Revisitar a cidade de Portimão em 1941 – II

A reportagem especial sobre Portimão publicada no jornal “A Voz”, de 28 de Maio de 1941, permite-nos caracterizar não só […]

A reportagem especial sobre Portimão publicada no jornal “A Voz”, de 28 de Maio de 1941, permite-nos caracterizar não só a atividade económica do concelho, como os seus dirigentes, os equipamentos culturais, de ensino e assistência social, as condições laborais ou mesmo os hábitos dos portimonenses, em suma, toda a dinâmica social da cidade de então.

A Câmara Municipal era presidida por Frederico Ramos Mendes, o qual, “com 6 meses de gerência municipal”, já havia empreendido dois importantes melhoramentos: “a reparação da Avenida Francisco Bívar, no troço compreendido entre a fortaleza de Santa Catarina e o Grande Hotel da Praia da Rocha, e a construção do novo edifício para os Correios e Telégrafos”.

Se a primeira obra estava em execução, a segunda carecia das “indispensáveis expropriações.” Saliente-se ainda que “os estudos sobre a urbanização da Praia da Rocha” se encontravam quase concluídos, “graças à intervenção do Sr. Dr. Frederico Mendes”, garantia o jornal.

Uma outra preocupação do executivo prendia-se com as escolas na sede de concelho. Estas encontravam-se sedeadas no próprio edifício da Câmara Municipal, onde, “além de pessimamente instaladas, não comportavam toda a população escolar, ficando todos os anos muitas crianças em idade escolar impedidas de frequentar a escola por falta de lugar”.

Mas não eram caso único: o tribunal estava também “pessimamente instalado, assim como a cadeia comarcã, e desde há muito que se faz sentir a necessidade de um edifício próprio onde o tribunal judicial fique dignamente instalado”.

Em termos de assistência, a cidade dispunha de um “Hospital da Misericórdia e um Asilo de Assistência à Mendicidade”. Estas instituições, “além do internamento de mendigos de ambos os sexos”, forneciam, em tempos de crise, “uma sopa diária aos necessitados”.

No campo da assistência privada, salientava-se a Conferência de S. Vicente de Paulo, entre outras. Ainda no âmbito social estava em vias de criação o Lar da Criança de Portimão, um desejo do presidente da Câmara, que deveria ficar constituído por “uma «Enfermaria – maternidade», um dispensário de puericultura e serviço duma «Gota de Leite»”.

Quanto às condições laborais na indústria conserveira, existia “um contrato colectivo de trabalho que garante aos operários um mínimo de três dias de trabalho em cada semana e durante todo o ano; uma semana de férias pagas e um pequeno subsídio de invalidez. Os doentes têm assistência médica paga pelo Grémio ou pelo Sindicato e os mais necessitados recebem também um auxílio pecuniário”.

Na época de laboração, esta Indústria pagava mensalmente a “média de 902 274$38 de salários” e despendia “com assistência pelo Grémio do Barlavento 252 968$61”.

O referido Grémio dos Industriais do Barlavento era dirigido pelo conserveiro João Francisco Leote, “considerado gerente da importante firma Bívar & C.a Ld.a”. Em Portimão e Lagos, este organismo corporativo havia criado duas cantinas operárias, as quais forneciam “comida barata; e ainda este ano [1941], e a exemplo do anterior, na época do defeso, em ambas se deram refeições gratuitas às crianças órfãs e aos filhos de pais muito pobres”.

A esta entidade estava ainda associado o “Centro Industrial” de Lagos, que servia naquela cidade uma população operária de 944 indivíduos.

Frequentes em Portimão eram os bairros destinados aos trabalhadores conserveiros: “Portimão tem ainda digno de menção um lindo Bairro Operário para os trabalhadores das suas Fábricas com 100 moradias de 3 tipos, cujas rendas são de 45$00, 55$00 e 65$00”. Apesar de concluído com o apoio do Estado, obairro fora da iniciativa de Caetano Feu. Outros bairros privativos existiam, como o das firmas Fialho, Feu, Facho e Sociedade Peninsular.

A nível de lazer, Portimão “não descurou a questão desportiva, cultural, e ainda o embelezamento da cidade, já naturalmente bela, tem vários «clubes» desportivos e um belo campo de jogos, em terreno adquirido pelo «Portimonense Sporting Clube”.

Detinha “um Liceu Municipal, com bastante frequência” e contava em breve inaugurar a biblioteca municipal: “deve-se este melhoramento ao ilustre portimonense, Manuel Teixeira Gomes, que ofereceu à Câmara da sua terra a sua valiosa coleção de livros, para a instalação de uma biblioteca municipal. Pensa igualmente a Câmara, em criar junto à Biblioteca um museu municipal, para o qual já tem alguns objectos oferecidos”.

No que se refere a espaços públicos, existiam “vários largos ajardinados e um viveiro municipal que foi dotado ultimamente com uma estufa quente, e que constitui um dos pontos de passeio desta linda cidade algarvia.”

Gizou também “A Voz” a história de Portimão, enumerando os sítios arqueológicos, nomeadamente a “Necrópole de Alcalar” e a Abicada, ressalvando contudo que “muitos mais restos das antigas civilizações se encontrarão, quando se fizerem as necessárias investigações”.

Foram ainda lembrados neste especial, três “individualidades já falecidas a quem a cidade ficou devendo relevantes serviços”. Como o Visconde de Bívar, antigo deputado e par do reino, cuja ação tornou realidade o cais e a ponte, o industrial João António Júdice Fialho e o Eng. Francisco de Bívar Weinholtz, agrónomo e “grande impulsionador do progresso de Portimão”.

Cayetano Feu Marchena foi também salientado, “pelo muito que ele tem contribuído para o desenvolvimento e modernização da indústria conserveira”, por constituir “uma alma de eleição, um carácter puro, sempre pronto a praticar para com o próximo a sublime doutrina evangélica do amor e caridade”, e sem esquecer que “hoje já português, católico praticante a sua acção benevolente exerce-se ainda em tantos outros sectores da vida social, e como patrão, mostra-se verdadeiramente amigo dos seus colaboradores de trabalho.”

Profusamente ilustrado com fotografias do Jardim Visconde de Bívar, da faina da pesca, da cantina do Grémio repleta de crianças, ou do presidente da Câmara, aquele diário inseriu ainda 17 anúncios relativos ao comércio/indústria de Portimão. Desde as grandes conserveiras, como a Bívar & C.ª, à Liberdade, Facho, Severo Ramos, aos hotéis da Praia da Rocha, como o Bela Vista ou o Grande Hotel, sem esquecer a Pastelaria Almeida, ou os exportadores de frutos secos, como A. Teixeira Gomes, Sociedade Peninsular e António Luís, ou ainda os melhores vinhos e frutos do Algarve da Viúva e Herdeiros de Frederico da Paz Mendes, entre muitos outros, como o médico Dr. Lopes Teixeira.

Os textos foram assinados por Camilo Cordeiro, J. Fernando Sousa e Eduardo Paiva, terminando este último, e por curiosidade, o artigo “A construção do Porto de abrigo” com um enaltecimento ao presidente do Conselho: “é preciso é confiar em Salazar e ele não deixará de atender oportunamente tão justa pretensão.” Ou não fosse este um periódico fiel aos ideais do Estado Novo…

Volvidos 70 anos, é inequívoco que Portimão hoje pouco se revê na cidade de 1941. Os campos já não estão cultivados, nem existe um vaivém constante de embarcações pesqueiras no rio. Das fábricas de conserva resta a memória, retratada no museu recentemente inaugurado. Também dos frutos secos e da sua exportação apenas subsistem recordações. Similarmente acontece com os batelões de cortiça vindos de Silves, há muito desaparecidos e que foram substituídos pelos barcos turísticos, que agora sulcam o Arade até àquela cidade.

O turismo, tão incipiente na época, afirmou-se como a principal indústria, tornando Portimão numa cidade cosmopolita e a sua “Rocha” conhecida além fronteiras. Mas se ao porto já não chegam traineiras, nele entram cruzeiros, com milhares de forasteiros de distintas nacionalidades e a cidade hoje, tal como ontem, encanta os viajantes.

Portimão detém atualmente bons equipamentos desportivos, culturais e educativos, abrangendo as escolas toda a população. O tribunal encontra-se em edifício próprio e a estufa quente, há muito desaparecida, foi permutada por um belíssimo passeio ribeirinho, local de deambulação de portimonenses e turistas.

Se a cidade sofreu uma profunda mutação nos últimos 70 anos, não será fácil prognosticar as alterações que decorrerão até 2081, mas estejamos certos que elas serão inevitáveis.

Aurélio Nuno Cabrita

Investigador de História Local e Regional

 

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