Visita de Óscar Carmona ao Algarve em fevereiro de 1932: a viagem entre Lisboa, Ferreira do Alentejo e Faro

Os dias que antecederam a chegada do Presidente Carmona à região foram vividos com azáfama pelas entidades algarvias. A 7 […]

Os dias que antecederam a chegada do Presidente Carmona à região foram vividos com azáfama pelas entidades algarvias. A 7 de fevereiro de 1932, o periódico “O Algarve” noticiava a ida do governador civil, capitão João Carlos Mendonça, a Lisboa, a fim de tratar com o governo do programa definitivo de tão eminente visita.

 

A 11 de fevereiro, segundo “O Século”, reuniam-se em Faro todos os autarcas algarvios para acertarem os últimos pormenores de uma viagem que se pretendia triunfal.

Simultaneamente uma comissão de senhoras farenses (composta por D. Maria Mendes, Ramalho Ortigão, Gama Pinto, Cochado Martins e Glória, e D. Ana Bívar Cúmano), resolveu “solenizar a vinda do chefe de Estado”, promovendo a realização de um baile no Club Farense.

Na capital algarvia, ultimavam-se os melhoramentos no Departamento Marítimo do Sul (onde ficaria hospedado o Presidente), e as ornamentações das casernas no quartel de Caçadores 4. Simultaneamente a cidade embelezava-se, o jardim Manuel Bívar ostentava uma vistosa iluminação, assim como as fachadas dos paços do concelho e do Governo Civil, entre outros edifícios públicos.

Para a noite de 15 de fevereiro, estava prevista a atuação de quatro bandas de música e a queima de fogo-de-artifício. De Lisboa, e para engrandecer o acontecimento, foram enviados, a pedido do governador civil de Faro, dois hidroaviões.

A viagem presidencial, em si, principiou às 8h45 do dia 15 de fevereiro, quando o Presidente da República entrou no vapor “Évora”, embandeirado em arco, no Terreiro do Paço. A comitiva era composta, segundo o “Diário de Notícias” (DN), pelo chefe de Estado, presidente do Ministério, ministros da Guerra, Marinha, Justiça e Comércio, e Intendente Geral da Polícia.

Ao atravessar o Tejo, os navios de guerra que aí se encontravam, cruzador “Vasco da Gama”, fragata “D. Fernando” e navio escola “Sagres”, deram as salvas do estilo.

No Barreiro, o Presidente era aguardado pelas diversas autoridades do concelho, do distrito (de Setúbal) e também por uma enorme multidão de populares, os quais à chegada do Presidente levantaram «vivas» à República, à Pátria, ao chefe de Estado, entre outras.

Pelas 9h35, o comboio presidencial soltou o silvo da partida. A viagem era agora terrestre e a próxima paragem Ermidas-Sado. Nesta gare, onde a comitiva chegou próximo do meio-dia, era o presidente aguardado pelos governadores civis de Beja e Faro, outras autoridades civis e militares de Ferreira do Alentejo, Santiago do Cacém e Beja, bem como muito povo, que prestou uma calorosa ovação.

À chegada, uma banda filarmónica tocou o hino nacional e formou-se uma guarda de honra na gare.

O Presidente abandonou então o comboio presidencial, que seguiu rumo a Almancil- Nexe (juntamente com parte da comitiva), e viajou em automóvel para Ferreira do Alentejo, num cortejo de mais de quarenta veículos, segundo relato de “O Século” (cerca de metade, para o DN).

O objetivo era a inauguração da ponte sobre a Ribeira do Roxo, na atual EN n.º2, e com ela a conclusão da ligação por estrada do Algarve com o resto do país.

Ainda em Ermidas e à passagem pela escola, “as crianças formadas junto do edifício saudaram o chefe de Estado. À frente seguiam os bombeiros de Beja.”

Em Ferreira do Alentejo, era a comitiva aguardada por numerosa multidão, a qual recebeu os ilustres visitantes com foguetes, flores que atiravam aos carros e muitos vivas à Pátria, à República e à Ditadura.

Na Câmara Municipal, “realizou-se uma sessão de boas vindas, à qual presidiu o Sr. General Carmona, secretariado pelo Sr. presidente do Ministério e demais ministros, governadores civis e outras autoridades. Estavam presentes centenas de pessoas de todas as classes, incluindo o bispo de Beja, que cumprimentou afectuosa e cordialmente o chefe de Estado e os membros do Governo”.

Rua da República em Ferreira do Alentejo

Principiaram então os discursos e sobre estes publicou o DN: O governador civil de Beja (tenente Silva Mendes), enalteceu o povo de Ferreira classificando-o como “trabalhador e generoso” e grande admirador do “patriótico esforço dos homens do governo”. Em suma, Ferreira do Alentejo era “um baluarte da Ditadura”;

O bispo de Beja, ainda segundo o DN, “proferiu uma brilhantíssima alocução, plena de conceitos de paz”, terminando a sua intervenção dizendo: “o povo deve apoiar a actual situação porque ela lhe deu ordem para trabalhar”, tendo a assistência “sublinhado com entusiástico delírio estes discursos, rompendo em calorosos vivas à República e à Pátria”.

Por fim, discursou o General Carmona, agradecendo as saudações populares, declarando-se muito comovido pela sua espontaneidade, referindo depois, e nas palavras de “O Século”, que “apesar de todas as dificuldades surgidas durante o seu governo, continua no seu posto servindo o país, que lhe paga com palmas e aclamações. O seu lema é bem servir. Para isso precisa do auxílio de todos os portugueses de boa vontade. É preciso uma boa política de união de todos os portugueses para o progresso e engrandecimento da Pátria”.

Ainda o presidente não terminara o discurso e “uma calorosa salva de palmas sublinhou estas últimas palavras, estrondeando de novo girândolas de foguetes, entre as aclamações da multidão”.

Finda a cerimónia, os visitantes seguiram para a Ribeira do Roxo, onde se procedeu à inauguração da ponte, “magnífica obra da engenharia portuguesa e que representa para Aljustrel e Ferreira do Alentejo um admirável melhoramento”.

Inaugurada a infraestrutura, o chefe de Estado “abraçou o general Teófilo Trindade, felicitando-o pela obra da Junta Autónoma de Estradas, e aos seus colaboradores. Aquele oficial agradeceu, dizendo que se ia inaugurar um melhoramento há muito prometido”.

Finda a cerimónia o cortejo atravessou a ponte, “ouvindo-se de vez em quando, pela estrada, aclamações do povo”. A viagem prosseguiu então rumo ao Algarve, “entre um admirável panorama, atravessando sempre com grandes manifestações de carinho, sob uma chuva de flores, Aljustrel, Castro Verde, Almodôvar, Ameixial, Barranco do Velho, S. Braz de Alportel, São Romão e Loulé. Já no Algarve, todos admiraram a beleza das amendoeiras floridas, dando aos campos um aspecto único e deslumbrante”. Afinal, estava-se em fevereiro, a época das amendoeiras em flor.

Loulé

Às 15h00 chegava o cortejo à estação de Almancil-Nexe. A esperar o presidente encontravam-se várias autoridades civis e militares de Faro, bem como a restante comitiva, que não se apeara em Ermidas, e simultaneamente as forças policiais “continham em distância a multidão, ouvindo-se o estralejar de foguetes e «vivas» entusiásticos”.

Também a aguardar o chefe de Estado estava “o grande poeta algarvio Cândido Guerreiro que foi apresentado ao Sr. General Carmona com quem conversou alguns instantes”.

Reunida de novo a comitiva no comboio presidencial, este partiu com destino à capital algarvia.

O general Carmona chegava a Faro de comboio, mas no seu percurso inaugurara a primeira ligação por rodovia, digna desse nome, do Algarve com o resto do país: a estrada do Barranco do Velho, como ficaria conhecida. O isolamento da região esbatia-se finalmente.

 

 (Continua)

 

Leia a 1ª parte deste artigo aqui:

Leia a 2ª parte deste artigo aqui:

Aurélio Nuno Cabrita

Autor: Aurélio Nuno Cabrita é engenheiro de ambiente e investigador de história local e regional

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