«Teatro é trabalho, não é habilidade»

Há questões que se colocam, para as quais não se pretende necessariamente obter respostas, mas sim que ponham toda a […]

Há questões que se colocam, para as quais não se pretende necessariamente obter respostas, mas sim que ponham toda a gente a pensar. É o caso das que estarão em cima da mesa hoje e amanhã, sábado e domingo, no Teatro das Figuras, em Faro, nas I Jornadas de Teatro Amador do Algarve.

Este evento é, no fundo, uma reflexão. Esta será feita por investigadores, artistas conceituados e, principalmente, pelos que se dedicam ao teatro de forma não profissional na região, os amadores, que se dedicam a esta arte por amor. Mas será assim tão simples distinguir amadores de profissionais?

Qual a fronteira entre o teatro amador e o profissional é uma das muitas questões que estarão em cima da mesa. Outros pontos de reflexão serão que impacto tem nas opções artísticas do teatro amador e nos seus resultados a existência ou inexistência de recursos financeiros e equipamentos e o que caracteriza um bom ator amador.

Esta última questão, para uma das figuras maiores do teatro no Algarve, o professor José Louro, é simples de responder. «Primeiro tem de ser amante, depois tem de ser construído. Tem de estudar, de trabalhar», disse.

«Eu sou contra – e atenção, agora vou dar porrada nisso – habilidades! Os atores habilidosos perdem todos. Acabam por ser maus atores, se não forem bons atores por dentro», acredita José Louro.

E dá mesmo um exemplo que costuma dar, mesmo sabendo que «há muita gente que se zanga» quando emite a sua opinião. «Para mim, o Vasco Santana é um ator por dentro, muito bom. O António Silva é um canastrão, não presta para nada!», atirou, a rir. «Teatro é trabalho, não é habilidade», rematou.

José Louro, que há cerca de 60 anos que está ligado a grupos de teatro amador e profissional da região (foi um dos fundadores da ACTA e esteve ligado a muitas outras companhias), a administradora executiva do Teatro Municipal de Faro Anabela Afonso e a diretora Regional de Cultura do Algarve Dália Paulo foram os convidados desta semana do programa radiofónico Impressões, dinamizado em conjunto pelo Sul Informação e pela Rádio Universitária do Algarve RUA FM. O programa pode ser ouvido na íntegra hoje, sábado, às 12 horas, em 102.7 FM ou em www.rua.pt.

«Não sei se o ponto principal destas jornadas é chegar a uma conclusão. Aliás, tenho a certeza de que não vamos sair daqui a saber o que distingue o teatro amador do profissional», avisou Anabela Afonso. «É muito mais um motivo, uma desculpa, para pôr as pessoas a conversar», explicou a anfitriã das jornadas.

«Nós, nestas sessões, não queremos respostas, queremos sobretudo novas perguntas. Queremos abrir novos caminhos e queremos muito conversar. Porque achamos muito importante pôr as pessoa das universidade, do teatro profissional e do teatro amador a dialogar», reforçou Dália Paulo.

 

Olhar para dentro nem sempre é um exercício fácil

 

A discussão em torno do teatro amador algarvio é lançada por um grupo alargado de parceiros que, além daqueles que fazem teatro, também inclui os investigadores da área. O Centro de Investigação Artes e Comunicação (CIAC) da Universidade do Algarve, bem como o seu “laboratório”, o grupo de teatro «A Peste», juntaram-se à Direção Regional de Cultura do Algarve e ao Teatro Municipal de Faro para levar a cabo esta iniciativa.

Deste grupo, seguiu um desafio para os que fazem teatro amador, para que falassem sobre diversos temas na primeira pessoa e refletissem, em conjunto, sobre eles. Um convite que não foi bem aceite por muitos dos convidados.

«Acho que não há grande entusiasmo. Há muita angústia, muita dúvida e muita falta de hábito de conversar e partilhar as ideias. E isso é que eu tenho sentido. Tenho falado com pessoas de todo o Algarve e tenho sentido que elas tem algum receio de virem aqui expor aquilo que sentem na sua prática de teatro amador», revelou Dália Paulo.

«As pessoas ainda têm medo de olhar o exterior para qualificar o que vão fazendo no seu grupo. E isso sim, é que eu acho que pode ser importante, quebrar esse gelo, essa barreira», acredita.

 

Conversas internas, conclusões com um olhar exterior

 

A assistir aos trabalhos estarão Eugénia de Marques, Fernanda Lapa e Manuela de Freitas, que se responsabilizarão por fazer a reflexão final das jornadas. «É importante conseguir ter aqui um olhar de fora, de pessoas que não estão envolvidas com a experiência de cada um», considerou Anabela Afonso.

Fernanda Lapa e Manuela de Freitas vão ser ainda responsáveis por uma masterclass, a realizar no âmbito das jornadas, hoje à noite.

Estas jornadas são abertas ao público em geral, bastando uma inscrição gratuita no site do CIAC ou da Direção Regional de Cultura para poder participar. Depois, só terá que se dirigir à porta de artistas do Teatro das Figuras, frente à Escola Superior de Saúde de Faro e juntar-se à reflexão.

 

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