Faro voltava a construir Estádio Algarve, mas Loulé tinha de pensar melhor

Estádio Algarve está «no limite da sua utilização», mas falta criar «valor acrescentado» no Parque das Cidades

Foto: Gonçalo Dourado/Sul Informação

Há quase 15 anos, a 23 de Novembro de 2003, o Estádio Algarve foi inaugurado. A sua construção nunca foi consensual e passado todo este tempo ainda não é. Os próprios municípios, que investiram cerca de 30 milhões de euros na obra, e gerem o recinto, têm visões diferentes: Faro voltava a construí-lo. Loulé tinha de pensar melhor.

Paulo Santos, vice-presidente da Câmara de Faro, garante ao Sul Informação que «se fosse hoje, e sabendo o que sei, se tivesse de tomar essa decisão, tomaria exatamente igual». O autarca farense suporta a sua opinião pela ocupação do recinto que está «no limite da sua utilização. Ao contrário de outras situações, o estádio está mantido nas devidas condições. Tem certificação para receber um jogo da Seleção portuguesa amanhã, se for caso disso. As Câmaras de Faro e de Loulé, com algum esforço, nunca permitiram que a infraestrutura entrassem em colapso», explica.

Por seu lado, Pedro Pimpão, vice-presidente da Câmara de Loulé, considera que, «se se avançasse com o Estádio Algarve hoje, teríamos de avançar com um maior conjunto de entidades envolvidas. Não podiam ser duas câmaras municipais, com a dimensão que têm, a construir um estádio de mais de 30 milhões de euros. Devia envolver mais autarquias, a comunidade, privados, grupos hoteleiros, todos beneficiam desta infraestrutura. Se tivéssemos hoje a possibilidade de construir um estádio, tinha que ser um projeto maior do ponto de vista do envolvimento. Isto porque sabemos que Faro tem um estádio, Loulé tem um estádio, Olhão tem um estádio, Portimão tem um estádio… Tinha que ser muito bem visto».

Apesar de o Estádio Algarve não ter uma equipa da primeira divisão a jogar regularmente, «desde sempre teve ocupação e vive bem com isso. Em 2017, tivemos 59 ocupações e, dessas, 44 foram devidas a jogos oficiais. Se calhar, são mais jogos oficiais do que alguns estádios, com equipas da primeira divisão, recebem», diz Paulo Santos.

Em termos de jogos oficiais, uma das “ajudas” tem sido dada pela seleção de Gibraltar que, desde 2013, utiliza este estádio. «Foi importante a seleção de Gibraltar ter começado a jogar aqui e vai continuar. Vamos renovar o protocolo», adianta o autarca.

Ainda no âmbito dos jogos oficiais, o estádio recebe «algumas vezes, jogos do Louletano e o Farense também já o utilizou. Depois, tivemos, no ano passado, a Final Four da Taça CTT».

O centro de estágios em construção

Há ainda outros torneios de cariz não oficial, «em várias alturas do ano. Por exemplo, a Atlantic Cup, que traz equipas nórdicas de primeira linha ao Algarve na paragem de Inverno» e jogos de pré-época.

Além destes jogos, em 2017, o Estádio Algarve recebeu também 31 treinos. E é «a isto que não conseguimos dar resposta. Para poupar e fazer uma gestão equilibrada do relvado, estamos a construir o centro de estágios. Nós recusamos treinos no Estádio Algarve todas as semanas. Não estamos a fazer um centro com três campos porque achamos que vai funcionar. Sabemos que vai funcionar pela procura e recusa de equipas que querem treinar no Estádio Algarve», diz Paulo Santos.

Maior capacidade de acolher treinos neste estádio pode atrair, segundo o vice-presidente da Câmara de Faro, mais clubes internacionais que procuram a região para os estágios de Inverno e de pré-época.

No entanto, Pedro Pimpão, vice-presidente da Câmara de Loulé, não tem uma visão tão otimista. Apesar de considerar que «dotar o Estádio Algarve de campos de treino é benéfico, porque temos de dar valor acrescentado», as equipas estrangeiras «precisam de apoios ao nível da hotelaria. A maior parte das equipas treina em Vale de Lobo e outros locais, porque têm capacidade hoteleira à volta. Por isso, ou este Parque das Cidades é dotado de oferta hoteleira próxima, ou o centro servirá numa lógica de apoio a equipas locais e nacionais. Na atual conjuntura, sem hotelaria, será isso que irá acontecer».

O Plano de Pormenor do Parque das Cidades prevê a construção de unidades hoteleiras, mas também previa outras infraestruturas como o Hospital Central do Algarve, que não avançou. «Quando temos grande investimento, do tamanho do estádio, ou mandamos abaixo, como muitos economistas já defenderam, ou damos valor acrescentado com infraestruturas, que já estavam estudadas, como o Hospital Central do Algarve», diz Pedro Pimpão. Dos investimentos previstos, que dariam maior centralidade ao espaço, apenas nasceu o Laboratório Laura Ayres.

A possibilidade de rever o Plano Pormenor do Parque das Cidades é algo que está em cima da mesa, segundo os dois autarcas.

Pedro Pimpão diz que «essa é uma discussão a ter. Embora tudo dependa da evolução a incrementar nos territórios e das circunstâncias do mercado. Quando pensamos no Estádio Algarve, pensamos noutra lógica. Aliás, o presidente da Câmara de Loulé, no Dia do Município, lançou um desafio de criar a estação intermodal em São João da Venda, que daria uma nova centralidade ao Parque das Cidades. Defendemos esse sistema intermodal ali. Aquela estação tem capacidade para se tornar mais do que é e pode ser um valor acrescentado para o próprio estádio».

No entanto, Faro tem outra ideia para a localização de uma estação intermodal: o Patacão. Aliás, essa é uma das ideias explícitas na proposta do novo Plano Diretor Municipal (PDM) da capital algarvia, que está a ser ultimada.

O Estádio Algarve nunca foi gerador de consensos.

Quanto custou (e ainda custa) o Estádio Algarve?

A obra do Estádio Algarve custou cerca de 38 milhões de euros, sendo que a Associação de Municípios Faro Loulé contratualizou dois empréstimos de médio e longo prazo, um de 16,9 milhões de euros, que termina a 20 de Janeiro de 2023, e outro de 7 milhões de euros, que termina a 24 de Março de 2024. Destes empréstimos, falta pagar 6,5 milhões de euros. O Estado comparticipou a obra em 9,9 milhões de euros.

Mensalmente, para amortização de capital e de juros dos dois empréstimos contratados, cada município paga cerca de 28 mil euros, ou seja, 56 mil euros no total.

Já os encargos de funcionamento médios do Estádio, por mês, são de 37 mil euros, divididos pelos dois municípios, o que dá um valor anual estimado de 448 mil euros. O valor das receitas, em 2017, rondou os 199 mil euros, ou seja, menos de metade do que as despesas.

Em 2018, a previsão de gastos total ascende aos 426 mil euros.

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