Será que esta foi mesmo a última viagem do ferry Funchal-Portimão?

O Circo Dallas foi um dos “passageiros” da última viagem do ferry «Volcan de Tijarafe», entre o Funchal e Portimão. […]

O Circo Dallas foi um dos “passageiros” da última viagem do ferry «Volcan de Tijarafe», entre o Funchal e Portimão. Na manhã deste domingo, cerca de dezena e meia de veículos do circo, entre camiões, semi-reboques, carrinhas, autocaravanas de vários tamanhos e automóveis, levaram mais de uma hora a sair das entranhas do navio ancorado pela última vez no cais comercial do Porto de Portimão.

O Circo Dallas, que estava na Madeira desde 15 de dezembro, segundo disse ao Sul Informação um dos seus elementos, teve que voltar uns dias mais cedo do que o previsto precisamente porque a viagem que partiu no sábado do Porto do Funchal e chegou domingo a Portimão foi a última desta ligação operada pela companhia espanhola Naviera Armas.

No cais da cidade algarvia, estavam cerca de quatro dezenas de automóveis, muitos deles de matrícula espanhola, bem como alguns camiões, poucos, que aguardavam a sua vez de entrar no ferry, que haveria de partir por volta das 14h30, já não com destino ao Funchal, como vinha fazendo todas as semanas desde 2008, mas rumo às Canárias. «Aqui já não volta, a não ser que na Madeira mudem as taxas alfandegárias», disse um dos passageiros espanhóis ao Sul Informação.

José António Pujares, das Canárias, tinha vindo «à Europa», como ele disse, para visitar família em Vigo. «Para mim, era muito melhor esta ligação a Portugal, que a que liga as Canárias a Huelva, porque é mais longe e depois a viagem por terra também é mais longa. Já tinha feito esta viagem nos anos anteriores, mas agora parece que se acabou. É pena!», concluiu.

Em vários pontos do cais, a ver chegar e partir o último ferry, estavam dezenas de pessoas, algumas de máquina fotográfica e binóculos na mão. «Isto dava muito movimento ao porto. E vinham aqui muitos espanhóis. Agora sem o barco para a Madeira e com as portagens na Via do Infante cada vez haverá menos espanhóis», disse um dos mirones.

 

Palmas e buzinão assinalaram despedida do ferry no Funchal

No sábado de manhã, no Funchal, a partida do «Volcan de Tijarafe» foi acompanhada por palmas e um buzinão, com centenas de madeirenses a despedirem-se do navio, que abandona a ligação entre a Madeira e o Continente, a única existente para o transporte marítimo regular de passageiros.

Segundo o jornal «Público», o protesto contra o Governo Regional, por não proporcionar ao armador espanhol condições para continuidade da linha Funchal/Portimão/Canárias, foi seguido com invulgares medidas de segurança.

Javier Garcia, representante do armador espanhol Naviera Armas, lamentou que a importância «deste serviço regular nunca foi reconhecida pelas autoridades» regionais da Madeira. As associações empresariais e oposição madeirense acusam o governo regional de proteger o grupo Sousa, concessionário das operações portuárias do arquipélago e com o monopólio da ligação marítima entre as ilhas da Madeira e do Porto Santo.

Ao fazer o balanço dos custos da operação entre o Funchal e Portimão, o armador espanhol chegou à conclusão de que «não era possível prosseguir com o serviço». Javier Garcia adiantou que a sua continuidade dependia de dois fatores fundamentais: aumento das tarifas e diminuição de gastos.

O «Público» adianta que, se por um lado o armador teve recetividade de empresas exportadoras e importadoras para aceitar um aumento das tarifas no transporte de produtos, sobretudo perecíveis, a custos inferiores aos praticados por outros armadores para a ilha da Madeira, a mesma abertura não sentiu da parte do Governo Regional para baixar os custos operacionais no porto do Funchal, que «pratica as taxas portuárias mais altas dos portos europeus».

Por exemplo, carregar ou descarregar um reboque no porto do Funchal «custa aproximadamente 140 a 150 euros, enquanto nas Canárias custa 50 euros», referiu Garcia, revelando que em 2011 a Naviera Armas pagou um milhão de euros em taxas portuárias na Madeira.

O governo regional madeirense, através de comunicado distribuído pela Secretaria do Turismo e Transportes, considerou que a pretensão do armador «não tem qualquer razoabilidade» e também contraria os compromissos internacionais assumidos para o resgate financeiro de Portugal.
«A isenção de taxas portuárias pretendida contraria os compromissos assumidos pelo Governo Regional relativamente ao Governo central e à troika, compromissos esses que estipulam o congelamento de todos os benefícios fiscais e impedem a introdução de novos benefícios ou o alargamento dos existentes», justificou o governo regional.

 

Turismo do Algarve ainda não reagiu

Na região algarvia, o fim da carreira regular entre os portos de Portimão, Funchal e Canárias não motivou, até agora, qualquer reação por parte dos responsáveis pelo Turismo do Algarve.

Pelo contrário, Manuel da Luz, presidente da Câmara de Portimão, disse ao Sul Informação que esta autarquia está «a acompanhar com muita preocupação» o caso, já tendo mesmo pedido «informações oficiais» ao armador espanhol.

«Se tivermos informação oficial, apesar de não se tratar de um tema da jurisdição municipal, poderemos fazer um alerta junto do Governo», sublinhou o autarca portimonense.

Manuel da Luz acrescentou que o fim do ferry Portimão-Madeira-Canárias é «uma má notícia não só para Portimão, mas para todo o Algarve, dado o sucesso que o navio estava a ter, ao nível do transporte de passageiros, veículos e carga».

Só no ano passado, o ferry da Naviera Armas, na sua ligação semanal regular entre Portimão, a Madeira e as Canárias, transportou mais de 22 mil passageiros, cerca de nove mil veículos ligeiros e 4.500 veículos pesados (carga rodada).

Esta ligação é considerada importante para a viabilização do porto de Portimão, que se tem vindo a afirmar como porto de cruzeiros, e que via na operação da Naviera Armas uma peça fundamental ao nível dos movimentos de passageiros e mercadoria.

«Canárias-Madeira-Portugal/Península, Muito mais é o que nos une que aquilo que nos separa»: este slogan publicitário, pintado na caixa de um camião que aguardava este domingo embarque na última viagem do ferry «Volcan de Tijarafe» entre Portimão e as Canárias, parece agora uma frase ironicamente sem sentido.

 

Veja também a FOTOGALERIA na coluna aqui ao lado —————————————————————>>>>>>>>>

 

 

 

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