Faro apresentou projetos para “abraçar” a Ria Formosa

“Virar” a cidade para a Ria engloba quatro “projetos-âncora” numa área de 137 hectares entre o Parque Ribeirinho e o Cais Comercial de Faro

Faro está a projetar o seu futuro virado para a Ria Formosa. Hoje, no Dia do Município, foram apresentados projetos para a criação de um passeio a ligar o parque ribeirinho à Doca de Faro, de um passeio marítimo, com um passadiço, entre a doca e o Largo de São Francisco, para a requalificação do tecido urbano na baixa da cidade e para a reconversão do Cais Comercial de Faro. Não há estimativa de quando tudo isto estará concluído, mas há uma certeza: este é «um processo que não tem condições para parar».

Foi num dos locais que o Município quer intervencionar que decorreu a Sessão Solene do Dia do Município: o Cais Comercial de Faro, com o Navio-escola Sagres como pano de fundo e com a presença de Ana Paula Vitorino, ministra do Mar.

Ao todo, Faro quer requalificar uma extensão de cinco quilómetros, com uma área de 137 hectares e um objetivo concreto: «afirmar Faro como capital do Algarve, que é uma das regiões turísticas mais importantes da Europa». As palavras são de Luís Gomes, ex-presidente da Câmara de Vila Real de Santo António que, enquanto consultor da Câmara de Faro para este projeto, apresentou as intervenções previstas.

Luís Gomes adianta que o passeio marítimo, que está a ser projetado, «terá um grande passadiço, com pontos de amarração, que vai funcionar como uma doca ao longo da cidade», entre a atual doca e o Largo de São Francisco.

Luís Gomes

Segundo o consultor, este projeto permite aproximar a cidade da ria, criando «um grande corredor a Sul do caminho de ferro, com pontos de apoio à amarração, restaurantes e bares».

Para que a Câmara possa avançar com esta obra, foi hoje assinado um protocolo com a Docapesca para a cedência dos terrenos entre a Doca e o Largo de São Francisco, uma vez que este lote de terreno pertence à empresa.

O passeio ribeirinho, que vai nascer entre a Doca e o Teatro das Figuras, ainda aguarda a assinatura de um documento semelhante com a Infraestruturas de Portugal, uma vez que os terrenos pertencem à antiga Refer. Rogério Bacalhau, presidente da Câmara de Faro, espera que este protocolo seja assinado até ao final do ano.

Já sobre a reconversão do Cais Comercial, cujo projeto teve como ponto de partida a ideia desenvolvida pelo CCMAR e pela Câmara de Faro, apresentada em Junho do ano passado, Luís Gomes adiantou que representa um investimento estimado de 120 milhões de euros e que tem o potencial de criar 1000 postos de trabalho.

Rogério Bacalhau explicou aos jornalistas que o que foi apresentado, em 2017, como projeto para o cais comercial, «era um estudo que evoluiu muito. A amarração era sobre o espelho de água e mantinha-se a zona terrestre. Agora conseguiu-se outra solução. Não se entra para o espelho de água e devolve-se muito da zona terrestre deste espaço que está degradada e com materiais que estão a poluir a ria. Há aqui uma parte que será devolvida à ria. O primeiro projeto era um estudo para a materialização de um sonho, que serviu para desenvolver o processo seguinte. No que foi hoje apresentado, há já muitos contributos do Ambiente, do Ordenamento do Território… Há uma evolução muito grande e tenho a convicção que este estudo se aproximará do resultado final».

Segundo o autarca, o futuro Cais Comercial terá duas partes importantes: «a marina em si, que é a âncora do processo, que vai potenciar as atividades náuticas. Tudo o que esteja relacionado com a náutica estará aqui. Depois a ideia é ter aqui a investigação ligada à Universidade, com a componente da Ria e do Mar. O CCMAR foi quem nos trouxe muitas ideias deste projeto».

Mantêm-se projetados para o local, um «grande aquário e o CCMAR neste espaço. Depois teremos atividades complementares à náutica, com alojamento, restauração, comércio».

O investimento no Cais Comercial é grande mas, da parte do Município, os custos serão aplicados «em estudos, projetos tudo isso. No entanto, a ideia é concessionar com investimento totalmente privado». E, segundo o autarca, há interessados, como já tinha adiantado ao Sul Informação. «Temos recebido várias manifestações de interesse de investidores alguns nacionais e vários estrangeiros. São entidades que têm equipamentos deste género noutras partes do mundo e que estão interessadas em conhecer os termos», disse.

Rogério Bacalhau

Para a zona do Bom João, para a qual está a ser preparado um Plano de Pormenor, estão previstos investimentos na habitação «e outras atividades ligadas ao turismo».

São muitas intervenções a implementar que prometem mudar a face da cidade de Faro. Dada a dimensão dos projetos, Rogério Bacalhau não arrisca datas para o início das obras e explica que «é preciso fazer estudos que levam tempo, lançar concursos, que sabemos quando lançamos, mas não sabemos quando terminam… É um processo que levará alguns anos», admite.

Toda a zona a intervencionar faz parte do Parque Natural da Ria Formosa e levantam-se questões ambientais, que Bacalhau garante que estão a ser acauteladas. «Estamos a trabalhar com Universidade do Algarve, a estudar as incidências ambientais naquela zona».

Além disso, «a comissão que a ministra nomeou e que trabalhou no projeto teve, na maioria das reuniões, representantes da Agência Portuguesa do Ambiente e do ICNF. Todas essas questões estão equacionadas, porque estes projetos são muito bonitos, mas se estragarem ambiente saem prejudicados. Ninguém viria aqui se ria estivesse poluída. Há um cuidado com o ambiente, que está sempre presente».

Ana Paula Vitorino

A preocupação ambiental também foi realçada por Ana Paula Vitorino, ministra do Mar, que deixou um recado, adivinhando possíveis contestações a este projeto. «É muito importante a proteção do ambiente, mas proteger o ambiente não é não fazer nada. Se mantivermos este espaço como está, estaremos a afetar gravemente a qualidade do território».

Depois de tempos em que a Câmara de Faro e o Ministério do Mar estiveram de “candeias às avessas”, hoje os elogios e os agradecimentos foram mútuos com a governante a elogiar o executivo farense: «É para isto que os portugueses elegem governantes, para transformar para melhor os territórios. Não se trata de alienar uma zona portuária, é transformar um espaço que deixou de ter uso em cidade. Este é o objetivo principal de um Município e também do Governo».

Ana Paula Vitorino deixou ainda o desafio para que, no renovado cais comercial, seja mantida «a identidade do território, mantendo a simbologia marítima, ligada ao mar» e um desejo para o projeto: «bons ventos e marés e mar chão».

 

Fotos: Elisabete Rodrigues | Sul Informação

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