Projeto ROOTS põe Lagos na rota das artes e a pensar a escravatura

Em 2009, escavações arqueológicas preventivas antes da construção de um parque de estacionamento, em Lagos, puseram a descoberto um cemitério […]

Em 2009, escavações arqueológicas preventivas antes da construção de um parque de estacionamento, em Lagos, puseram a descoberto um cemitério de escravos do século XV, com 140 esqueletos.

A forma como alguns dos esqueletos foram encontrados, misturados com ossos de animais, como se a zona fosse uma lixeira de coisas e não um cemitério de seres humanos, lançou o debate em Lagos, com a cidade a redescobrir esse passado com seis séculos, quando foi entreposto de escravos.

Partindo destes factos, o LAC – Laboratório de Atividades Criativas de Lagos está neste momento a desenvolver o projeto ROOTS (Raízes), que passa pela residência criativa dos artistas Fefe Talavera (Brasil), Abraão Vicente (Cabo Verde), Jorge Dias (Moçambique), Isabel Lima (Inglaterra) e A. Pedro Correia (Portugal).

Mas, para lá do processo criativo artístico, que se dará a conhecer ao público em tempo oportuno, o projeto ROOTS prevê outras iniciativas. Assim, este sábado, dia 5, às 11 horas, terá lugar uma visita ao Mercado dos Escravos, enquanto às 14h30, no LAC, sob o tema «Urdir teias na contemporaneidade – Como as provas materiais desmentem a notícia literária», Jorge Rocha (Artista Plástico) e Rui Parreira (Arqueólogo) conversarão com Rui Loureiro (Historiador), Maria João Neves (DRYAS – Arqueologia) e Fernandes Dias (AFRICA.CONT).

E, através de conexão digital, conversarão também com César Piva (Brasil, Gestor Cultural, Incubadora Cultural do Audiovisual e das Novas Tecnologias) e com Mary Hark (EUA, Estudos de Design – School of Human Ecology University of Wisconsin-Madison).

Esta iniciativa, denominada «Conexões ROOTS» é um encontro informal que pretende estimular a reflexão sobre os princípios que suportam a criação da residência artística que decorre neste momento no LAC.

Nesse sentido, o LAC convidou algumas pessoas que pelo seu percurso e acção cultural que desenvolvem, poderão enriquecer o debate, numa perspectiva que possa estimular a fortalecer as pesquisas criativas em desenvolvimento pelos artistas e estimular as conexões com o público.

O programa foi pensado para permitir a discussão das várias visões que se têm da escravatura, quer na sua matriz histórica onde se articula no conhecimento levantado pelos estudos arqueológicos mais recentes, quer nas conexões estabelecidas por alguns intervenientes na contemporaneidade. Esta conversa, que promete ser bem interessante, é aberta ao público.

O que é o projeto ROOTS?

O projeto ROOTS é uma residência artística, que, segundo os seus promotores, pretende abordar o tema da escravatura «através de uma visão contemporânea, criando novas rotas e fluxos transculturais, através da reflexão da diversidade cultural dos países outrora colonizadores e colonizados e as suas influências na criação de uma miscigenação global e plural, questionando e identificando as raízes desse processo».

«ROOTS remete-nos duplamente para o significado original da palavra, quer no sentido de ter sido o escravo arrancado das suas raízes ancestrais, quer para as raízes que, com o passar do tempo e de sucessivas gerações, foram criadas nos países de destino moldando a sua identidade cultural contemporânea como, por exemplo, se torna evidente nos casos do Brasil e Cabo Verde».

«Remete-nos ainda para a ideia de rota, percurso e viagem, porta de partida e de chegada, de que a cidade de Lagos é exemplo e participante ativo».

Os quatro artistas já em residência artística no LAC – Fefe Talavera (Brasil), Abraão Vicente (Cabo Verde), Jorge Dias (Moçambique), Isabel Lima (Inglaterra) e A. Pedro Correia (Portugal) – estão a desenvolver, até 12 de novembro, um processo criativo individual e /ou colaborativo, que vai culminar numa exposição que abre nesse mesmo dia e se prolonga até 30 de dezembro, para dar a ver as obras desenvolvidas, promovendo o contacto com as comunidades artísticas da região e com os diversos tipos de públicos.

O projeto inclui ainda um Ciclo de Cinema, apresentando, nos dias 24 de novembro, 1 e 8 de dezembro, um conjunto de filmes que esboçam o olhar triangular sobre cinematografias que se cruzam no espaço atlântico, bem como o lançamento do Catálogo Roots, no dia 8 de dezembro.

O LAC aproveitou ainda esta ocasião para lançar o seu novo website www.lac.org.pt com uma secção exclusivamente dedicada ao programa ROOTS.

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