender a atenção dos leitores, inclui até uma história bonita de amor, entre o casal de protagonistas – os jovens Amália e José, filhos de duas famílias rivais de uma pequena aldeia nas faldas do Marão. «Aqui trata-se de fado, sina, condição, desígnio, destino. Mas também temos o fado enquanto música», ou não fosse esta uma história sobre portugueses longe da sua terra.

Por isso, o romance até inclui como personagem a outra Amália, a grande diva do fado. «É curioso como é que o fado é fator de união entre as pessoas que vivem fora de Portugal».

Contando o seu livro a história dos que partem, será que Napoleão Mira sente que há um paralelismo entre esses dolorosos anos 60 do século XX e os tempos atuais? «Existe total paralelismo! As razões para partir são basicamente as mesmas: ir à procura de uma vida melhor que o país não consegue oferecer». Mas há também diferenças: «antes o ditador não queria que as pessoas saíssem, agora elas são praticamente empurradas». E também é diferente «o perfil de quem emigra: antes eram os indiferenciados, hoje são os licenciados e doutorados que partem primeiro». «É preocupante o desbaratar do património intelectual e científico do país. Os regimes costumam apodrecer por aí», avisa Napoleão Mira.

O romance «Fado» é daqueles livros que se leem de um só fôlego. Napoleão Mira editou-o através da sua própria editora. Tem andado a apresentá-lo, para já apenas no Sul do país (Castro Verde, Moura, Casa do Alentejo em Lisboa, Palmela). Hoje, às 18 horas, será a vez de Portimão, seguindo-se, no dia 31 de maio a Feira do Livro de Lagoa, e a 1 de junho Ourique. Nestas apresentações, Napoleão Mira tem contado com a presença de muitos dos seus amigos, desde os mais anónimos até alguns bem mais conhecidos, como Tim dos Xutos e Pontapés ou Manuel Faria dos Trovante.

O livro custa 14 euros, pode ser comprado através do seu blogue, enviando um email para napoleaomira@gmail.com, ou mesmo através da maior livraria online do mundo, a Amazon. No seu blogue há ainda uma lista de locais onde o livro pode ser adquirido diretamente. Quanto às livrarias portuguesas, atualmente nas mãos de grandes grupos, pouco ou nada se interessam por autores emergentes. Mas Napoleão Mira não está preocupado com isso. E espera, em breve, poder ir a Trás-os-Montes, lançar o livro lá onde a sua história nasceu.

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