Intervenções nos charcos temporários da Costa SW já começam a dar «sinais positivos»

Os resultados preliminares das monitorizações indicam «maior riqueza florística e um aumento do número de espécies de anfíbios e respetiva abundância»

As intervenções feitas pelo Projeto LIFE Charcos nos cerca de 20 charcos temporários da Costa Sudoeste de Portugal «já começam a dar alguns sinais positivos e o estado de conservação destes charcos está a melhorar», afirmam os seus responsáveis.

Apesar das monitorizações estarem em fase de conclusão, os resultados preliminares indicam «maior riqueza florística e um aumento do número de espécies de anfíbios e respetiva abundância».

As ações de monitorização baseiam-se numa avaliação qualitativa e quantitativa dos vários grupos de seres vivos, em cada charco, antes e depois das intervenções no terreno.

Este projeto, coordenado pela Liga para a Proteção da Natureza, está já a chegar à sua reta final. A sessão de encerramento do LIFE Charcos vai decorrer no próximo dia 20 de Setembro, em Odemira. Nessa ocasião, será feito o balanço geral do projeto, dando a conhecer os resultados alcançados pela equipa nas ações concretas de restauro e recuperação do habitat, bem como o contributo para a conservação dos Charcos Temporários a médio e longo prazo. Mas alguns dados preliminares foram já divulgados.

Os investigadores que têm estado a trabalhar no Projeto LIFE Charcos explicam que, quanto à flora, «os dados ainda estão a ser processados para depois se verificar a evolução» desta componente, mas já é possível afirmar que, «no global, muitos dos charcos temporários que sofreram intervenções de recuperação apresentam uma maior riqueza de plantas, incluindo de espécies típicas deste precioso habitat, em comparação com o estado de conservação antes da intervenção».

Este resultado já era esperado, pois partes das intervenções foram dirigidas à reposição da topografia dos charcos. «Agora, os charcos intervencionados apresentam uma topografia mais adequada, com melhor distribuição e estruturação das cinturas de vegetação, o que permite que as espécies recolonizem o seu habitat natural, melhorando assim o seu estado de conservação», explicam.

Há cerca de 248 espécies de plantas associadas a estes charcos, sendo que 120 delas são bioindicadoras, ou seja, indicadoras biológicas do habitat 3170 da Diretiva Habitats. A diversidade de plantas em cada complexo de charcos pode variar entre 13 a 72 espécies, consoante o seu estado de conservação.

Quanto às monitorizações de anfíbios nos charcos intervencionados estas terminaram no fim de Maio passado, tendo sido detetadas 10 das 13 espécies conhecidas na Costa Sudoeste, nomeadamente, salamandra-de-costelas-salientes, salamandra-de-pintas-amarelas, tritão-pigmeu, rã-de-focinho-pontiagudo, sapo-comum, sapo-corredor, rã-verde, sapo-de-unha-negra, rela-meridional e o sapinho-de-verrugas-verdes-lusitânico. As últimas três foram as espécies mais detetadas.

«No geral, as ações de restauro e recuperação dos charcos tiveram um efeito positivo nas comunidades de anfíbios, tendo-se verificado não só um aumento do número de espécies, mas também da abundância, quando comparado à análise antes das intervenções. Também houve um aumentou do número de espécies a reproduzirem-se dentro destes charcos intervencionados», acrescentam os investigadores ligados a esta componente.

No caso dos morcegos, a monitorização foi efetuada através da colocação de gravadores especiais que registam as frequências sonoras que os morcegos emitem para se orientar, sendo que se recolheu um elevado número de registos, que ainda se encontram em análise.

No que diz respeito aos micromamíferos, nomeadamente para as duas espécies amostradas, o rato-de-Cabrera e o rato-de-água, a sua frequência continua a ser «relativamente escassa».

Quanto aos crustáceos, a chegada tardia da chuva baralhou um pouco as coisas: «apesar do regime pluvial deste último ano ter sido um pouco atípico, o que fez com que o hidroperíodo começasse mais tarde, em Março. em vez de Novembro, como é normal, as comunidades dos crustáceos de Grandes Braquiópodes encontram-se estáveis».

O único facto a assinalar é que foram encontrados exemplares adultos da espécies Tanymaxtix stagnalis num charco temporário do concelho de Vila do Bispo, «onde já se tinha encontrado cistos [ovos] desta espécie no sedimento, mas nunca antes se tinha visto exemplares adultos».

«Além do Triops vicentinus, Chirocephalus diaphanus e Branchipus cortesi que constituem a comunidade de Grandes Branquiópodes neste charco em particular, agora também é possível observar Tanymaxtix stagnalis».

O LIFE Charcos é um projeto coordenado pela Liga para a Proteção da Natureza (LPN), que conta com a parceria de diversas instituições públicas e privadas, designadamente a Universidade de Évora, a Universidade do Algarve, a Câmara Municipal de Odemira e a Associação de Beneficiários do Mira.

Este projeto, que já está na sua reta final, foi financiado a 75% pelo Programa LIFE-Natureza da Comissão Europeia, tendo um orçamento global de cerca de 2 milhões de euros.

O LIFE Charcos visa a conservação de um habitat considerado de conservação prioritária pela Diretiva Comunitária Habitats (Diretiva 92/43/CEE): os Charcos Temporários Mediterrânicos.

Em curso desde Julho de 2013 e com conclusão a 30 de Setembro de 2018, este projeto foi implementado no Sítio de Importância Comunitário (SIC) da Costa Sudoeste da Rede Natura 2000, que é em parte coincidente com o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, mais propriamente nas charnecas dos concelhos de Odemira e Aljezur e planalto de Vila do Bispo, por aí se encontrarem alguns dos principais núcleos de charcos temporários a nível nacional.

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