«Escrita fílmica» de Graça Maia garante-lhe Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes

«Nesse dia, a agenda do Presidente registava apenas uma audiência, o que normalmente seria suficiente para alterar o humor com […]

«Nesse dia, a agenda do Presidente registava apenas uma audiência, o que normalmente seria suficiente para alterar o humor com que há dias o Chefe de Estado vinha infernizando a vida daqueles que partilhavam consigo o quotidiano do Palácio».

É assim que começa a novela «Manuel Teixeira Gomes – Les Morts vont vite», da autoria de Graça Maia, vencedora da edição deste ano do Prémio Literário que, curiosamente, partilha com a obra vencedora o nome do antigo Presidente da República e escritor.

Neste livro, a derradeira entrevista de Teixeira Gomes, antes de renunciar ao cargo e partir para o exílio, com o jornalista Julião Quintinha, também ele algarvio, é o ponto de partida para uma série de peripécias que decorrem num tempo-espaço imaginário, onde figuras da oposição à ditadura se misturam com as personagens arrancadas das páginas do seu livro de cabeceira «A Cavalgada do Sonho».

Esta é a primeira obra de ficção publicada por Graça Maia, que, no entanto, tem uma vasta experiência no mundo dos livros. Professora de História no ensino secundário em Lisboa, a autora viveu durante muitos anos em Portimão, onde tomou contacto com temas da história regional e local, com destaque para as figuras da I República, tendo ainda coordenado o livro «O Algarve da Antiguidade aos nossos Dias», que, como recordou o editor Fernando Mão-de-Ferro, da Colibri, «se mantém como obra de referência».

Mas agora Graça Maia resolveu navegar por outras águas da escrita e dedicou-se à ficção. O seu editor comentou, na cerimónia de entrega do prémio, que, quando Graça Maia lhe comunicou que iria concorrer ao Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes, lhe disse que achava que ela não tinha capacidade para a escrita de ficção. «Mas enganei-me redondamente e agora estou orgulhoso de poder publicar este livro e de ser o editor da Graça mais uma vez».

A autora confessou que, ao longo dos onze anos que este prémio literário instituído pela Câsmara de Portimão já leva de vida, sentiu «inveja pura de quem ganhava». A ideia para esta novela surgiu-lhe, recordou, «de uma coisa banal: as comemorações do Centenário da República». E a sua escrita misturou ficção, imaginação, com factos verídicos, que Graça Maia conhece muito bem devido à investigação histórica que foi fazendo.

Por isso, com alguma ironia, mas também com muita intenção, a autora confessou que, com este prémio se sente «de certo modo vingada!». «Durante muitos anos nunca ninguém me convidou para falar de Manuel Teixeira Gomes. Por isso, agora tomem lá!»

«E ainda por cima diverti-me muito mais a escrever esta novela que a escrever uma rigorosa obra de História, cheia de notas de rodapé!» confessou ainda Graça Maia.

O júri do Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes, constituído por Margarida Cunha, José Manuel Vieira e Alberto Piscarreta, atribuiu ainda duas menções honrosas às obras «Genève», de Urbano de Oliveira (Arcozelo), e «Mariana», de Rui Miguel Herbon (Lourinhã).

 

Uma escrita fílmica

Na cerimónia de entrega do galardão, que decorreu, muito apropriadamente, na Casa Manuel Teixeira Gomes, o representante do júri salientou três aspetos importantes sobre a novela premiada. Em primeiro lugar, disse que se trata de «uma obra escrita com grande riqueza literária, que prende o leitor do princípio ao fim, uma escrita sedutora porque fílmica».

Depois, continuou Alberto Piscarreta, «como novela, a obra apresenta duas fortes personagens: a República, personagem coletiva, com a sua sede de mudança e os seus fracassos, e Teixeira Gomes, homem que, através do seu saber, procura a construção da jovem República, mas que, desiludido, a abandona».

Finalmente, «esta personagem é trabalhada pela escritora nas suas várias vertentes, emergindo como alguém que nos é próximo».

Graça de Sousa, amiga da autora, apresentou a novela galardoada falando da «enorme sensibilidade nas descrições» e da «manipulação exímia da linguagem».

Fernando Mão-de-Ferro, responsável pela Edições Colibri, por seu lado, fez questão de salientar que «apesar das dificuldades financeiras, a Câmara de Portimão continua a dar oportunidade a novos autores, alguns deles jovens, de dar a conhecer a sua escrita».

Para sossegar os espíritos, Isabel Guerreiro, vereadora da Cultura de Portimão, garantiu que o Prémio «é um dos projetos para manter».

Além do lançamento de 500 exemplares da sua obra, editada pela Câmara de Portimão e Edições Colibri, a vencedora recebeu um prémio monetário de 2000 euros – verba que a vereadora garantiu já estar depositada -, enquanto cada menção honrosa será contemplada com 1000 euros.

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