Carlos Fiolhais: Portugal é um dos países da Europa e até do mundo com mais mulheres na Ciência

100 anos depois da atribuição do 2º Prémio Nobel a Marie Curie e na oportunidade do seu aniversário a 7 […]

100 anos depois da atribuição do 2º Prémio Nobel a Marie Curie e na oportunidade do seu aniversário a 7 de novembro, uma breve entrevista a Carlos Fiolhais sobre esta mulher única.

António Piedade – Como é que a imprensa da época tratou a notícia da atribuição do Prémio Nobel, que era o segundo, algo inédito ainda hoje no que diz respeito a disciplinas científicas diferentes.

Carlos Fiolhais – Na altura, mais importante que o Prémio Nobel (o segundo para Madame Curie, um facto até hoje inédito para duas disciplinas científicas diferentes), foi o escândalo do envolvimento amoroso da cientista com o seu colega físico Prof. Paul Langevin. Marie Curie era viúva há uns anos, mas ele era casado e tinha filhos. A imprensa chegou a dizer que ela era uma estrangeira que destruía os lares franceses… Curie resistiu às pressões e recebeu o Nobel. Disse o óbvio: que ninguém tinha nada a ver com a sua vida privada. O romance acabou por terminar. Facto curioso: netos de um e de outro vieram, muitos anos depois, a casar-se!

AP – É possível atribuir alguma relação causal entre os Prémios Nobel atribuídos a Marie Curie e a progressiva maior participação de mulheres na atividade científica a nível mundial?

CF – Madame Curie é um caso singular e pioneiro. A participação das mulheres na vida científica há cem anos era muito limitada. A entrada de uma mulher como professora universitária em Portugal foi só nessa época: a filóloga Carolina Michaelis, nascida na Alemanha mas casada com um português, começou a dar aulas na Universidade de Coimbra. Madame Curie foi sempre considerada um modelo, mas a entrada das mulheres na Universidade e na ciência foi muito lenta. Pessoas como Einstein, embora admirassem Madame Curie, continuaram a achar que às mulheres faltava criatividade para fazer ciência. Estavam profundamente enganados!

AP – A atividade científica de Marie Curie foi conhecida em Portugal à época da atribuição dos prémios?

CF – Sim, o nome de Madame Curie correu o mundo. Em Portugal, as notícias de ciência eram muito raras, mas os prémios Nobel começaram desde cedo a  ter receção mediática. Só alguns anos depois Madame Curie teve discípulos portugueses, como Mário Silva, professor de Coimbra, e Manuel Valadares, professor de Lisboa. Os dois vieram a ser demitidos pelo Estado Novo. Houve também uma discípula portuguesa de Curie, Branca Marques, de Lisboa.

AP – Qual a evolução da participação feminina na ciência portuguesa desde a época de Marie Curie?

CF – A participação feminina na ciência foi muito baixa numa época em que a ciência, aliás, quase não existia. Nos últimos 30 anos, deu-se, porém, um crescimento enorme da ciência em Portugal, com uma participação feminina cada vez maior. Hoje, Portugal pode orgulhar-se de ser um dos países da Europa e até do mundo com maior percentagem feminina na atividade científica. Isso explica-se pelo crescente acesso ao ensino superior das mulheres em Portugal no pós 25 de Abril. Em muitos cursos, tanto nas entradas como nas saídas, superam os homens.

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